Capítulo 28
Marco
Eu fui criado pra gostar do que eu faço. Pra ter orgulho de quem eu sou, A Catelli.
No dia que eu matei meu primeiro cara, eu nem tinha 9 anos. Um ladrão entrou na nossa casa e botou uma arma na cabeça do Deno. Minha mãe tentou fazer o ladrão levar ela. O babaca atirou nela. Minha mãe foi corajosa e conseguiu acertar a perna dele. O Deno correu do intruso, mas eu tava tão cheio de raiva que peguei a Glock da minha mãe e meti bala nele 5 vezes.
Só pra sair e encontrar os soldados que tavam protegendo nossa casa, dormindo. Meu pai matou eles assim que chegou em casa. Eu fiquei ali, olhando. Minha mãe sobreviveu só pra morrer 3 anos depois com um tiro na cabeça.
Meu irmão tinha quase 8 na época, e a Anya era um bebê. O Deno lembra disso nos sonhos dele. Eu vivo esse dia fudido há anos.
Meu pai me falou um ditado que ajudou ele ao longo dos anos a lidar com o pesadelo, 'é o que é.'
Hoje essas mesmas palavras voltaram pra mim; só que eu não tava enterrando minha mãe.
Não tem desculpa pro que aconteceu com meu irmão mais novo, Lorenzo. Ele era o único que não tava contaminado de todos nós. O futuro dele era pra ser brilhante. Ele ia ser o normal, tipo, o mais normal que ele conseguisse ser nesse mundo escuro e distorcido, que a gente foi amaldiçoado.
O Deno e eu sabíamos que ele era diferente do resto. O Lorenzo não era perfeito. As mãos dele foram manchadas com a morte desde cedo. Um Príncipe novinho protegendo os amigos no território de outro Rei não vinha sem um preço sangrento.
O Deno tava de olho nos 5 cordeiros sacrificiais que foram mandados pra Chicago pra evitar uma guerra que meu pai começou. Meu irmão sobreviveu àquela putaria toda só pra morrer no lugar que era pra ser seguro pra ele.
O Deno e eu íamos encontrar os responsáveis e fazer eles pagarem. Mesmo sabendo que o sangue que a gente vai derramar em nome dele é algo que ele ia detestar, não vai trazer ele de volta, a gente vai se vingar.
Vai fazer o Deno e eu dormirmos melhor. Vingança nunca foi pra agradar os mortos, mas usada como uma forma de terapia por quem tá vivo.
Eu não vi a necessidade de falar tudo isso pra filha do Sartini. Quando ela falou 'desculpa', a única coisa que eu pensei em dizer foi, 'é o que é!'
Eu não ia mentir pra ela. Nem ia informar a meio-sangue que eu amava meu irmão, mas nunca tive a chance de realmente conhecer ele. O Deno assumiu o papel de irmão mais velho. A verdade é que eu não conseguia olhar pro Lorenzo sem ver o motivo da miséria do Deno.
"Que porra você tava pensando, botando banca pra cima da Aliyana?" o Deno fala com a voz rouca e entediada, enquanto me entrega um pouco de conhaque.
Sabendo que no fim da noite o Deno e eu íamos estar pegando emprestado a felicidade do amanhã de um jeito ou de outro, eu dou um gole grande do líquido escuro e suave.
"Eu esperei tempo suficiente. O Moretti não quer o acordo. Ele tá enrolando."
O Deno senta no sofá de couro cor de ferrugem. Eu acabei de chegar na minha cobertura, e já quero ir embora. A caverna do homem moderno não é o lugar mais desejável pra passar meu tempo, considerando que foi projetada pelo Lorenzo.
A viagem pra minha Mansão e de volta pra ver meu pai, no entanto, não vai dar pra mim hoje. Eu precisava estar perto da cidade. No fim da noite, se tudo der certo, eu ia saber quem bateu no meu primo na porra do meu cais. O que significa que eu ia ter que aparecer no depósito assim que eles pegassem os filhos da puta.
"Dá um tempo pro Moretti. Você não pode casar com a Aliyana, Marco. Se eu fosse o Capo, claro, mas é o nosso pai. O DeMarco não vai dar a mínima pra com quem você casa, então, não perde tempo com ele também. E o Sartini nunca vai concordar com você casando com a filha dele. A alavancagem que a gente tem em cima dele não vai influenciar o filho da puta, ainda não. Ela é nossa segunda opção."
"Ela foi promovida pra primeira."
"Casar com você é uma sentença de morte garantida pra filha do Sartini. Você sabe como ele se sente. A Famiglia não vai ficar feliz com essa sua escolha repentina de noiva, não importa o seu motivo. Eu digo que ela tá bem onde tá."
"Por que, porque ela é meio-raça? Fala logo, irmão!" Eu fico encarando as paredes cinzas e nuas, um espelho de tudo que cerca essa merda toda em que estamos.
"Eu não vou falar o que você já sabe. Espera pela garota Moretti, tenha um filho. Assim que você assumir do DeMarco, divorcia dela, sei lá, força um casamento com a filha do Sartini. Eu não ligo. Mas, agora, eu não tô no clima pra outra guerra. Lembra do Vince e do Lucca? Tudo por causa de uma buceta, olha onde isso foi parar? 6 anos de dor de cabeça do caralho. O estrago que isso causou na nossa família, ainda tá causando na nossa família, olha o que o Lucca fez com a Amariya, Mischa."
Meu irmão tá agindo com lógica. Esse é o Deno, sempre pensando em tudo de todos os ângulos. Mas a lógica é a força e a fraqueza do meu irmão. E essa vai ser a queda dele.
Eu tenho orgulho dele, ele se tornou melhor que o resto de nós. Ele é o mais esperto dos 5 filhos do meu pai - forte, corajoso, inteligente e mortal. As coisas que a gente precisa pra sobreviver no nosso mundo.
Agora a gente tava com quatro.
Eu me levanto e vou em direção às janelas de vidro olhando pra só uma das Cidades que logo vão cair nos meus ombros. O peso disso tudo tá nos meus ombros desde que eu voltei da Marinha. Tomar território é uma coisa, governar um Continente inteiro é outra completamente diferente. Eu nunca quis ser o Capo.
Eu nunca quis a vida que me foi dada no meu nascimento.
Recusar não era uma opção, mas a vida tinha um caminho mais desafiador pra mim quando tirou a decisão da equação. Eu não tenho certeza de quando eu decidi tentar a sorte e acabei com tudo isso.
Mas aqui estou eu, o herdeiro que não quer, o Futuro Rei dos Reis, e tudo que eu consigo pensar é na cara de uma garota em um vestido verde, parada descalça em uma gaiola de vidro olhando pras estrelas com um desafio no olhar, mas tão perdida, vazia.
"Você lembra do dia em que a gente viu ela pela primeira vez? Que idade ela tinha?" Eu pergunto pro Deno.
"Doze, onde você quer chegar com isso, Marco?"
"O Sartini deu uma Glock pra ela; ela não precisava de palavras. Ela atirou naquele cara. Você disse que ela não ia fazer, mas ela fez. Você lembra da pausa dela, da cara dela, você lembra disso?"
"Sim, parecia que matar ele era lógico. Ele matou a mãe dela, ela tava se vingando."
"Uma Mezzosangue", eu digo.
"O Sartini nunca devia ter deixado ela fazer isso. Ele era louco, ainda é. Ele tem ela em alta consideração. Todo mundo sabe que ela é a favorita dele, mas ele coloca a vida dela em risco do mesmo jeito. A Aliyana não merece o destino que você quer pra ela, ou o que o pai dela jogou pra cima dela, e com certeza ela não merece a bagunça que vai herdar da mãe dela." Não, ela não merece.
"Na Bratva, quando uma pessoa mata seu pai, a vida e a morte dela pertencem ao primeiro filho. O Sartini tava ensinando ela. Quantas mulheres na Famiglia conseguem matar alguém?" Eu pergunto pro Deno.
"Um punhado. Nossa mãe morta sendo uma delas, mas a Aliyana não é a primogênita."
"Não, ela não é. Ela é, no entanto, meio russa. A Bratva, pelo menos os de Manhattan e Canadá, consideram ela da família. Eles vão ser leais a ela não importa o que. A Aliyana é a escolha perfeita. Uma esposa que vai proteger a Mischa a qualquer custo."
"Ela é uma criança, mal saiu da adolescência. Você acha que vai convencer nosso pai que a filha do Sartini vai fortalecer nossa família?" O Deno ri.
"Eu não preciso convencer ninguém. Ele não vai concordar. Você sabe como ele se sente sobre a situação, e o Sartini nunca vai perdoar nosso pai pelo que ele fez."
"A gente não vai entregar ela, Marco, a Mischa é da família. Eu vou pra guerra com o Lucca se precisar, foda-se, a Amariya vai matar qualquer um que chegar muito perto. Mas, o Sartini nunca vai deixar você casar com a filha dele, especialmente se ele descobrir que você tá fazendo isso só por ganho. Ele deu uma escolha pra ela, e querendo ou não, a mãe dela fez questão de que a Aliyana sempre tivesse uma escolha."
"Não totalmente. A Mischa precisa de proteção. Eu não posso fazer isso por muito mais tempo. O Lucca tá procurando a Mischa, e a Amariya desapareceu, provavelmente se escondendo em DC de novo. A Anya tá aprontando alguma coisa, eu não confio na nossa irmã pra não fazer alguma besteira."
"Deixa eu te perguntar uma coisa, quando sua língua tava na garganta da Aliyana, passou pela sua cabeça que você ia ter que casar com ela pra sempre? A Bratva não vai gostar de ver os seus sendo divorciados por nós. Eles vão querer que você tenha um herdeiro ou dois."
"Sim, passou."
"Então, você tá de boa em entregar seu primeiro filho pra eles? E quanto ao futuro herdeiro da nossa família? Que precisa ser 100% italiano! Que era o motivo pelo qual pedimos a neta do Moretti." O Deno vem ficar do meu lado enquanto nós dois ficamos encarando a cidade vibrante na distância. Sabendo que nosso futuro pela frente não é nenhum conto de fadas.
Dois irmãos nascidos pra serem líderes.
"Uma criança italiana ilegítima vai ser um herdeiro tão bom quanto qualquer um. Nós dois sabemos disso mais do que ninguém. Como nós dois sabemos que eu não tenho intenção de ter filhos, é pra isso que temos o Leonardo e a Anya."
"Você acha que a Aliyana vai ficar de boa em não ter filhos? Ou o marido dela fodendo por Seattle enquanto ela fica em casa criando o filho de outra pessoa?" O Deno ri, mas eu não tô rindo.
Nada disso é engraçado.
O Dante Moretti foi o último Capo Dei Capi, ele é um dos Capos mais temidos do mundo com 87 anos. Ele é o Padrinho de todos os Padrinhos e a neta dele; a Camilla Moretti é a menina dos olhos do demônio dele e a mulher mais protegida da América. Ela também é a primeira pessoa que eu escolhi pra casar.
Bem, 'queria' casar.
Desde que eu vi a Aliyana de perto e senti o cheiro da inocência dela misturado com algo perigoso. Aquele beijo, os olhos verde-garrafa dela, quando ela me encarou, tê-la, é uma necessidade. Ela não é mais o cordeiro sacrificial que eu vi com uma arma na mão. Ela é algo perigoso, algo que eu quero. A Camilla tem proteção, mas a Aliyana vai ter poder.
"Eu acho que ela vai fazer a coisa certa e proteger quem ela ama", eu falo pro meu irmão.
"A Aliyana vai te estripar enquanto você dorme e te dar pros lobos que ela mantém por perto. A única coisa pequena nela é a altura. Cuidado, irmão."
"Você a conhece tão bem."
"Sim. O Ren e eu fomos os que fizemos o seu trabalho sujo por anos. Enquanto você brincava de soldado, eu protegi a prole do pai dela. Limpei a bagunça dela depois que os 5 decidiram ficar com a porra do dedo no gatilho. E o pequeno ataque de raiva que ela teve um ano atrás com aquele garoto espanhol? Lembra daquela merda toda? Tudo por causa da sua ordem do caralho. Então sim, eu a conheço bem, e ela pode parecer fraca, mas ela é tão feita quanto os homens que a gente paga pela lealdade deles."
"Eu nunca pedi pra você incentivar o comportamento dela ou se envolver nos assuntos deles, nem pedi pro Ren virar parceiro de crime dela. Você ensinou ela a mirar na cabeça, e os outros incentivaram o resto. Então, não me culpe por isso. Eu pedi pra você cuidar dela e mantê-la segura. Eu falei pro Ren descobrir o que o pai dela tava escondendo que colocou a filha dele em perigo de propósito. Eu não falei nada sobre virar BFFs dela. Isso foi tudo você, e eu não tô reclamando. Eu precisei de cinco minutos na presença dela, e consegui entender o porquê."
"Se ela descobrir, o Ren começou a sair com ela porque ele tinha que, vai matar ela. Eu gosto da pequena diabinha."
Eu viro pra encarar o Deno, e normalmente eu ia torcer os ovos dele, ficando molenga comigo, mas eu não faço isso.
"Ela não vai, as únicas pessoas que sabem alguma coisa estão nessa sala."
"Você me disse que a Aliyana ia ser a última opção. Agora você tá dando uns amassos nela no telhado, dançando músicas melosas, tendo jantar? Quer me dizer o que tá rolando de verdade nessa sua cabeça?"
Sim, ela era a última opção. Três garotas eram importantes no nosso mundo. Duas delas eram a Camilla e a Aliyana, ambas que tinham muito mais do que só seus corpos virgens pra oferecer a um homem. Ambas protegidas pela família. A terceira era protegida por mim.
Eu estudo meu irmão. Ele tá me olhando - esperando. Eu mostro pra ele o que eu nunca deixaria muita gente ver enquanto eu digo as palavras, que eu nunca vou conseguir voltar atrás. Algo, que nem a Aliyana sabe ainda, e eu só descobri há uns dias.
"Ela silencia o barulho."
"Foda-se. Você devia ter falado isso no começo. Agora eu me sinto um cuzão. Eu vou com você pra conversar com o nosso pai cabeça-dura." Sim, foda-se. Nós dois ficamos parados, encarando nossa cidade, bebendo conhaque, enquanto o anel nos dedos indicadores fica pesado nas nossas mãos.
Minha confissão tão curta, mas que guarda tanta corrente, nunca pode ser retirada. Meu irmão e eu sempre estivemos lado a lado. Os filhos bastardos do Capo Marcello Catelli.
Até os Vilões se apaixonam.
"Eu nunca vou ser como você, Marco." As palavras dele são verdadeiras e ficam entre nós. É a diferença entre o Deno e eu.
Minhas escolhas são baseadas na emoção, essa é minha força. Um dia essa vai ser a razão pra minha cova precoce.
Talvez até a da Aliyana também.
"Vamos comer, eu vou fazer uns wraps, você pode cortar os vegetais", o Deno declara. Eu boto meu braço no ombro dele e aperto o braço dele antes de irmos pra cozinha.
Por uma fração de segundo, eu imagino meus irmãos e a Mischa nessa cozinha preparando o almoço. Um dia.
Eu vou embora logo depois que comemos, o Deno e eu concordamos em nos encontrar mais tarde.
A viagem pros subúrbios é longa e precisava pra clarear minha cabeça.
Mas minha mente continua voltando pra outra época, há muito tempo.
Guerra, soldados e sangue, muito sangue, em todo lugar. Os gritos das crianças, os uivos das mulheres, a areia nos meus olhos, o fedor da morte e da pobreza.
Ir pra Marinha é uma tradição que todo primeiro filho tem que cumprir.
Meu pai me disse que matar um homem não era tão difícil, mas matar muitos homens na guerra, servir o seu país era algo que só homens verdadeiramente corajosos saíam.
Eu fiz 4 missões.
A 1ª foi por tradição. A minha 2ª pro meu amigo, Stringer, que morreu salvando uma criança só pra ser explodido com a mesma criança.
Então veio a 3ª pra todos os irmãos que perderam a vida cedo demais. E a 4ª, minha última missão, foi por mim. Nessa época, eu só queria matar quantos daqueles filhos da puta eu conseguisse. Depois que meu tempo acabou, eu fui aceito nas forças especiais, eu recusei. Eu já tinha tido o suficiente daquela merda e tava pronto pra assumir meu lugar.
As operações especiais não aceitaram não como resposta, no entanto, e me ligaram algumas vezes. Quando o preço tava certo, eu concordei em fazer um trabalho diferente, mas, principalmente eu disse sim porque eu tinha uma habilidade especial, que não muitos possuíam hoje em dia. Eu nunca falhei.
Meu pai disse que a guerra não me mudou como mudou ele. A verdade é que, me mudou muito. Eu só me tornei um mestre em esconder toda a raiva queima dentro de mim. Agora, eu tô sempre em chamas. Esperando pra matar, estalar os dedos. Tudo que eu preciso é de um motivo.
A Aliyana vem à mente quando eu viro a esquina em direção à comunidade fechada. Eu devia deixá-la em paz, fazer o Leonardo casar com ela. É isso que ela quer no fim das contas. A Bratva ainda vai nos ajudar.
Família é Família. Ela já passou por coisa demais, e a necessidade dela de encontrar a irmã só vai causar mais dor nela quando ela souber a verdade.
O Deno tá certo, minha esposa ia ser uma rainha, mas ela também vai ser a mulher mais procurada do mundo. Uma sentença de morte precoce é quase garantida.
Eu não consegui essa vida jogando jogos de guerra. A Sombra é um nome temido demais pra ser sequer sussurrado como uma história de terror.
Saber tudo isso ainda não vai mudar minha mente.
Eu nunca vou merecer o amor da Aliyana, e machucá-la é algo que eu sei que vou fazer. Mas aceitação dela é algo que eu tenho certeza que posso ter; ela vai andar do meu lado, aceitando o sangue nas minhas mãos. O resto a gente vai descobrir, mas uma coisa é clara,
Eu preciso tê-la.