Quatro
“Leib, me deixa na esquina, eu vou andando daqui.” Eu falei pra ele, toda inquieta.
“Não, mana. A mãe mandou especificamente me deixar você no estacionamento e te levar pra sala, e ficar com você nos intervalos e no almoço.” Ele respondeu super animado.
Já fazia dois dias desde que me acharam e eu tava tentando viver sem ficar remoendo o que rolou comigo no parque.
Aaand, finalmente me deixaram voltar pra escola, mas teve uma desvantagem, meu irmão tava me seguindo o tempo todo.
A ida pro hospital foi uma palhaçada, os médicos não acharam nada de errado comigo, nem por dentro nem por fora, mas eu não conseguia explicar a batida do meu coração na primeira vez que entrei naquele prédio todo branco.
Depois fui no psicólogo, que falou que minha mente provavelmente tava bloqueando as memórias porque foi algo traumático ou insignificante, mas tanto faz, que eu ia recuperar com o tempo.
“Eu consigo me cuidar, cara, e você tem aula, treino e um encontro! Como é que você vai conseguir ser meu babá, hein?” Eu tô me forçando a animar, a apagar os flashes de pessoas de branco na minha cabeça nos últimos dois dias.
Eu tentei de tudo que eu sabia pra tirar a cabeça daquele pedaço de memória faltando no meu cérebro que eu tava doida pra lembrar, mas, ai, não consegui, porque mesmo agora que eu tô olhando pro para-brisa do carro do meu irmão, uns flashes de tanques do tamanho de gente e azulejos brancos continuavam aparecendo de vez em quando.
“Que encontro?” A voz do Leib me trouxe de volta pra ele.
Demorei um tempinho pra entender o que ele tinha falado. “Com a April Mabry, ué!”
Meu irmão fez uma cara feia, parecendo irritado, mas eu consegui ver a bochecha dele ficando rosada enquanto ele desligava o carro e puxava o freio de mão.
Um sorriso abriu no meu rosto, eu abri a porta e saí.
Leib foi pro meu lado e me entregou a mochila. Ia ser um dia longo com ele grudado em mim, então que valesse a pena. “Vocês tão quase namorando.”
Eu segurei o sorriso quando ouvi um engasgo e ele limpando a garganta umas vezes depois.
Fiel à palavra dele, ele realmente me acompanhou até a sala, mesmo com os amigos de futebol chamando ele.
“Me espera aqui depois da aula.”
Eu achei que não tinha ouvido direito, então parei no meio do caminho pra dentro da sala. “Não,” Eu sabia que tava parecendo uma criança de jardim de infância reclamando.
“Não,” ele imitou. “Não pode fazer nada, eu não posso fazer nada. Ordem da mãe.” Ele pareceu sofrer só de falar isso. “Tem que reportar pra ela depois da aula também – se você estiver bem.” Ele cruzou os braços no peito.
Eu suspirei. Eu tô bem, excluindo as bolhas estourando e os murmúrios invisíveis zunindo nos meus ouvidos.
“Vai pra sua aula, pirralha.” Ele me empurrou gentilmente na direção da sala – tipo guiando uma criancinha.
“Dá um beijo na April por mim, tá?” As provocações do Leib não tinham fim.
“Cala a boca.” Eu ouvi ele resmungar e foi embora.
Eu ri. Agora, bora aprender.
● ● ● ●\Assim que eu entrei na sala, meus olhos procuraram a Les, nome completo Celeste Vaani, ela odiava que a chamassem assim, mas enfim. Ela tava sentada na última fileira perto da porta que eu acabei de entrar, na primeira coluna. Meus pés me levaram pra onde ela tava e sentei na carteira vazia do lado dela.
Ela não tinha levantado a cabeça do caderno, que ela tava rabiscando freneticamente com uma lapiseira rosa com uma capa de cabeça de gato.
“Bom dia, estranha.” Eu cumprimentei.
A Les parou de escrever e sentou reta. Aqueles olhos castanho-claro me encararam, e aí ela piscou e piscou de novo. Sem tirar os olhos de mim, ela me entregou um papel cheio de coisas escritas. “O Sr. Romero vai fazer um quiz sobre bactérias depois. Eu escrevi tudo que você precisa saber. Bom dia.” O tom dela era quase monótono, mas eu já tava acostumada.
Eu dei uma olhada no papel e agradeci. A Les, ela era...fria e calculista, mas isso não atrapalhou a amizade que a gente construiu no ensino fundamental.
Ela, eu diria que é a descrição perfeita de estoica. Sim, ela conseguia sorrir, mas só acontecia umas três vezes por mês.
Ela era do jeito que ela era e eu não tava reclamando. Todo mundo é único do seu jeito.
“E aí, o que aconteceu com você? Seu irmão não quis me contar nada. Ele nem deixou eu te visitar.” Eu vi que ela voltou a escrever enquanto eu tava perdida nos meus pensamentos.
Hã, como eu conto pra ela? Les, eu fui sequestrada por quatro dias e provavelmente torturada e fizeram experiências comigo. Eu disse provavelmente, porque eu não consigo lembrar de nada que aconteceu, só sei que me deram uma grana quando me largaram de volta no parque onde me pegaram.
“Eu peguei uma gripe muito forte e infectei todo mundo em casa, menos o Leib.” Mentira, mentira, o nariz cresce.
Sem olhar pra mim, ela só murmurou um, “Ahãm,” como resposta.
Me sentindo ignorada, eu abri o caderno que ela me deu e comecei a ler – tipo, escanear as palavras.
Cepa 121.
Eu parei de ler, eu já tinha ouvido essas palavras antes? Pareciam muito familiares. Eu não consegui impedir meu cérebro de se esforçar pra achar uma resposta, mas tudo que veio foram flashes de branco e bolhas e murmúrios incoerentes de vozes graves.
Dedos frios beliscaram levemente a ponte do meu nariz. “Você tá bem? Você tá pálida.” A voz preocupada da Les me trouxe de volta pra onde eu tava.
“Sim, eu tô bem.” Por que ela ia achar que eu não tô?
Ela tirou os dedos do meu rosto. “Você tava sussurrando sobre uma Cepa 121.”
Aham, acho que meu cérebro deu pane quando eu tomei choque. Eu tava sussurrando e não sabia? Talvez seja normal pra quem sobrevive a um sequestro ficar assim, né? Agora eu tô pensando alto sem querer.
“É que essa parada de Cepa 121 parece familiar. Tipo, eu já ouvi isso antes, mas nunca ouvi.” Eu cocei a parte de trás da minha cabeça. A coceira pra lembrar de alguma coisa tava subindo do meu couro cabeludo pra minha mente.
A Les apoiou o queixo nos nós dos dedos da mão direita, que tava apoiada na mesa. “Talvez você tenha lido em algum lugar, mas não consegue lembrar conscientemente. Isso acontece com todo mundo.”
Eu dei de ombros, “Talvez.”
O dia pareceu normal...o suficiente. Minha mente continuava voltando pras duas palavras que eu li nas anotações da minha melhor amiga.
O Leib me esperou fora da sala, como ele prometeu, e me levou pra outra.
Quando o dia acabou, eu me senti uma pessoa muito importante com meu próprio guarda-costas (Leib, haha) indo buscar comida e bebida pra mim, perguntando como eu tava me sentindo e abrindo caminho pra mim no corredor lotado todo final de período.
“E aí, como foi o seu encontro?” Eu perguntei quando a gente tava indo pro estacionamento. Les e Leib de cada lado.
Aos poucos, os alunos foram entrando nos carros e saindo voando, doidos pra chegar em algum lugar.
“Que encontro?” A mesma coisa que ele perguntou hoje de manhã.
Então, a mesma resposta que eu vou dar, “Com a April Mabry, ué.”
Meu irmão, que ator ruim, tentou parecer irritado, mas não tinha como negar que ele tava com as bochechas rosadas.
Ah, eu nunca vou me cansar de irritar ele.
“Kat,” A Les deu uma cotovelada em mim e acenou, disse “tchau” pro Leib e foi pro Civic do namorado dela. A personificação da mulher de poucas palavras.
O Scott, um cara legal com ombros de nadador, tava encostado na porta do passageiro do carro dele quando acenou pra gente. Eu não tinha certeza, porque ele tava olhando pra Les com pura adoração enquanto mexia a mão na nossa direção. Então, talvez ele tava acenando pra gente.
Chegando na nossa própria máquina de quatro rodas (não era nada demais, era só um Sentra 2016), eu vi minha melhor amiga entrando no carro vermelho e acenei mais uma vez antes do Scotty levar ela embora.
“Sobre o encontro,” Eu comecei, enquanto meu irmão enfiando nossas mochilas no banco de trás.
“Você tá me forçando a te dar um cascudo,” Ele se endireitou e fechou a porta. “Entra no carro, pirralha.”
O Leib entrou uns segundos depois de mim, mas não ligou o carro. Em vez disso, ele tava focado no celular.
“Por que você não tá ligando o carro, a gente já vai?”
Sem resposta. Os olhos dele ainda grudados no celular.
Ok, vou conversar com o para-brisa, então.
Uns minutos depois, eu tive a resposta. A April Mabry tava vindo em direção ao carro, sorrindo pro celular dela.
Meus olhos foram pro Leib e ele tava fazendo a mesma coisa.
Mensagem recebida, hora de sair. Eu me joguei pro banco de trás, apesar dos protestos do meu irmão, e me acomodei bufando.
“Você tá louca?”
Não, eu não tô. “Só te dando a comida que tá pendurada na sua frente há um tempão, irmão.” Eu sorri, achei que soou inteligente.
Quando a April entrou no lado do passageiro, eu cumprimentei ela na hora.
Ela pôs a cabeça atrás do banco da frente. “Oi, Kat. Você tá bem? O Leib me disse que você desapareceu por quatro dias.”
Ele contou pra April, mas deixou a Les, minha melhor amiga do mundo inteiro, de fora?
Eu estreitei os olhos pro meu irmão no retrovisor. Sei que você tá vendo minha cara, Oleiber.
“Eu tô ótima,” Eu sorri quando o Leib finalmente ligou o carro.
A April fez uma cara feia, fazendo meu rosto meio que sincronizar com o dela. “Nossa escola tá programada pra dedetização?”
Eu dei de ombros. Não me pergunta, eu entrei hoje.
“Talvez, quero dizer, amanhã é sábado.” O Leib respondeu, manobrando pra sair do portão da escola.
“Hmm, eles eram...sei lá, meio estranhos, e eles tinham um logo esquisito no bolso da camisa.” Com a April já virada pra frente, eu quase conseguia ver ela roendo as unhas.
“Talvez eles criaram assim com essa intenção?” O Leib respondeu olhando pra frente.
Eu fiquei quieta, e deixei eles continuarem com a conversa deles, que não era nada romântica.
“Era um círculo com a parte de baixo vermelha e a de cima branca. Eles meio que dividiam o círculo na diagonal.”
Todos os pelos dos meus braços e da minha nuca se arrepiaram enquanto a descrição da April pintava um quadro na minha cabeça. Parecia familiar, como se eu já tivesse visto um monte de vezes.