Capítulo 4
Nile examinou os arquivos da pasta. As sobrancelhas dele levantaram, tipo, MUITO surpreso.
Eu nem esperei ele falar nada. Se ele quiser me insultar de novo, não quero ouvir. Se ele perceber que tava errado e quiser me elogiar, ou melhor ainda, pedir desculpas, não quero ouvir.
Minha mão, que já tava indo pra maçaneta, parou no ar quando eu ouvi ele pigarrear.
"Obrigado."
Eu me virei pra encarar ele. "Na próxima vez que você ler um livro, não se apaixone tanto pela capa." Certeza que eu não perdi a chance de retrucar. Não esperei ele falar nem ver a reação dele. Bati a porta com força enquanto curtia ter a última palavra.
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"Eu preciso da sua ajuda."
Quinn apareceu do nada. A figura dela, pequenininha, tava cobrindo minha visão no ensaio fotográfico que tava rolando no nosso próprio estúdio.
"Com o que posso te ajudar nessa manhã tão cedo, minha querida amiga?" Eu tava sentada numa das bancadas aqui, de boa, monitorando o nosso primeiro trabalho do dia, que começou às 6 da manhã. As modelos tinham outro cronograma hoje, então tivemos que começar mais cedo.
"Talvez eu tire uma folga hoje. O Tyler finalmente teve tempo de fazer a degustação do nosso bolo, então não vou poder ocupar seu lugar em Veselov."
"Que pena." Eu falei, sem emoção. Meus olhos ainda tavam nas modelos e no fotógrafo, que tava ocupado dirigindo as poses boas pra tirar.
"Kur, por favor. Você precisa ir pra Veselov." Ela insistiu.
"Mesmo que eu fosse lá, o cara me odeia, então prefiro não estragar o humor dele com a minha presença."
Aí a Quinn sentou do meu lado. A bancada era suficiente pra caber duas pessoas. "Sabe, eu e ele conversamos faz uns dias. Ele tava bem arrependido por ter te julgado. Ele viu seus esforços e conseguiu entender por que eu confio tanto em você. Deu pra ver o arrependimento nos olhos dele."
A minha cabeça girou rápido e eu olhei pra ela, desacreditada. "Ele disse isso?"
"Deu pra ver na cara dele." Ela respondeu, inocente.
Eu soltei uma risadinha. "Bem, isso é reconfortante."
"Ah, qual é, Kur. Só faz esse projeto por mim, não por aquele babaca." Eu levantei a sobrancelha, achando engraçado ela ter chamado o amigo da família de babaca. Ela claramente pegou de mim, mas teve que fazer um pouco de 'puxa-saquismo' antes de eu sequer me mudar pra cá. "Ah, não faz essa cara pra mim. Tô puxando o seu saco pra conseguir o seu favor." Ela falou, revirando os olhos.
Eu ri. "Claro." Fiquei olhando pra ela com um sorriso. "Sabe, o Tyler tem muita sorte de ter você. Ele tem sorte de ter vocês dois como parceiros pro resto da vida. E eu serei a azarada que vai ver a minha melhor amiga ser roubada de mim."
"Ah, Kur, não me faz chorar. Tô quase explodindo aqui." Ela tava abanando os olhos com as mãos delicadas. Eu ri, zoando ela.
"Tá, beleza. Eu vou pra Veselov, mas em troca você tem que fazer o bolo de casamento de chocolate."
Ela sorriu, mostrando os dentes brancos como pérolas. "Fechado."
Na verdade, nem era um pedido desde o começo, já que a Quinn ia escolher chocolate de qualquer jeito. Ela ama tanto, e eu só fui influenciada por ela. Nunca fui de doce, mas ela me fez amar chocolate. O Tyler ia aceitar, não importa o que fosse. Ele ama tanto a noiva dele. E eu vou ser essa personagem secundária na vida deles, que vai ficar mais do que feliz em ver a melhor amiga ser roubada.
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No dia seguinte, a Quinn veio comigo pra Veselov. Meu dia não começou com a minha caminhada de sempre, já que ela veio me buscar no meu apartamento. Eu ainda tava dormindo quando ela chegou. O som incessante da campainha me acordou. Abri a porta com o cabelo todo bagunçado e ainda tava meio grogue. A Quinn tava animada e pra cima, com uma sacola de café da manhã e café nas mãos. Ela com certeza tomou muita cafeína e tava muito Tyler ontem.
Nós ainda tamos muito ocupadas e ainda não finalizamos tudo. O planejamento sempre leva muito tempo, principalmente algo grande como isso, então tamos presas no escritório por enquanto. Deixei nossos funcionários cuidarem das coisas fora.
"Tô aqui pra trazer um almoço pras meninas." Nossas cabeças viraram pro intruso ao mesmo tempo. Estávamos tão focadas no trabalho que nem percebemos que alguém tinha aberto a porta.
O sorriso da Quinn era tão largo que podia cortar a cara dela no meio. "Tyler!" Ela gritou, e foi pra cima do noivo dela.
Meus olhos arregalaram, alarmada com o gesto dela. Ele quase deixou as sacolas que tava segurando caírem só pra receber o abraço da Quinn. Fui rápida o suficiente pra pegar, enquanto dava uma bronca nela. "Porra, Quinn. Você quase destruiu nosso almoço!" Coloquei as sacolas na mesa com cuidado.
O Tyler conseguiu retribuir o abraço dela, quente e apertado, apertando e balançando ela. Ele tava sorrindo com a animação dela e provavelmente achando ela fofa.
"Obrigado pela comida, amor." Aí ela soltou ele e beijou ele. Ele devolveu o beijo nas bochechas dela, sorrindo.
"É, sempre o salvador."
Ele riu quando viu meu estado e já começou a comer a comida que trouxe. "Eu sabia que alguém ia estar faminta. Desculpa, amor, mas a comida é pra Kura." Ele me provocou.
Ela deu uma risadinha. "Já tava sentindo."
Meu sorriso tava satisfeito enquanto eu assistia eles juntos. Sei que falei pra ela que o Tyler tinha sorte de ter ela. Era a mesma coisa com ela também. O Tyler é o tipo de cara que toda garota sonha. Depois de todos os homens com quem ela saiu, e que eu mal aprovava, ela finalmente encontrou o homem certo pra ela. Eles namoraram por um ano e meio antes do Tyler pedir ela em casamento. E antes disso, os dois já estavam combinados pra casar pelas famílias.
A Quinn protestou no começo. Ela era tão romântica. Sempre quis casar com alguém que amasse. Mas os pais dela ficaram impacientes. Ela tava fazendo vinte e seis anos naquela época e ainda não tinha conseguido encontrar alguém com quem ia casar. Quando ela conheceu o Tyler, ele propôs que os dois começassem a namorar primeiro, e se não desse certo, não haveria casamento.
Dois anos depois, surpreendentemente, eles deram certo. Nunca tive um pingo de sentimento ruim por ele, diferente de todos os outros homens com quem ela saiu. Todos eram arrogantes e egocêntricos, principalmente quando ela não estava por perto. Ela não sabia disso, mas eu tinha uma boa quantidade de socos pra eles sempre que me insultavam ou insultavam a Quinn. O Tyler era tão diferente deles, apesar da posição dele na sociedade. Ele era rico, bonito, mas acima de tudo, era gentil, equilibrado e falava baixo. Ele tinha tudo, e era perfeito pra ela.
Deixei ele levar ela depois do almoço, depois de garantir que eu tava bem por enquanto com o trabalho. Planejar um casamento era tão difícil, já que você só podia ter o melhor casamento da sua vida com alguém que você ama.
Eu tava tão concentrada em terminar meu trabalho que nem percebi o tempo passar. Já passava das 22h quando finalmente percebi. Esfregando meu rosto de cansaço, decidi que realmente deveria ir pra casa.
Os escritórios e as baias tavam escuros e vazios quando eu passei, me mostrando que eu era a única que sobrou aqui. Assim que saí do elevador, pude ouvir o som alto da chuva forte caindo lá fora. Caminhei em direção à entrada, observando a chuva batendo contra as paredes transparentes do prédio.
Por que eu não percebi isso no escritório? Me perguntei. Amaldiçoei baixo, pensando em como eu ia pra casa agora. A chuva tava tão forte que parecia que ia ter uma tempestade.
"Boa noite, Miss Kur." O segurança, cujo nome era Jackson, balançou a cabeça em cumprimento. Eu balancei a cabeça de volta com um pequeno sorriso. "Receio que você não vai poder ir pra casa hoje à noite. Vai ter uma tempestade. As notícias disseram que era melhor ficar em casa."
"Você tá de sacanagem comigo." Eu murmurei. No começo do verão? Eu sou tão azarada assim? Agradeci ao Jackson de qualquer jeito. Decidi me virar e provavelmente dormir no escritório. Claramente, eu não tinha escolha.
Meus olhos de repente encontraram a fonte da minha má sorte. Ele parou de repente quando também me viu, os olhos arregalados de surpresa. Ele tirou o casaco e a gravata, ficando só com a camisa branca com as mangas dobradas. Acordando da surpresa, ele continuou a andar. Eu também.
Quando finalmente nos encontramos no meio do caminho, ele de repente pegou meu braço, me pegando de surpresa. "Fique aqui." Ele falou, confuso, e foi em direção ao Jackson, que o cumprimentou com respeito.
Fiquei parada, pensando no que ele ia aprontar.