Nove
Damien
Eu pedi para a Victoria me ajudar a preparar um pouco de café da manhã para a Clara, porque, tipo, eu realmente não sei por onde começar. Coloquei na mesinha da cozinha e esperei ela descer as escadas.
Ela já deve ter terminado de se arrumar. Será que ela se perdeu a caminho de baixo? Sei que tem um monte de quartos e corredores pra ir do meu quarto até lá, mas ela deveria conseguir achar o caminho. Será que devo ir buscar ela?
"Você acha que ela vai conseguir achar o caminho pra cá?" A Victoria me pergunta enquanto limpa a bancada da cozinha.
"Espero que sim," eu respondo e ela revira os olhos.
"Talvez você devesse ir ver como ela está," ela sugere.
"Eu tava pensando a mesma coisa, mas deixa ela. Não tem jeito melhor de se acostumar com um lugar do que se perder," eu falo.
"Você é um namorado tão insensível. Tenho pena dela," ela diz com um sorriso.
"Ela ainda não reclamou. Acho que tô indo bem até agora," eu digo pra ela e ela ri.
"Você devia saber que ela tá com você faz só umas horas, então ela não pode julgar sua personalidade pelas suas ações ainda," ela fala.
"Ela vai se acostumar comigo a longo prazo," eu falo.
"De qualquer forma, por quanto tempo você pretende manter ela aqui?" ela me pergunta. Eu também não tinha pensado nisso.
"Não sei. Ela pode ficar aqui o tempo que quiser," eu respondo.
"Você vai mesmo manter ela aqui sem checar com a família dela? Você nem sabe como eles são. Você sabe muito bem como o Fabian nos odeia, e ela é da alcateia dele," ela diz.
"Não acho que aquele babaca tenha tempo pra ficar procurando membros desaparecidos da alcateia dele," eu falo pra ela e ela balança a cabeça.
"Você devia saber que eu desejo tudo de bom pra você e seu relacionamento com ela, mas não quero nenhum problema com o Fabian," ela diz.
"Não se preocupa com isso. Tudo vai ficar bem," eu digo, dispensando ela com a mão. Não acho que o Fabian seja tão burro a ponto de causar caos no meu lugar.
A Clara finalmente desce as escadas com um vestido preto que abraça as curvas dela muito bem. Percebi o sorriso da Victoria quando ela viu como ela tava bonita no vestido.
"Oi, querida. Como você está?" A Victoria corre até ela com um sorriso no rosto antes que eu pudesse fazer alguma coisa.
"Tô ótima," a Clara responde com um sorriso de volta.
"Que bom. Olha, fiz café da manhã pra você," ela diz e leva ela pra mesa onde eu tinha colocado o café da manhã dela.
"Parece delicioso. Obrigada," a Clara diz pra ela e senta em uma das cadeiras. Fico quieto do lado da bancada da cozinha e observo, divertido, enquanto a Victoria faz o possível pra impressionar a Clara.
A Clara olha pra mim e me dá um sorrisinho antes de começar a comer. Ela devia estar faminta. A Victoria se desculpa e sai.
"Gostei da sua roupa," eu digo pra ela.
"Obrigada. Não devia ter deixado minhas roupas pra trás. Não quero dar trabalho pra sua família," ela diz.
"Dar trabalho pra minha família? Eles tão mais do que felizes em te ajudar com qualquer coisa, se você precisar," eu digo pra ela e ela sorri.
"Mas, se você se sentir desconfortável, talvez devêssemos ir buscar suas coisas na sua casa, se você quiser," eu ofereço, embora eu não tenha nenhuma intenção de deixar ela voltar pra aquele lugar cruel sob o comando do Fabian.
"Tudo bem," ela diz e olha de volta pra comida dela. De repente, consigo sentir a tristeza dela. Talvez ela não queira voltar.
"Mas, se você não quiser, podemos pegar roupas novas pra você," eu digo.
"Tá tudo bem. Eu vou buscar minhas coisas. Meu pai vai começar a me procurar se perceber que não dormi em casa. A Emily já deve ter notado que eu sumi de casa."
"Você quer voltar agora?" Eu pergunto pra ela e espero que ela não queira ir logo.
"Não sei. Ainda quero ficar aqui e passar um tempo com você e sua família. Mas podemos ir agora se você quiser," ela responde.
"Tudo bem. Quase todo mundo tá descansando agora, mas posso te dar um tour pelo lugar. O que você acha?" eu digo.
"Claro. Eu ia adorar," ela responde e os olhos dela brilham de animação.
Fora de casa, a Clara anda do meu lado. O sol não tá tão forte, então não preciso me preocupar em ser torrado. Alguns vampiros não conseguem andar no sol. Demora muito pra ter a habilidade de andar durante o dia.
A maioria dos vampiros da casa dorme o dia inteiro. Só uns poucos, como a Victoria, o Raul e o Luther, conseguem andar no sol. É que a maioria tá de ressaca depois de tanto beber ontem. Outros só conseguem andar durante o dia quando tá nublado ou na estação do inverno.
A Clara parece divertida com o lugar. Ela tem algo a dizer sobre tudo. Até as coisas pras quais eu nunca prestei atenção parecem ter chamado a atenção dela. Ela parece estar prestando atenção em cada detalhe da casa.
"Quantos vampiros moram nessa casa?" ela me pergunta do nada. As perguntas dela me pegaram de surpresa, mas mesmo assim eu respondo.
"Trinta e nove," eu respondo.
"Incluindo você ou... ?"
"Incluindo eu."
"Você sabe o nome de todos eles?"
"Sim."
"Uau! Você deve ser muito apegado à sua família. Sabe, se eu pudesse ser transformada em vampira, poderíamos ser quarenta," ela diz e levanta uma sobrancelha pra mim.
"Você devia esquecer isso," eu digo pra ela, e ela ri.
"Você normalmente recebe novos vampiros se juntando a vocês, ou vocês tão juntos desde o começo?" ela continua me perguntando.
"Normalmente recebemos novos membros, mas não recebemos ninguém faz anos," eu respondo e ela balança a cabeça.
"Vocês devem ser a família de vampiros mais gente boa," ela diz, quase pra ela mesma.
"Por que você diz isso?"
"Porque você cuidou bem de mim, mesmo sabendo que eu sou uma lobisomem," ela diz e olha pra longe, pras matas que cercam a casa.
Espera! Algo tá errado. Consigo sentir. Até a Clara parece ter sentido que algo tá errado. Eu conheço esse cheiro.
Os Caitiffs!
Eles estão todos vestidos de preto enquanto aparecem na mata. Cinco deles! Os olhos da Clara se arregalam. Isso é problema. Seguro a mão dela e dou um aperto tranquilizador. Ela não diz nada. Fico na frente dela como um escudo contra esses vampiros perigosos.
Esses Caitiffs são vampiros renegados que não pertencem a nenhum Clã. Eles não têm nenhum poder pra controlá-los. Eles vivem por conta própria, diferente da maioria dos vampiros. O que diabos eles estão fazendo aqui?
Eles andam em nossa direção e param bem na minha frente. Percebo o Kieran esticar o pescoço pra olhar pra Clara, que está parada atrás de mim.
"Quanto tempo, senhor Damien," Kieran diz com um sorriso malvado.
"O que você quer de mim, Kieran?" eu pergunto. Não quero perder tempo com apresentações. Quero que eles saiam da minha propriedade o mais rápido possível.
"Relaxa, Damien. Não estamos aqui pra causar nenhum problema. Algo incomum chamou minha atenção," Kieran diz com os olhos fixos na Clara.
"Você vai apresentar ela pra gente?" ele pergunta.
"Não, acho que não preciso," eu respondo com mera frieza na voz, mas eles não parecem ser afetados em nada.
"Tudo bem. É sua escolha. Eu só tava me perguntando por que você manteria a filha do Fabian no seu lugar depois de toda aquela merda que ele fez com você," ele diz.
O que ele acabou de dizer? A Clara é filha do Fabian? A filha daquele monstro é minha parceira? O destino tá brincando comigo agora? Viro pra olhar pra Clara, que parece igualmente chocada, como eu. Isso não pode estar acontecendo! Ela não se parece em nada com aquele babaca.
"Vocês dois se reconciliaram? A garota é algum tipo de oferta de paz?" ele pergunta.
"Vou te chutar daqui se você não vigiar o que tá dizendo!" eu o aviso, e ele encolhe os ombros.
"Ok. Eu só tava curioso, sabe. Nunca vi nenhuma lobisomem no seu território."
"Se você não tem nada importante pra me dizer, só saia daqui," eu falo pra eles.
Em uma fração de segundo, o Luther, a Victoria e o Raul estão parados atrás de mim. Eles devem ter sentido a presença desses Caitiffs.
"Kieran, que diabos você tá fazendo aqui?" Raul pergunta. Acho que ele já se recuperou da ressaca.
"Vocês também aceitaram abrigar a filha do seu inimigo? Tem alguma coisa que eu tô perdendo aqui?" Kieran diz e então bate palmas dramaticamente.
"A Clara é minha parceira de vida, e o resto dos detalhes não te dizem respeito," eu digo pra ele e ele ri.
"Tudo bem. Eu só tava preocupado. O Fabian sabe que você tá com a filha dele? Espero que ele não venha causar uma confusão. Sabe, vampiros deviam cuidar dos seus colegas vampiros," ele diz com um sorriso e sai correndo com seus amigos antes que possamos processar o que ele acabou de dizer.