Cinco
Clara
É tipo, antes de entrar nessa casa, eu achava que vampiros eram frios, sozinhos, sem coração e um monte de coisas horríveis, mas uau! Esses caras são mais doces que minha própria família lá no bando. Tem um gato que tá bêbado, mas é muito engraçado. Quando eu entrei nessa casa, nem sabia o que esperar.
Na casa do bando, lá em casa, sempre tem um monte de gente andando pra lá e pra cá. Mas tem áreas restritas, né? Essa família parece bem unida, mais do que nosso bando.
Não acredito que ainda tô acordada a essa hora. Que horas serão? Fico olhando pras paredes, torcendo pra ter um relógio ali, mas não acho nenhum. Preciso achar o cara, nem sei o nome dele ainda!
Me ofereceram uns drinks, mas eu recusei. Quero ficar sussa na minha primeira noite aqui. Tenho que ter cuidado, principalmente porque tô só com esse casaco, sem nada por baixo.
Levanto do sofá que eu tava e começo a andar pela casa, procurando meu par. Onde será que ele tá? Que confusão procurar alguém numa casa que você nunca viu antes! Queria pedir informação, sei lá, se alguém sabe onde ele tá, mas, porra! Como vou perguntar sem saber o nome dele?
A casa é bem grande. De fora já dava pra ver que era uma casa espaçosa, mesmo escura. Tudo dentro parece bem conservado e arrumado. Diferente da casa do bando, que tem tudo em todo lugar. Acho que lobisomens não são tão organizados quanto vampiros. Lobisomens gostam de lugares aconchegantes, com bastante gente e vida, enquanto vampiros são formais e organizados, preferem lugares arrumados. Acho que foi só um vacilo eu ter achado alguns deles bêbados, mas eles ainda têm aquela seriedade no comportamento.
Ando por um corredor comprido, cheio de portas fechadas. Deve ter quartos pra cada um. Eles parecem bem acordados, como se o dia deles tivesse acabado de começar. Aposto que dormem o dia todo e festejam a noite toda. Só de pensar em passar a noite toda acordada com meu par, me dá um sorriso de idiota.
Tenho que achar ele logo, antes que eu me meta em encrenca. Talvez esses quartos sejam áreas proibidas. Pode ter coisas bizarras escondidas lá dentro, ou...
O cheiro doce e delicioso me tira dos meus pensamentos. Hum... minha loba ronrona. Ele tá por aqui em algum lugar. Sigo pelo resto do corredor, em direção ao final. Tem tantos retratos nas paredes. Provavelmente um desses vampiros é artista.
Subo as escadas depois do corredor. Não é uma boa ideia. Posso acabar me perdendo nessa casa. Deus sabe o quão grande ela é e quanto tempo levariam pra me achar. Ah, tá, quem eu tô querendo enganar? São vampiros que eu tô falando. Eles me acham sem nem tentar.
No final das escadas, encontro uma porta aberta. O ar que vem dela é gelado. Deve dar pra fora. Passo por ela e acabo numa espécie de varanda. O cheiro dele fica mais forte. Ele tá aqui.
E, de fato, ele está. Meu rosto se abre num sorriso que some na hora que eu percebo que ele não está sozinho. Tem uma loira alta na frente dele. Ela tá com as mãos no pescoço dele. Tipo, tentando puxá-lo pra perto, como se quisesse beijá-lo.
Eu não devia estar vendo isso, tinha que sair correndo daqui, longe dessa casa, ir pra um lugar que ninguém me ache. Talvez eu tenha a sorte de voltar pra casa. Minha loba se encolhe e se esconde de mim. Ela também não aguenta ver isso.
"Damien, por favor", a loira implora e inclina a cabeça pra encostar o rosto no dele. Não. Preciso ir embora daqui, mas minhas pernas não se mexem. É como se estivessem grudadas no chão. Damien não se move. Então é assim que eu fico sabendo o nome dele, né?
A loira começa a fazer carinho na barba dele e eu não aguento mais assistir. Quando eu tô quase me virando e indo embora, Damien finalmente fala.
"Não, Amber. Não posso. Eu pertenço a outra pessoa agora. Sempre foi assim. Eu não sou o cara pra você", ele diz pra ela e tira as mãos dela dele. Um alívio me invade pelo fato de que pelo menos ele não a quer.
A Amber começa a soluçar. Que drama. O que ela quer do meu par? Conheço um monte de gente que namorava antes de encontrar seus pares. Eles sempre ficam de coração partido quando seus parceiros não são seus pares.
É o caso do Damien e da Amber? Eles são amantes? Eu tô atrapalhando o relacionamento deles? Eu sei que o Damien não podia ter esperado por mim. Ele deve ter vivido décadas antes de eu nascer, talvez até séculos.
A Amber enxuga o rosto com o dorso da mão e seus olhos pousam em mim. Damien também se vira pra me olhar e um calafrio percorre minha espinha. A loira se afasta dele e passa por mim sem dizer uma palavra. Damien continua me encarando por um momento, como se estivesse pensando se fala alguma coisa ou se fica quieto.
Eu também não digo nada. Só fico parada, paralisada no chão, tentando entender o que acabou de acontecer na minha frente. Até minha loba, que tava super animada desde hoje à noite, tá quieta.
"Clara", ele finalmente quebra o silêncio constrangedor e dá passos lentos e calculados em minha direção. De repente, tá frio aqui fora com esse casaco.
Ele fica na minha frente e primeiro estuda meu rosto. Que bom que eu consegui me manter firme e não surtei durante a cena.
"Clara, eu..." ele diz e passa as mãos no cabelo, que tava todo arrumado, deixando-o desorganizado e sexy. Meu Deus! Eu não devia estar pensando nisso. Devia estar brava ou algo do tipo.
"Eu posso explicar", ele me diz. Olho nos olhos dele e me pergunto o que ele quer me dizer.
"Não precisa explicar nada", eu digo e os olhos dele se arregalam.
"Quer dizer, eu entendo se tá rolando alguma coisa entre vocês. Desculpa por interromper", eu digo.
"Interromper! O quê? Não!" ele me corta. "Não tá rolando nada entre mim e a Amber. Somos família, como todo mundo aqui em casa. Ela só sempre quis que eu fosse o par dela, mas eu não sou pra ela. Eu sou seu", ele diz e meu coração derrete com as palavras dele. Ele não a quer. Ele me quer.
"O que você acabou de ver não significa nada. Eu disse pra ela que não quero ficar com ela porque agora eu tenho você", ele me diz, e de repente me sinto burra por duvidar dele.
Enrolo meus braços na cintura dele e ele me puxa pra um abraço apertado. Levanto a mão no pescoço dele e aproximo o rosto dele. Eu quero os lábios dele. Quero a certeza dele. Ele vem até mim por vontade própria e reivindica minha boca num beijo quente.