Nove
Eu tava correndo com o Leib e a April, e tava ficando pra trás pra dar um espaço pra eles ficarem de chamego. Eu ri com a ideia—eles dois, paquerando—nada seria mais estranho que duas pessoas estranhas fazendo isso.
Eu tava olhando eles conversarem quando minhas visões de repente sumiram. Eu senti—eu sabia—a existência daquele saco preto de pano que foi colocado na minha cabeça, com as fibras tão fechadas que nenhuma luz passava, enquanto eu lutava pra me soltar das mãos que me prendiam. Eu previ o que ia acontecer, e não importava o quanto eu puxasse a barriga pra dentro pra as pontas do Taser não me pegarem, no fim, a corrente ainda passou pelo meu corpo, fazendo ele convulsionar descontroladamente, mas, tipo, inacreditavelmente eu não senti dor—e eu sabia que doía.
Um barulho muito alto que me acordou... acho eu.
Eu tava realmente acordada, ou tava em outro sonho?
Era tipo levantar peso com os olhos, de tanto que eu lutei pra abri-los, eles estavam muito pesados. O teto branco tava ali de cara—meio embaçado no começo—quando eu consegui enxergar, e com a luz que tava me cegando também.
Ah, outro sonho.
Eu comecei a ouvir os murmúrios que foram ficando mais claros a cada segundo que passava.
“...acorda ela, faz ela tomar isso.”
“Obrigada.”
Eu sabia que tinha que fazer e ia doer pra caramba, mas eu fiz mesmo assim. “Leib?” Puta que pariu, parecia que eu tava engolindo arame farpado!
“Ah, amor, você acordou.”
Eu não respondi porque tava tentando descobrir de onde eu tava ouvindo aquela voz familiar.
“Seu irmão foi pra escola.” Minha mãe fez um carinho na minha cabeça, que provavelmente tava oleosa, e eu percebi que ela tava tentando não chorar, pela voz dela que tava tremendo. “O médico mandou você tomar isso.” Ela me entregou um copinho de remédio, e tinha dois comprimidos brancos lá dentro.
Ah, então eu acordei.
Eu joguei os remédios na boca e depois tomei um gole de água no copo de isopor com canudo. Mesmo que o gosto fosse esquisito, o líquido morno descendo pela minha garganta aliviou um pouco a secura.
A mãe tirou o olhar de mim e olhou pra algum lugar antes de voltar a olhar pra mim. Os olhos verdes dela tavam cansados e tristes, e eu sabia que era por minha causa. “Querida, o médico recomendou que você,” Ela fez um carinho na minha bochecha esquerda. As mãos dela tavam frias. “Ele disse pra gente que você precisa dar um tempo da escola, e a gente achou que você precisava saber.”
Mas a escola tinha acabado de começar.
“Ele disse pra gente que ambientes com muita gente podem desencadear seus episódios e que isso pode te fazer mal.”
“Episódios?” Hum, minha garganta ainda parecia um deserto de lixa, e elas tavam esfregando uma na outra. Eu sentei devagar e vi de cara a outra pessoa parada no pé da cama. “Oi, pai.” Água, preciso tomar uns dois litros de água.
Eu vi os olhos dele brilharem, mas foi por um segundo, e sumiu no piscar de olhos. Ele foi pra onde a mãe tava e ficou do lado dela, com as mãos nos ombros dela, como se estivesse pronto pra segurá-la se ela caísse.
Eu voltei a olhar pra minha mãe, perguntando pra ela em silêncio sobre o que ela tinha dito antes.
“Você tava tendo alucinações, perdas de memória e convulsões,” Ela soluçou. Dói ver a mãe assim, que me fez chorar também. “Eles disseram que seu cérebro tá fisicamente bem, mas as atividades dele tão anormais, que você pode se machucar ou machucar os outros.”
O que significa?
Eu queria garantir pros meus pais que eu tava bem, mas eu mesma não acreditava nisso.
“Então, acho que vou ficar acampando em casa, né?” Eu falei rouca. O rosto da minha mãe ficou mais triste.
“Querida,” A voz do pai tava grossa e clara. As mãos dos meus pais tavam nas minhas dessa vez, e tava bem quente. “Eles disseram pra gente te internar numa clínica psiquiátrica.”
Eu só consegui balançar a cabeça com o que eu ouvi.
“Eu sei, querida, você não vai pra lá. Você vai ficar na nossa casa.” A voz tranquilizadora da minha mãe veio.
Eu não consegui mais ver os rostos deles, tudo tava embaçado. O calor que eu tava sentindo antes sumiu na hora que eu ouvi as palavras da minha mãe.
Eu não quero ficar num hospício.
Eu não sou louca.
Eu não sou.
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Fiel às palavras deles, meus pais me deixaram ficar na nossa casa em vez da clínica psiquiátrica que o médico recomendou quando eu tive alta.
Eu fui diagnosticada com esquizofrenia e transtorno bipolar, o que me rendeu um monte de remédios.
“Então você é louca?” A Les concluiu quando eu terminei de contar a história do hospital.
“Não sou, e é só isso que você tem a dizer depois da novela que eu te contei?” A gente tava no meu quarto e era segunda-feira, marcando meu quinto dia de falta na escola.
A minha melhor amiga vinha todo dia com as anotações da aula e comida, às vezes ela vinha com o Scotty e eles contavam histórias sobre o que tava rolando na escola.
“Você tá vendo alguma coisa agora?” Ela perguntou de novo. Eu percebi que a Les começou a falar mais—tipo cinco a oito frases no máximo.
Eu disparei os olhos pros cantos do meu quarto. “Nada.”
Graças aos remédios receitados, eu nunca mais tive alucinações depois que eu saí do hospital.
“O que aconteceu com você, Kat?” Eu também não sei. “Eu sinto que você não tá me contando tudo.” Não tinha dúvida na expressão dela, só preocupação.
Eu só consegui balançar a cabeça. “Nem eu sei.”
O dia nunca era suficiente com a Les, parecia que tinha muita coisa pra conversar e um dia não dava.
Como sempre, ela me deu um ‘tchau' antes de entrar no carro do namorado e eu fiquei olhando o veículo se distanciando até que eu não conseguisse mais ver, aí eu voltei pra casa.
Eu tava entrando no meu quarto quando o toque do meu celular chamou minha atenção.
Era o Leib. “Oi?”
“Você tá com a mamãe e com o papai?”
Eu franzi a testa, ele já devia estar em casa. “Não, o pai tá esperando a mãe na faculdade e a mãe vai se atrasar.”
“Que horas você acha que eles chegam em casa?”
“Por quê?” Tinha alguma coisa suspeita.
“Se arruma e me espera, eu vou te buscar.”
Eu não consegui fazer mais nenhuma pergunta depois disso porque ele desligou na minha cara.
Pra onde a gente ia a essa hora, e já tava escuro?
Eu só troquei minhas havaianas por tênis e fiquei de moletom.
O Leib não vai levar a gente pra uma festa, né?
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Quinze minutos depois, eu ouvi a buzina familiar do carro dele e saí.
“Pra onde a gente vai?” Eu perguntei pra ele assim que entrei no banco do passageiro.
“Pra escola,” Ele respondeu enquanto manobrava o carro. “Eu tenho que testar uma teoria.”
“Que teoria, o que isso tem a ver comigo, e essa hora? A gente vai estar morta se os nossos pais chegarem em casa antes da gente.”
Ele não respondeu.
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O Leib estacionou na parte de trás da nossa escola e, claro, tava fechada, então a gente teve que escalar o muro pra entrar.
“Pra onde a gente vai?” Eu perguntei num sussurro alto. “E se os guardas verem a gente?”
Eu não ouvi resposta dele, como da última vez. A gente só andou em silêncio, com ele segurando minha mão enquanto eu seguia ele na escuridão dos corredores da escola.
“Leib!” Eu sussurrei de novo.
Ele levou a gente pra uma sala escura e fechou a porta, deixando a gente cegas por causa da falta total de luz.
Eu quase gritei quando eu vi o rosto da April Mabry aparecer de repente, não muito longe da gente, se não fosse pela mão do meu irmão na minha boca.
O que eles tão fazendo?
Quando a gente chegou perto dela, ela sentou no chão e tava com um monte de aparelhos.
“Oi,” Ela cumprimentou num sussurro. Mesmo assim, ela me deu uns arrepios com aquela lanterna posicionada embaixo do queixo.
“O que a gente tá fazendo aqui?” Eu perguntei pra ela dessa vez.
“Você vai ver.” Ela sorriu, e não era aquele sorriso gentil que eu tava acostumada a ver, mas um sorriso sinistro, tudo por causa daquela lanterna. “Silencia o seu celular, só por precaução.” Eu fiz.
Enquanto o Leib tava todo atarefado em algum lugar da sala, eu fiquei um tempo pra identificar o que tava na minha frente.
Um microscópio, um monte de tubos de ensaio, lâminas, conta-gotas e três pacotes de lancetas…?
“Okay.” Meu irmão sentou com a gente no chão frio e cheio de azulejos. “Kat, vou precisar um pouco do seu sangue.”
O quê? “O quê, por quê?” Que porra é essa?
“Pra testar minha teoria.” Foi tudo que ele disse e me entregou um pacote de lanceta.
“Qual é a sua teoria exatamente?”
Em vez de responder, esse casal estranho só ficou me encarando, botou a luz em mim e na lâmina fechada que eu tava segurando.
“Vocês tão ficando mais estranhos a cada segundo.” Eu falei pra eles, mas furei meu polegar mesmo assim. Ai.
Uma bolinha de sangue se formou no meu dedo machucado. “E agora?”
O Leib pegou meu polegar com cuidado e espalhou o líquido numa das lâminas de vidro, levantou e abriu a lanterna do celular dele e sumiu em algum lugar da sala de novo.
Agora, eu tô confusa.
“O que a gente tá tentando fazer aqui, April?” Eu apertei o algodão que ela me deu no meu machucado.
“Seu irmão acha que alguma coisa mudou em você, por isso esse pequeno experimento.”
Pequeno? Isso podia botar a gente em apuros se alguém nos encontrasse.
Meu irmão sentou com a gente mais uma vez e, sem cerimônia, colocou a lâmina que ele preparou no microscópio. Ele ligou, olhou e ajustou as lentes e a visão.
Ainda sem falar, ele tirou uma foto do que tinha dentro do aparelho antes de ajustar de novo. Mesmo com a ausência de palavras, ficou claro pela cara do Leib que ele tinha achado alguma coisa, ou alguma coisa tava incomodando ele.
Ele tirou fotos várias vezes mais antes de tirar a amostra de sangue do meu microscópio e enrolou ela com um pano, ou algo parecido.
“Vamos arrumar tudo.” Ele falou pra gente. “Kat, guarda seu algodão com você. A gente não pode deixar nenhum DNA seu aqui.”
Okay?
Eu só fiquei sentada lá enquanto eles, com pressa e em silêncio, colocavam tudo em ordem. Os barulhinhos e batidinhas de vidro tavam tão altos, eu fiquei com medo de alguém conseguir ouvir, e segundos depois que passou por meus pensamentos a maçaneta da porta se mexeu.
Os movimentos do Leib e da April pararam. As luzes foram apagadas na hora. Eu não ousei respirar quando a porta abriu devagar, rangendo, e passos entraram na sala.