Seis
Clara
É assim que eu pensava sobre vampiros antes de entrar nessa casa: frios, solitários, cruéis e muitas outras coisas horríveis, mas uau! Esses caras são mais doces que a minha própria família lá na alcateia. Tem aquele gato que tá bêbado, mas ele é muito engraçado. Quando eu entrei nessa casa, eu não sabia o que esperar.
Na casa da alcateia, lá em casa, sempre tem um monte de gente andando pra lá e pra cá. Mas tem áreas restritas. Essa família parece ser bem unida, mais unida que a nossa alcateia.
Eu não acredito que ainda tô acordada a essa hora. Me pergunto que horas são. Olho pelas paredes, esperando um relógio de parede ali, mas não acho nenhum. Preciso achar o cara, nem sei o nome dele ainda!
Me ofereceram um pouco de bebida, mas eu recusei. Quero estar sóbria na minha primeira estadia aqui. Tenho que tomar cuidado, principalmente porque só tô usando esse casaco, sem nada por baixo.
Levanto do sofá que eu tava sentada e ando pela casa pra procurar meu par. Me pergunto onde ele pode estar. Que confusão procurar alguém numa casa que você nunca esteve antes! Queria pedir informação, talvez alguém saiba onde ele tá, mas droga! Como vou perguntar sem saber o nome dele?
A casa é bem grande. De fora já deu pra ver que é uma casa bem espaçosa, embora esteja escuro. Tudo dentro parece muito bem conservado e arrumado. Diferente da casa da alcateia, onde tudo tá em todo lugar e sobre tudo. Acho que lobisomens não são tão organizados quanto vampiros. Lobisomens gostam de lugares aconchegantes, com muita gente e vida, enquanto vampiros são indivíduos muito formais e organizados que preferem lugares organizados. Acho que foi só um deslize eu ter encontrado alguns deles bêbados, mas eles ainda têm a seriedade gravada no comportamento deles.
Eu passo por um corredor longo cheio de portas fechadas. Deve ter quartos específicos pra cada um deles. Eles parecem estar bem acordados, como se o dia deles tivesse acabado de começar. Aposto que eles dormem o dia todo e festam a noite toda. A ideia de passar a noite toda acordada com meu par me faz sorrir como uma idiota.
Tenho que achá-lo logo antes de me meter em problemas. Talvez esses quartos sejam áreas proibidas. Pode ter coisas sinistras escondidas lá, ou...
O cheiro doce e de dar água na boca me tira dos meus pensamentos delirantes. Mmm... minha loba ronrona. Ele tá aqui em algum lugar. Eu ando pelo resto do corredor longo até o fim. Tem tantos retratos nas paredes. Provavelmente um desses vampiros é artista.
Continuo subindo as escadas depois do corredor. Essa não é uma boa ideia. Posso acabar me perdendo nessa casa. Deus sabe o quão grande ela é e quanto tempo levaria pra me encontrarem. De quem eu tô brincando? São vampiros de quem eu tô falando. Eles vão me encontrar sem nem tentar.
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No final da escada, eu encontro uma porta aberta. O ar que vem por ela é gelado. A porta deve levar pra fora. Eu passo por ela e acabo numa espécie de varanda. O cheiro dele fica mais forte. Ele tá aqui.
E de fato ele está. Meu rosto se abre num sorriso, que desaparece imediatamente quando percebo que ele não está sozinho. Tem uma loira alta em pé na frente dele. Ela está com as mãos em volta do pescoço dele. Ela está tentando puxá-lo pra mais perto, como se quisesse que ele a beijasse.
Eu não devia estar vendo isso, eu devia correr daqui, longe dessa casa, e ir pra bem longe, onde ninguém pudesse me encontrar. Talvez eu tenha sorte de me encontrar de volta em casa. Minha loba apenas se enrosca e se esconde de mim. Ela também não suporta ver isso.
"Damien, por favor", a loira implora e inclina a cabeça pra aproximar o rosto dele. Não. Preciso sair daqui, mas minhas pernas não se mexem. É como se estivessem enraizadas no chão. Damien não se mexe. Então é assim que eu fico sabendo o nome dele, hein?
A loira começa a acariciar a barba por fazer dele, e eu não consigo mais suportar olhar. Justamente quando estou prestes a virar e ir embora, Damien finalmente fala.
"Não, Amber. Eu não posso. Eu pertenço a outra pessoa agora. Sempre foi assim. Eu não sou o homem pra você", ele diz pra ela e tira as mãos dela dele. O alívio me invade pelo fato de que pelo menos ele não a quer.
Amber começa a soluçar. Isso é tão emocionante. O que ela quer do meu par? Eu conheço muitas pessoas que tiveram relacionamentos antes de encontrar seus pares. Elas sempre têm seus corações partidos quando seus parceiros não acabam sendo seus pares.
É esse o caso entre Damien e Amber? Eles são amantes? Eu estou interrompendo o relacionamento deles? Eu sei que Damien não poderia ter me esperado. Ele deve ter vivido décadas antes de eu nascer, talvez até séculos.
Amber enxuga o rosto com as costas da mão e seus olhos pousam em mim. Damien também se vira pra me olhar e um arrepio percorre minha espinha. A loira se afasta dele e passa por mim sem dizer uma palavra. Damien continua me encarando por um momento, como se estivesse tentando debater se devia dizer alguma coisa ou apenas ficar quieto.
Eu também não digo nada. Eu apenas fico ali, paralisada no chão, tentando entender o que acabou de acontecer na minha frente. Mesmo minha loba, que está bem animada desde hoje à noite, está quieta.
"Clara", ele finalmente quebra o silêncio constrangedor e dá passos lentos e calculados em minha direção. De repente, tá frio aqui fora com esse casaco.
Ele fica na minha frente e primeiro estuda meu rosto. Que bom que eu consegui me controlar e nunca desabei durante a cena.
"Clara, eu..." ele diz e passa as mãos pelo cabelo bem penteado, deixando-o desorganizado e sexy. Deus! Eu não devia estar pensando nisso. Eu devia estar brava ou algo assim.
"Eu posso explicar", ele me diz. Eu olho nos olhos dele e me pergunto o que ele quer me dizer.
"Você não precisa explicar nada", eu digo pra ele e os olhos dele se arregalam.
"Quer dizer, eu entendo se tiver algo rolando entre vocês dois. Sinto muito por interromper", eu digo.
"Interromper! O quê? Não!" ele me corta. "Não tá rolando nada entre mim e Amber. Somos família, assim como todo mundo nesta casa. Ela sempre quis que eu fosse o parceiro dela, mas eu não sou pra ela. Eu sou seu", ele diz e meu coração derrete com as palavras dele. Ele não a quer. Ele me quer.
"O que você acabou de ver não significa nada. Eu disse a ela que não quero estar com ela porque agora eu tenho você", ele me diz, e de repente me sinto estúpida por duvidar dele.
Eu envolvo meus braços na cintura dele e ele me puxa para um abraço apertado. Eu levanto minha mão em volta do pescoço dele e puxo o rosto dele pra mais perto. Eu quero os lábios dele. Eu quero a segurança dele. Ele vem pra mim de bom grado e reivindica minha boca num beijo quente.