Capítulo 24
Aliyana
A morte é o fim.
Todos nós vamos ter o mesmo destino do cara que tá agora naquele caixão preto, com a cara fria, oca, a máscara de tudo que fazia ele ser ele, e que a gente chora agora.
Lorenzo Catelli era um cara cheio de amor e vida. Ele me fez acreditar que eu era mais do que só a cara de uma mulher que eu nunca conheci, mas que tanta gente temia e amava.
Ele me fez ver que eu merecia ter a minha própria identidade, e ele me amava, tipo, independente de quem eu descobrisse que era quando eu abrisse aqueles portões e visse que eu tava meio que faltando alguma coisa. Lorenzo Catelli olhou pra mim e me viu com uma faca na mão, enquanto o cara que ousou tocar na minha irmã tava caído do meu lado no chão, sangrando até morrer.
Eu sou um monstro, uma assassina, e vou matar de novo se for pra proteger quem eu amo, e o Lorenzo, meu amigo lindo, me amava, tipo, independente do que ele sabia. Eu não consegui proteger ele, não tinha como eu saber que ele ia morrer.
Depois que o Marco foi embora, eu jurei acabar com quem fez isso com ele. Custe o que custar.
O funeral tá cheio de gente, uns que tão derramando lágrimas falsas e outros, tipo eu, com tristeza de verdade.
A maioria das pessoas que tão aqui hoje só teve um vislumbre do Ren. Eles nunca conheceram ele de verdade, tipo, não como nós, que podemos dizer outra coisa.
Minha atenção vai pra longe de todo mundo. Lá, perto de uma árvore velha, tá a Kylie Bray e o Vincent Stone discutindo. Vincent – um cara de poder, um parente distante dos Ilarias por causa do casamento. Kylie Bray – uma herdeira texana, amiga de perto e mulher que tá apaixonada por ele há anos.
A Kylie é uma amiga leal, tipo, tão leal quanto o cara que ela chama de pai.
E o Vincent, o primo fiel dos irmãos Catelli, o irmão Stone que nasceu no nosso mundo. O Vincent é o terceiro filho do Victor Stone, mas a família, o amor e a lealdade do Vincent são pros irmãos Catelli. Os laços dele com eles são fortes, e o território que ele tem e administra com eles solidifica essa ligação.
Mas não é isso que deixa a Kylie e o Vincent complicados. É o fato de que, no papel, eles são meio-irmãos que tão presos numa teia de amor e ódio.
O ódio dele por ela é cruel, e o amor dela por ele, cru e real. Quando ela olha pra ele, me dá uns calafrios. Acho que não tem palavra pra descrever o jeito que esses dois tão se olhando agora. Nem meu pincel conseguiria aperfeiçoar aquela cara carrancuda e endurecida do Vincent, ou o olhar de auto-ódio com que a Kylie olha pra ele.
"Para de encarar, é feio", a Guilia sussurra, me cutucando.
Eu baixo os olhos e, como fiz essa hora toda, olho pro Marco. Meus lábios lembram do nosso beijo de ontem à noite, as profundezas negras e assombradas dele quando ele tava na minha frente, fora de casa, quase derrotado. A dança que compartilhamos, nosso momento proibido que rolou enquanto o Ren tava levando tiro. O começo de uma história e o fim de outra. Que irônico é a vida, te dá coisas incríveis, te provoca com possibilidades de amanhãs, mas nunca te dá o pra sempre.
Numa noite, eu fui de sonhar com o Lorenzo Catelli a beijar o irmão dele. De uma noite, eu fui de ter o Ren ali, pertinho, a estar de luto por ele. E, 5 dias depois, aqui estou eu, enterrando ele, um garoto de 19 anos que não merecia isso.
Sempre tem consequências pras nossas ações, fico me perguntando quais foram as ações do Ren que levaram ele pra um caixão.
Eu vejo meus amigos, de terno, parecendo ter ódio e dor em partes iguais. Se o que o Deno e o Marco dizem é verdade, um deles pode ter matado o Ren. Será que os outros também são culpados? A ideia faz um buraco que já tava afundando no meu estômago torcer.
A traição não é uma emoção natural de engolir. Quando vem de quem você ama, a traição não é uma opção até que a prova esteja na sua cara.
O Deno, o Marco, o Gabriel, o Romero, o Michel e o Lorenzo dão um passo à frente pra jogar um punhado de areia no caixão enquanto o grito da mãe do Lorenzo chama o Deus que a gente reza. A Nicole Catelli é uma mulher forte. É triste ver ela tão frágil e fraca.
A morte cedo é a única coisa nesse mundo, em que eu nasci, que eu mais odeio. Todos nós estamos condenados. As leis desse mundo não tão nem aí se você merece ou não.
Eu vejo um cara vindo na minha direção, minha respiração me trai quando a lembrança acende na minha mente. Cabelos loiros caem sem cuidado na visão dele enquanto a forma alta e esguia dele se aproxima de mim. Achei que tinha reconhecido ele no Azure outro dia. Mas eu não sabia que o cara de olhos azuis ia ter tanta vontade de morrer. Depois de toda a merda que ele causou.
Ele para do lado da minha irmã. A falta de preocupação dele com as pessoas olhando pra ele não é algo que me surpreende.
"O que você tá fazendo aqui, Matteo?" pergunto, enquanto minha irmã observa ele com curiosidade. A confiança dele pode ser meio intimidadora, mas a maioria das pessoas aqui também são. A diferença é que o Matteo Di Salvo não sabe o que é espaço pessoal.
"Você não tá feliz em me ver, Florzinha?" Ele pergunta com o sotaque britânico, daquele jeito sinistro dele.
"É melhor você ir embora", o aviso é evidente na minha voz.
Eu ignoro a respiração da minha irmã com o frio que sai da minha voz.
"Eu não tô aqui pra brigar com você, Florzinha. Independente das nossas tretas, o Ren era um oponente digno. Ele não merecia o que aconteceu com ele."
"Não, não merecia."
Ele coloca as mãos nos braços da minha irmã, afastando ela um pouco. Algumas pessoas notam, ainda bem, o Papa não é um deles.
Eu duvido que meu pai esteja perdoando hoje, de todos os dias. Ele tá de mau humor, e suspeito que seja por causa da morte do Ren.
O Ren era da família, e o Papa, com todos os segredos dele, protegia a família dele. Sangue vai ser derramado.
"Eu quero pedir desculpas pelo que aconteceu há alguns anos. Éramos jovens. O Alec foi longe demais, o ódio dele pelo seu pai não foi desculpa pro que ele fez com você ou com o Gabriel. Ele mereceu o que aconteceu."
"Já passou da hora de pedir desculpas, ouvi dizer que o Gabriel já escreveu seu nome na lista dele."
Isso não é mentira, e nós dois sabíamos muito bem que a natureza da promessa do Gabriel não era algo pra jogar fora.
"Isso, se você não chegar em mim primeiro." Isso também não é mentira, eu tenho meus próprios motivos pra acabar com ele.
"Nós somos iguais, Florzinha."
"Eu não sou nada parecida com você! Eu não me escondo atrás do meu nome quando as coisas ficam feias, mandando a Alice limpar a sua bagunça. Deve ter doído quando ela te colocou contra a parede."
Eu olho pra ele, a voz baixa, mas o meu significado é tão brilhante quanto a morte do meu amigo.
Como ele ousa vir aqui nesse dia e ainda me colocar na mesma frase que ele. O corpo do Ren ainda nem foi coberto com terra, e já um Di Salvo mancha essa reunião.
"Tanto faz, Florzinha. Tenha sua vitória por enquanto. Mas saiba disso, seu pai me ofereceu um cargo hoje como seu guarda-costas enquanto eu termino meus estudos. Vou aceitar. Então, é melhor você se acostumar, porque eu tenho boca, e eu adoro o som da minha voz."
O Matteo me deixa de boca aberta e com um monte de emoções de ódio.
Como vai ser fácil acabar com ele? Eu fumo em silêncio enquanto vejo as pessoas lamentarem a perda de um cara que a maioria nem conhecia. Mas, o Ren era esse tipo de cara, você não precisava passar dias com ele pra amar a alma dele. Ele era uma grande parte do que tínhamos de bom no nosso mundo. E, como todas as coisas boas e puras, ele foi levado.
Às vezes me pergunto se o 5º Estado é amaldiçoado. Só os pecadores maus podem florescer no escuro? Eu vejo o Matteo do outro lado, parando e ficando perto da Elisa. Os olhos dela se voltam pra mim por um momento, eu os seguro antes de olhar pro garoto que está do lado dela. O Matteo pode não ser um Russo de nome, mas ele é um Russo do mesmo jeito.
Eu odeio a família Russo. O Matteo, eu odeio mais ainda.
"Nós devíamos ir pra casa. Eu não quero ir pra casa do Catelli, Guilia."
"Não é uma boa ideia, Liya, precisamos prestar nossas homenagens, o Papa vai ficar mal se você não for. Quem é aquele garoto, Matteo? Ele é problema. Você devia dizer pro Papa não dar o emprego pra ele", minha irmã sussurra do meu lado.
"Não é tão simples, Guilia. O Papa parece confiar nele pra essa tarefa. Eu quero ir agora, COBRE por mim, diz pro Papa que eu não tava me sentindo bem."
O Papa está com alguns dos soldados conversando enquanto minha madrasta e as gêmeas estão perto da Maria Catelli, prima do nosso Capo. O Filippo está do outro lado com a família DeMarco.