Cinco
“Kat,” a voz alta do Leib me tirou do que quer que estivesse na minha cabeça.
Nossa, nem eu sabia que tava viajando.
Tirei meus olhos da janela do carro e olhei para o meu irmão. Ele ainda estava no banco do motorista, mas tava me olhando por cima do encosto de cabeça.
“Você parece que acabou de acordar de um pesadelo. Chegamos.” Ele me disse enquanto checava algo no celular.
Eu olhei pra ele confusa, o carro ainda tava andando? Por que tava tão silencioso? Escaneei o espaço fechado em que eu tava, as árvores não estavam borrando pela gente. Fazia só — o quê — um minuto desde que a gente saiu da escola e já estamos em casa?
O Leib soltou o cinto de segurança. “Que foi? Você ficou olhando pra janela a viagem toda, Kat.”
Eu não sei o que aconteceu, só senti que viajei no tempo.
“Não sei.” O silêncio engoliu a minha resposta sussurrada.
Meu irmão ficou quieto, seus olhos verdes fixos nos meus; exigindo respostas.
“A última coisa que eu lembro foi a April perguntando se a nossa escola ia ser dedetizada, e aí você me ligando, falando que eu viajei.” Eu esfreguei meus olhos, eles pareciam secos.
A quietude se estendeu entre a gente, mas quando eu me mexi pra abrir a porta do meu lado, o Leib me disse que eu não devia sair ainda.
“Isso faz minutos, Kat. Depois que a April falou da dedetização você, de repente, desligou. Tentamos chamar sua atenção, mas era como se você estivesse em transe.” Ele virou pra frente e eu vi suas mãos indo para o rosto. “Algo aconteceu com você, mana,” Ele deixou as palavras no ar, como a memória pendurada ao meu alcance que eu parecia não conseguir pegar.
“Leib, você sabe o que é uma cepa 121?” Foi como se meu cérebro tivesse dado um curto-circuito e reproduzido minha conversa com o Les hoje de manhã.
Sendo o irmão esperto que ele era, claro que a resposta dele foi um “Sim,”
“Por que você quer saber disso? Não foi discutido na sua aula de Biologia?” Nossos olhos se encontraram no espelho retrovisor.
“Não — quer dizer, sim — mas hoje de manhã, quando eu vi nas anotações do Les, meio que ficou preso na minha cabeça.” Não meio que, acho que já fez morada nos meus pensamentos. Conto sobre os flashes pra ele? Não.
“Tem mais, Kat. Me conta.”
Ok, então. Vamos lá. “Os flashes — flashes de memória, acho — começaram a ficar mais vívidos. Foi como o sonho recorrente,” Arrepios começaram a tocar minha nuca e braços, então eu me abracei pra me manter aquecida.
“Que sonho?” O Leib saiu do carro, então eu também saí.
“Longa história,” Eu dispensei enquanto entravamos em casa.
“Kat,” ele avisou. “Você me disse que ia me contar se algo estivesse errado.”
“Eu sei, eu sei. Eu te conto outra hora. Só me diz algo sobre essa Cepa 121.”
Meu irmão bufou e foi pra cozinha. Mamãe e papai ainda não estavam em casa, então talvez a minha tão esperada vez de cozinhar o jantar fosse útil hoje à noite.
Eu joguei minha bolsa em um dos sofás e fui atrás dele.
Pêssego me cumprimentou — paredes cor de pêssego com estampas de tulipas — quatro anos desde que foi pintada e ainda me fazia sentir que eu estava em outra dimensão sempre que eu pisava na cozinha. Armários e gavetas marrons-cartão e uma ilha com textura de mármore branco para completar a... morango-chocolate com marshmallow tipo de cozinha? Minha família ama cores alegres e vivas. Ou minha mãe ama.
“O quê? Me conta.” Essa palavra foi tipo um gatilho? Eu tava mal traumatizada a ponto de nem ter ideia que estava?
Tantos pensamentos estavam passando pela minha cabeça enquanto eu procurava ingredientes na geladeira. E se meu cérebro tivesse sido modificado de alguma forma? E se alguém tivesse plantado algo em mim? E se meu cérebro fosse trocado com o de outra pessoa?!
“Eu não quero comer chocolate com cebola e laranja no jantar, obrigada.” A voz do Leib cortou minha paranoia, e, de fato, quando eu olhei pra baixo, eu estava segurando um saco de beijinhos, cebolas e laranjas. Ué.
Eu devolvi apressadamente os que eu não precisava e, dessa vez, me concentrei em pegar as coisas de verdade para cozinhar.
“Você tá enrolando. Me conta logo.” Eu exigi um pouco irritada.
Os olhos do meu irmão deslizaram para o meu ombro e voltaram para os meus, arregalados. “Merda.” Eu ouvi ele soltar.
Eu soltei um suspiro, “Ok, não me conta, mas não me xingue por pedir ajuda.” Eu fiz um biquinho pra ter efeito e então fui preparar o jantar.
O som da faca batendo na tábua de corte foi o único som que podia ser ouvido e pareceu que tinha se passado uma eternidade quando o Leib decidiu quebrar isso.
“Uma Cepa 121 é uma bactéria unicelular que ama calor — são chamadas de termófilos — bem, é o termo geral pra esse tipo de bactéria que prefere viver em temperaturas consideradas quentes ou quentes.” Ele pegou uma maçã da geladeira e voltou para a cadeira em que estava sentado ao lado da mesa de jantar. Mesa de jantar verde-alga.
Eu escutei enquanto continuava fazendo minha função na cozinha.
“No caso de um Geogemma barossii — cepa 121 —” ele inseriu imediatamente quando eu abri a boca pra perguntar quem era Gemma.
“É classificado como um extremófilo. Sabe, “extremo”,” ele citou com os dedos. “De acordo com os cientistas, essa bactéria pode viver até cento e vinte e um a cento e trinta graus Celsius, daí o nome.”
Eu coloquei os ingredientes mais os pedaços de frango cortados na panela e depois cobri. “Então ela ama calor. Ela se destrói alguma vez, tipo, ela realmente aguenta essa quantidade de calor sem queimar nenhuma de suas partes?” Curiosa agora, eu me inclinei na geladeira, a ilha da cozinha entre a gente.
“Não,” Leib respondeu sem hesitar, cruzando as pernas e se apoiando no encosto da cadeira enquanto dizia isso. “Porque alguns dos componentes celulares desses tipos de organismos possuem propriedades particulares do que os que sobrevivem em temperaturas normais. Foi dito que a razão pela qual esses organismos sobrevivem em condições tão drásticas era o alto teor de guanina-citosina, embora mais tarde isso tenha sido retirado.”
Eu levantei de onde eu estava encostada para checar e provar o caldo de galinha levemente fervendo, meus ouvidos ainda fixos nas palavras do meu irmão, embora a maioria delas soasse como uma língua alienígena.
“Nos estudos recentes, mostrou que não houve correlação entre o conteúdo do genoma e o crescimento ambiental desse microrganismo. Então ainda continua um mistério.” Ele terminou com um sorriso satisfeito.
Eu não falei. Ainda não, de qualquer forma, eu estava deixando tudo entrar. Na minha mente, eu estava aplaudindo meu irmão por saber tanto sobre algo que a maioria das pessoas não dá a mínima.
Engraçado, quando o Leib estava explicando, não disparou nenhum flash de memória. Talvez eu estivesse presa na palavra. Ainda assim, aquele pedaço grande que eu deveria lembrar ainda não voltou.
“Kat, você notou algo estranho sobre ou ao seu redor ultimamente?”
A pergunta me fez focar no meu irmão. “Tipo o quê?”
“Qualquer coisa.” Ele apoiou o cotovelo direito na mesa e apoiou o queixo nele.
Além dos truques nos olhos e murmúrios incoerentes que eu estava ocasionalmente experimentando, e aquele sonho estranho que faz o cabelo arrepiar? Eu não conseguia pensar em mais nada. “Nada.”
“Crianças, chegamos.” Chamou a mamãe da sala.
Hã. Eu não ouvi nenhum motor de carro, muito menos a porta abrindo.
A mamãe entrou na cozinha de calças pretas, blusa branca abotoada e sapatos pretos. “Oi,” Ela caminhou em minha direção e me beijou na bochecha. “Como foi a escola?” Ela perguntou enquanto colocava sua bolsa gigante cheia de papéis e livros na ilha.
“Bem,” eu murmurei, enquanto o Leib se levantava e ia até a mamãe para dar um abraço nela.
“Eu vou ajudar o papai a consertar o que quer que ele tenha trazido pra casa pra consertar.” Ele disse e saiu.
“Então,” minha nova colega de cozinha começou. “O que tem para o jantar?” A mão da mamãe ficou em meus ombros enquanto ela espreitava na panela.
“Guisado de frango.” Eu respondi e não consegui evitar o orgulho que explodiu quando eu vi o sorriso de aprovação dela depois que ela provou o prato que estava cozinhando.
A minha mãe virou pra mim, a preocupação manchando seu rosto. “Como você está, querida?”
Eu fiz o meu melhor para ser indiferente, “Eu estou bem, mamãe. Sério.” Eu queria saber o que tava acontecendo comigo primeiro antes de contar pra eles — se realmente tivesse algo.
“Me parece que sua bolsinha de nada cresceu durante o dia e se tornou monstruosa.” Sendo professora universitária, a mamãe geralmente deixa seus alunos enviarem tudo por e-mail, mas no momento parecia que ela tinha feito com que eles fizessem seus trabalhos escritos para o semestre inteiro. “Isso é muito papel.”
Ela apenas riu, me beijou mais uma vez e subiu as escadas.
Eu suspirei e fui levantar a bolsa da mamãe da ilha.
Gah. Como ela consegue carregar isso? Era como se tivessem toneladas de barras de metal dentro.
Eu fui e depositei a bolsa no sofá da sala, então voltei para a cozinha para desligar o fogão. O frango já deve estar fervido o suficiente.
Eu franzi a testa, a mamãe já tinha desligado? Não tinha fogo e o mostrador apontava para a palavra desligado, então deve ter sido desligado já.
Mas eu ouvi ferver.
“Como você está, coisinha?” O som me fez virar a cabeça para a sua direção tão rápido que eu tinha certeza que meu cérebro mudou um pouco.
Ali, não a alguns metros de mim, estava um cara de jaleco encostado casualmente na lateral da pia. Sorrindo pra mim.
Eu gritei, duh. Vendo um cara desconhecido na minha cozinha de jaleco, olhando pra mim como se me conhecesse. Claro que eu ia gritar.
Eu fiz o agachar, segurar e cobrir onde eu estava, mesmo que uma pequena parte de mim achasse que fazer isso não me manteria segura.
A próxima coisa que eu estava ciente foi do Leib agachado na minha frente batendo na minha bochecha.
“Kat, mana.” Ele cantou.
“Querida, o que aconteceu?” E o papai ao lado do meu irmão.
A mamãe estava atrás de mim, amparando-me nos braços.
Então, basicamente, estávamos todos sentados no chão da cozinha, e eles ao meu redor como um escudo.
“Eu…” Meus olhos procuraram pelo homem e pousaram na pia vazia. “Tinha um homem ali.” Eu apontei para o chão de ladrilhos na minha frente.
Ninguém falou.
E então teve aquele som borbulhante novamente.
Pop por pop, ele voltou junto com os murmúrios.
Eu olhei em volta, para o teto, para todo lugar, e por último para os olhares preocupados da minha família.
“Não tinha ninguém com você quando eu cheguei aqui.” Os pops quase afogaram a voz do Leib quando ele se levantou da sua posição agachada e caminhou em direção à pequena janela acima da pia.
“Eu,” As vozes estavam ficando mais altas, mas de alguma forma eu ainda não conseguia reconhecê-las.
Eu nunca pensei que eu pudesse ter visão dupla mesmo quando não cruzasse meus olhos e estava me dando tontura.
A nossa cozinha mudou, as paredes pêssego se transformaram em branco, a mesa, a ilha e as cadeiras desapareceram. Tudo era branco… e estéril.
O homem de antes agora estava na minha frente, preparando o que parecia uma grande injeção através da minha visão borrada. “Isso vai doer um pouco, se não muito, pequena T.” Seu tom alegre e arrepiante foi a última coisa que eu ouvi antes que tudo fosse engolido por ruído branco e escuridão.