Capítulo 8
Marco,
'Tô te falando, cara, ele faz o diabo parecer gente boa quando tá puto. Não sei porque fiz isso. Ah, sei lá, tava curioso e achei que invadir a porra do Michael Stone ia ser mó legal. Mas quando vi a grana, caralho, dizem que ele tem uns bilhãozinhos, mas tem muito mais que isso. Não achei que ele ia ligar de sumir. Ia botar de volta depois de uma semana, juro por você, Marco. Só queria fazer uns investimentos rápidos e uma grana alta, aí botava de volta, juro.'
Inclino a garrafa, encarando o líquido âmbar se mexendo ao meu bel-prazer. Não tem escolha, tem que fazer o que eu quero, porque a garrafa que guarda o líquido é uma marionete nas minhas mãos. Como todas as coisas materiais que possuo, e aquelas nem tão materiais assim, mostra o seu potencial quando usada. No caso dessa garrafa de álcool bom, a utilidade é me deixar emprestar felicidade do dia seguinte em dias como esses.
No caso do cara tagarelando, bom, humanos todos têm várias utilidades. Cada um com a sua. Mas esse é um pouco mais especial, um achado raro.
Ele que não percebe ainda. Eu percebo, e é a única razão pela qual ele está aqui implorando minha ajuda. Atraído por um filho da puta doente, o Roberto Cavalier. Minhas mãos coçam pra matar o Capo desde os doze anos, a primeira vez que lancei meu olhar curioso naquele otário. Mas ele é leal, então continua vivo, por enquanto.
Sempre me fascina como é fácil manipular os humanos, mesmo sem puxar nenhuma cordinha. Só precisa ter uma boa estratégia de marketing no lugar.
Meu sobrenome vem com uma garantia de 88% de sucesso. Meu primeiro nome colado a ele, no entanto, bom, isso deixa os 12% de fracasso um pensamento inexistente deixado na porta quando você entra no meu escritório pra falar de negócios. Eu nunca falho, especialmente quando tenho uma peça no tabuleiro. Sou um homem ganancioso, e sempre ganho no longo prazo.
'Ele vai me matar se descobrir o que eu fiz. Não, não, não, não.' Ele agarra o cabelo bagunçado que é espetado em algum visual gótico que a juventude está usando hoje em dia. Sua camiseta roxa está folgada em seu corpo longo e magro.
O garoto está pálido, e provavelmente não consegue dar um soco pra salvar a vida. Puxando o couro cabeludo, ele estraga o tapete vitoriano vermelho e dourado no meu escritório, andando de um lado pro outro. Está assim desde que chegou, há duas horas.
Leonardo, em estilo típico, ficou dez minutos e saiu com a promessa de calá-lo se ele não fechasse a matraca até a hora de voltar.
Deno sorri, vendo o novo entretenimento enquanto senta na beira da minha mesa. Seu paletó está jogado no sofá rústico do outro lado da sala. O copo que estava cheio com três dedos de conhaque agora está vazio ao lado dele na mesa de madeira escura.
Meus irmãos todos têm um papel a desempenhar em manter o nome da nossa família, minha irmã também. Deno é o lógico, o futuro Capo da Famiglia. Ele é paciente e sábio, mas pode ser um mala quando quer enfiar sua mensagem na sua cabeça.
Leonardo é esquentado, a réplica perfeita do meu pai, mas onde meu pai é tudo sobre o jogo, Leonardo representa mais. Ele é mais do que as putas que escolhe foder e as escolhas que às vezes faz que parecem cruéis para a maioria. Eu sei diferente, e um dia tenho certeza que ele vai encontrar o caminho.
Minha doce irmã, querida Anya, a quebra-regras que se recusa a se conformar a qualquer coisa da nossa família. A bondade do meu pai toda em uma pessoa.
Mas, mesmo ela não consegue evitar o mal que espreita em seu sangue quando enfrenta uma escolha. Assassinato por opção é seu lema.
E por último, nosso Lorenzo, o mais novo dos meus irmãos, a única coisa boa que fizemos em nossa família. O irmão normal, o vigilante que quer salvar os inocentes e ajudar seu pequeno clã de amigos. Lorenzo, meu irmão leal, e a razão pela qual os outros são tão fodidos. Irônico, mas é o nosso fardo, não o dele. Uma escolha que fizemos há muito tempo.
'Você acha que ele vai me perdoar se eu escrever uma carta de desculpas? Claro que não, ele é o Michael Stone, ele não conhece perdão. Ele vai me fazer picadinho, eu sei', o jovem tagarela.
Fico em pé perto do bar, brincando com a garrafa de cristal. Meu rosto impassível, esperando ele tirar a histeria do sistema para que possamos ir aos negócios e discutir sua nova posição permanente.
'Stone não tem picador; já vi a cozinha dele, então acho que tá sussa', Deno esclarece com aquele sorriso de paciência esgotando.
A porta se abre, e nós três olhamos pra ela, vendo meu irmão mais novo entrar com seu iPad. Ele ignora o cara na sala e vai na minha direção. Seu rosto ainda com aquela carranca apertada com que saiu daqui há uma hora, quando recusei a sugestão dele de que ele falasse com nosso pai sobre Deno e eu escolhermos uma noiva.
A verdade é que, o boato é uma grande mentira. Meu irmão e eu não vamos escolher porra nenhuma além da cor da gravata que vamos usar hoje à noite, e mesmo isso é pedir demais.
Meu pai sabia disso quando começou o boato e disse ao Lorenzo que ele seria o próximo. Eu não era contra o casamento; na verdade, fiz duas escolhas, uma ainda está na fila, e vale meus esforços. A outra é um plano B que exigiria um planejamento cuidadoso para adquirir.
Obviamente, meu pai sabia disso, mas achou engraçado começar o boato sabendo que ia irritar a gente, principalmente o Deno, já que meu irmão não tem intenção de continuar casado depois de casar. 'Até a morte.'
Lorenzo me passa o iPad, que eu pego, meus olhos vão do rosto de menino dele para as fotos. Passo o dedo na tela enquanto vejo os homens e a longa fila de pessoas entrando nos contêineres. A próxima imagem mostra uma criança pequena sendo carregada. Já vi muitas coisas ruins na minha vida, horrores, que nada me choca mais. Infelizmente, nem isso.
Passo a tela de novo para a próxima foto, depois para a próxima, e paro nesta em particular.
Olhos verdes se apertam, enquanto dentes brancos grandes mordem um pedaço de bolo de chocolate que é enfiado na boca dela pela mão de Gabriel DeMarco, enquanto ele está atrás dela com o Lorenzo atrás dele, mostrando um sinal de 'foda-se' na cabeça para a câmera.
Aliyana Capello. O pequeno tesouro de Sartini, mas ela não é mais tão pequena.
'Ele está certo, o carregamento está no nosso território. O que você quer que eu faça?' Lorenzo pergunta enquanto olho para a foto da Aliyana novamente antes de passar de volta para as que foram tiradas na noite passada.
Colocando a garrafa de cristal na bancada do bar, dou às imagens uma última olhada minuciosa. As fotos foram tiradas na noite passada antes que nosso amiguinho, atualmente em pé no meio do meu escritório, confirmasse algo que eu estava temendo.
'Nada por enquanto. Deixa eles se sentirem confortáveis', devolvo o iPad para Lorenzo.
'Eles estão enviando crianças, mulheres. Que porra é essa, Marco? Desde quando permitimos essa merda no nosso território? A gente não mexe com gado.'
Seus olhos cinza-castanhos franzem, a mandíbula tremendo. Lorenzo é jovem, com muito potencial, mas cabeça quente, e gente cabeça quente morre.
Eu preciso dele vivo e bem. Ele é o bom filho. Ele vai ser advogado. Nunca temos o suficiente desses. Deno já passou 6 meses na prisão enquanto encontramos um soldado para ocupar seu lugar e se declarar culpado. Foi um tempo curto longe de casa, e ele precisava aos 21 anos, mas ainda não deveria ter acontecido.
Deno caminha em nossa direção, e vejo que o jovem parou de se mover completamente, observando-nos abertamente. Não me importo, já que ele é quem me ofereceu essa informação para proteção.
Essa proteção foi cara, especialmente de um Stone. A família Stone é uma das Elites. Um grupo de famílias poderosas que possuem sua própria cidade e vivem de acordo com suas próprias regras.
Eles também pagaram bem por artefatos e outras coisas que achamos que precisavam ficar em mãos seguras que não suavam quando um agente da CIA aparecia, ou alguns caras maus decidiam que queriam algo para vender.
As Elites pertenciam a si mesmas, e mantivemos laços com eles abertos.
Mas Michael Stone não é apenas um Stone, ele é um gênio tecnólogo com apreço por peças valiosas e Luke Lore é muito valioso, muito mais do que qualquer centavo ou libra. Que é a razão pela qual permiti que Luke acabasse com a porra do meu tapete enquanto eu saboreava alguns copos de conhaque, curtindo o show dele.
Deno segura o ombro coberto pela camiseta de Lorenzo, seu anel saltando.