Capítulo 6
Aliyana
'Nós somos stalkers, Yana,' minha irmã murmura do meu lado enquanto a gente tá agachada na minha cama, olhando pelas janelas duplas.
Eu não perco o Leonardo olhando pra gente com um sorrisinho nos lábios grossos. Os óculos dele já abandonaram o olhar dele que vivia passeando, pra gente dar uma olhada.
Passamos os últimos vinte minutos espiando do alto da janela do meu quarto pra eles três.
Eles levaram a conversa pro pátio. Sentados naquelas suítes de sala de estar grandes, bege e azul, que a gente comprou faz só dois dias. Isso é ótimo, porque facilita a gente ver eles. Estão tomando cerveja, e, embora pareçam relaxados nas cadeiras macias de fora, a cara do Marco tá tensa enquanto ele escuta o que o Filippo tá falando pra ele.
Os dois parecem bem próximos, bem íntimos. Eu não sabia que o Filippo e o Marco eram chegados. Acho que ficar em casa nas próximas semanas com a minha família, tem muita coisa que eu vou descobrir. Incluindo quem o Marco Catelli era.
Eu geralmente tento ao máximo não estar em casa nos dias em que a Ilaria tá por perto, mas o Papai pediu pra eu ficar em casa essa semana.
'Faz um esforço, mia, sua família toda tá aqui. Sua irmã vai casar logo. Você pode ficar longe dos seus amigos por algumas semanas, não é?'
'Sim, Papai.'
O Papai nunca tinha me pedido isso antes. Eu entendi a necessidade dele de repente fazer isso. A Guilia não gostava de Seattle, aquilo trazia lembranças da morte da minha mãe.
E, embora ela não fosse admitir abertamente pra mim, com medo de eu ter ciúmes, ou fazer perguntas que eu não devia, ela sentia falta da minha mãe e da minha irmã. O nome da minha irmã não era um nome falado na família. Meu pai proibiu. A memória dela, algo que ele queria que todo mundo esquecesse.
Eu sabia que isso corroía ele como um câncer.
Eu sabia que doía mais nele saber que a esposa dele também tinha ido embora. O medo dele não era à toa.
O Papai sabia que eu ia procurar por ela. A ausência de um nome não ia me impedir.
O Leonardo levanta e levanta as mangas da camisa branca dele, revelando o começo da tatuagem dele que começa no meio do braço.
O Ren me contou que o Leonardo, o Marco e o Deno dividiam a mesma tatuagem. Ele mencionou que era algo que os unia. Eu perguntei pra ele o que era, mas ele disse que não podia me contar exatamente.
Então, um dia, ele conseguiu fazer o Deno deixar ele tirar uma foto, e mostrou pra mim. A arte era uma mistura de uma linguagem rúnica antiga latina e uma fera com um rosário em volta do peito. A tatuagem começava do lado esquerdo do antebraço dele e descia pela metade do torso dele, os membros da criatura parecida com uma fera desciam mais pra lugares que eu ainda fico corada de pensar.
O Deno é construído de um jeito que diz, 'Eu não faço esses músculos bombarem ferro.' A força dele é algo que veio naturalmente com o tipo de trabalho dele.
Ele não tava socando ferro, ele tava socando osso.
O Leonardo senta quando ele levanta o queixo pra cima pra gente de novo quando o Marco berra, 'Foda-se a Administração.'
A voz dele me assusta com a ameaça que ronda no tom dele.
O Leonardo fala algo baixo pra eles, a cara dele se curvando num sorrisinho quando o Filippo ri, e o Marco toma um gole da cerveja dele, balançando a cabeça.
Nossa, o Leonardo é gato.
'Você e o Leonardo vão formar um casal ótimo Aliyana. Imagina como seriam os seus bebês? E o Marco, ah, Yana,' Ela geme, usando meu apelido que o Ren me chama. Me cutucando pra eu me mexer na minha cama king size.
Eu dou uma risadinha e bufando pro olhar sonhador da minha irmã. As sobrancelhas dela estão arqueadas de um jeito que me lembra o mês passado do Papai quando o Gabriel e eu fomos pegos fazendo bombas de bolso no porão pra uma festa surpresa que a gente ia fazer no apartamento do Romero.
Não foi tanto as bombas que nos fizeram mentir, mas sim o fato de que a gente não foi pras aulas e a gente tava usando pólvora.
Bem, se eu for sincera, a raiva do meu pai veio principalmente do cheiro do porão. Que fedia como um terreno fértil pra maconha, graças ao Michel e o Romero, que fumaram um bolado enquanto a gente tava ocupado preparando as coisas.
O Papai não acreditou em nada que a gente disse e me fez fazer um teste de drogas depois que o Gabriel foi embora. Ele ficou feliz com os resultados e deixou pra lá, mas eu recebi a ponta final daquela olhada com a sobrancelha arqueada que dizia que ele sabia que a gente tava aprontando e soltando merda.
'Quando é que você vai fazer a sua jogada?' A Guilia me pergunta a mesma pergunta que eu nunca fiz pra mim mesma.
Eu suspiro, me jogando deitada na cama preta e roxa enquanto olho pro teto branco trabalhado. A cobertura branca é trabalhada com estrelas e uma lua no que se parece com marfim, mas no escuro, ela brilha azul. Foi um presente do Ren e do Gabriel.
O Papai ajudou me mantendo longe de casa no fim de semana fazendo tarefas. Isso foi quase um ano atrás, ainda assim, a beleza das estrelas esculpidas ainda me surpreende quando eu olho pra ela, esperando que as respostas caiam do teto. Nunca acontece.
'Hoje à noite, no Azure. Eu vou fazer ele me notar, eu prometo.' Eu não tenho certeza de quem eu tô tentando convencer, eu, ou o teto? Não tem como eu conseguir nem dizer oi pra ele. Até o teto sabe disso.
'A gente precisa ir às compras,' minha irmã declara, com os olhos arregalando de alegria. Virando minha cabeça, eu vejo mais do que o sorriso na frente e os olhos grandes e brilhantes que ela tá olhando pra mim agora.
Mesmo agora, com o homem que ela quer ali, ao alcance da mão, a Guilia não consegue esconder o medo dela da noite. Querendo ou não, ela vai ficar noiva de um Homem-Feito que o meu pai escolher.
Quem? Eu não sei, meu Papai não mencionou.
Depois desta noite, minha irmã vai se preparar pro noivado dela. A única coisa que nos mantém sãs sobre essa noite é o conhecimento de que o Papai vai escolher bem.