Dois
Damien
Eu achei que tava correndo solto quando alguma coisa começou a cheirar maravilhosamente nessa droga de beco, mas quando eu achei essa mina, sei lá o que pensar mais. Agora ela virou as costas pra mim e tá indo embora!
O que eu falei? Ela parecia muito magoada antes de ir embora.
"Espera!" Eu grito e ela para, mas não olha pra trás. Não sei porquê, mas sinto que não posso só deixar ela ir embora assim. Corro na direção dela e paro atrás dela. Ela me chamou de par.
Eu sei que lobisomens acham pares em algum momento da vida, com quem supostamente vão viver pro resto da vida, mas eu não sou lobisomem. Alguns lobisomens acham pares humanos, mas eu sou um vampiro. Nunca ouvi falar de um lobisomem com um vampiro.
"Desculpa se eu falei alguma coisa errada", eu digo, passando as mãos no cabelo.
"Não, tá tudo bem. Te confundi com alguém que você não é", ela responde sem se virar pra me olhar. As palavras dela são calmas, mas pesadas de emoção. Por que isso faz meu coração doer tanto quando ela diz que eu não sou o que ela pensava que eu era?
"Olha pra mim", eu peço. Ela hesita um pouco, mas depois se vira e me olha nos olhos. Agora consigo ver o contorno delicado e lindo do rosto dela. Ela tem olhos castanhos e cabelo preto-azulado, sedoso, que cai pelos ombros em ondas.
"Eu sou vampiro. Quer dizer, lobisomens não podem ter pares vampiros", eu digo pra ela. Ela não parece abalada com a minha identidade.
"Quem disse isso?" ela me pergunta, dando de ombros.
"Então você ainda me quer como seu par, mesmo depois de saber que eu sou vampiro?" Eu pergunto, com descrença na voz.
"O céu planeja que eu tenha um par vampiro. Não posso ir contra isso", ela responde.
"Você não pode simplesmente aceitar isso como se não tivesse escolha", eu digo.
"Você não me quer como seu par?" ela me pergunta com uma voz suave. O silêncio que segue é ensurdecedor.
"Eu nunca disse nada sobre não te querer", eu digo.
"Nossa! Faz décadas que eu tô esperando pelo meu par!" E não acredito que finalmente te achei. Eu não falo a última parte, mas os olhos dela se arregalam quando ela ouve isso.
Chego mais perto dela e passo a mão na bochecha dela. A pele dela é tão macia, tão quente. Ela se assusta um pouco com o meu toque, mas depois relaxa.
"Por que você tá aqui sozinha?" eu pergunto pra ela com um tom calmo e suave. Ela levanta um pouco a sacola nas mãos, como se fosse óbvio.
"São compras? Você devia ir pra casa e começar a cozinhar", eu digo pra ela, e ela me dá um sorriso.
"Você não quer ir pra casa?" eu pergunto, com um sorriso de canto. Ela balança a cabeça e depois fecha os olhos. Ela encosta o rosto na minha mão, se entregando ao meu toque.
Por que ela não quer ir pra casa? Ela tá sofrendo lá? Meus músculos ficam tensos só de pensar em alguém maltratando ela de alguma forma.
Tento pegar a sacola dela, mas ela segura mais forte, pra eu não conseguir pegar.
"Vem. Eu te levo pra casa", eu digo, mas ela balança a cabeça, não.
"Clara! Clara!" alguém chama da rua e Clara imediatamente abre os olhos.
"Você tá com alguém?" eu pergunto pra ela.
"Não", ela responde, se mexendo pra se afastar de mim e criar o máximo de distância possível.
"Acho que já vou", ela diz.
"O quê? Espera!" Eu grito. Ela tá indo embora? Assim, de repente?
Ela me dá um sorriso radiante e se vira pra ir em direção à rua. Eu observo a figura dela desaparecer e ela some!
Droga! Foi muito rápido. Eu tenho toda a vontade de seguir ela e saber com quem ela foi, ou descobrir onde ela mora, mas tenho que me controlar.
Uau! Faz anos que não sinto essa energia!
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Vou pra casa. A casa em que a gente mora é um pouco isolada da cidade. Isso é bom pra privacidade do nosso Clã. Vampiros, diferente de lobisomens, preferem viver em lugares tranquilos e isolados, onde tem pouca interferência da cidade.
Lobisomens podem viver e interagir com pessoas em qualquer hora do dia, diferente da gente. Nossos movimentos são limitados durante o dia, então a gente se move mais à noite.
Todo mundo em casa saiu, exceto Amber, Victoria e Luther. Acho que o resto foi se alimentar.
"Ah, você voltou", Amber diz, se levantando do sofá como se tivesse me esperando o tempo todo que eu estive fora.
Victoria e Luther são parceiros. Eles estão juntos há muito tempo, provavelmente desde que eu me lembro. Amber, no entanto, é solteira. Ela tem tentado me convencer que a gente podia ser parceiros de vida, mas eu considero ela minha irmãzinha. Não consigo me imaginar em um relacionamento sexual ou romântico com ela.
"A casa tá bem quieta. Onde tá todo mundo?" Eu escolho fazer a pergunta mais óbvia e passo por Amber, que faz uma cara de decepção.
"Raul me falou que abriu um bar novo hoje. Eles trabalham a noite toda", Luther responde com um sorriso divertido.
"Raul, aquele bêbado! Sempre procurando uma oportunidade pra se acabar!" Eu digo e sento do lado de Luther. Ele se aproxima de mim e cheira meu casaco dramaticamente.
"E onde você tava?" ele me pergunta, com um baita
sorriso no rosto.
"Na cidade", eu respondo com uma voz sem emoção, tentando fugir do assunto, mas ele não desiste.
"Na cidade, fazendo o quê?" ele me pergunta, levantando as sobrancelhas pra me persuadir. "Com quem?" ele continua.
Droga! Ele não vai desistir. Eu sei muito bem que o cheiro da Clara ainda tá em mim. Talvez eu devesse contar pra ele. Não tem porque esconder dele. Ele vai descobrir a verdade de qualquer jeito. Respiro fundo antes de abrir o bico.
"Acho que achei minha parceira de vida", eu finalmente conto pra ele. Ele parece chocado por um momento e seus olhos se arregalam incrivelmente. Seus olhos imediatamente pousam em Amber, que está na minha frente com a mesma expressão. O quê! Por que eles estão tão surpresos? Eles sabiam que eu tinha que achar minha parceira um dia, de qualquer forma.
"Que foi?" eu pergunto pra eles.
"Tem certeza que é ela?" Luther me pergunta.
"Tenho muita certeza. Eu sou o par dela."
"Par? Ela é lobisomem?"
"Sim, ela é lobisomem", eu respondo.
Luther e Amber trocam olhares antes que ele continue o interrogatório.
"Onde ela tá? Você trouxe ela com você?" ele pergunta, olhando pra entrada da casa.
"Não, claro que não. Ela teve que ir pra casa. Ela provavelmente pertence a um bando ou algo assim", eu respondo. Eu queria ter trazido ela pra casa antes de quem interrompeu nosso momento chegar.
"Tô muito feliz por você, cara! Finalmente, você tem alguém", Luther diz com um sorriso radiante, dando tapinhas no meu ombro. Amber revira os olhos com raiva. Ela já tá com ciúmes da minha parceira antes mesmo de conhecer ela.