Vinte: Núcleo
Oito dias de *jogging* e corrida sem parar, a gente chegou no Zimbábue. O vento também pegou velocidade e a temperatura continuou caindo, fazendo gelo no nosso cabelo e cara. Eu derretia de vez em quando, mas formava de novo depois de um tempo, então deixei rolar e ficar na cara.
'Só mais um pouco e a gente chega.' O Elliot era um picolé ambulante. Naqueles oito dias, ele não fez nada pra diminuir a neve em cima dele, então, quando o vento soprou mais forte, a situação dele piorou.
'A gente só devia continuar.' A ideia dos capangas do Nathan—e dele mesmo—provavelmente esperando a gente na mina me deixou preocupado com a segurança do meu amigo. Eu podia me proteger, mas ele não, e ele ainda tava disposto a vir.
Mais dois dias de luta na neve que batia no peito, enfrentando o vento na direção contrária.
O silêncio do lugar não era o que eu esperava quando chegamos lá, e nem o vazio. E claro, a profundidade da mina era de cair o queixo. O vento girando lá dentro fazia um barulho uivante tão profundo que parecia um monstro esperando um estranho perdido entrar no covil.
'Você podia só pular e chega no fundo.'
Eu olhei pra ele. 'Tá de brincadeira. Quer que eu só pule pra morrer?' Inacreditável.
'Não, tô falando sério. Você podia cair de uns quinze metros e ia ficar de boa.'
'Mas aquilo,' eu apontei pro buraco. 'Tem mais de quinze metros.'
'Vamos.' Ele passou por mim e começou a descer a parede da mina.
Eu fui atrás dele.
Ficou mais escuro quando descemos e meus olhos se acostumaram conforme o lugar ficava mais sombrio.
'A entrada da mina é logo ali.' Ele apontou pra um buraquinho a poucos metros da gente.
'Acho que é aqui que a gente se separa. 'Elliot, você precisa—'
'Sim, meu amigo, vou ficar aqui e esperar suas boas notícias.' Ele se afastou de mim e sentou numa pedra. 'Só vai reto e pula quando ver o buraco.' Ele lembrou. Ele tava sentado lá como se não houvesse nenhum perigo iminente vindo atrás da gente.
'Se esconde quando vir eles.' Eu não saí do lugar, ainda olhando pro meu amigo.
O Elliot não disse nada e só sorriu.
E eu fui.
Dentro da mina era uma escuridão total que meus olhos tiveram dificuldade de se adaptar, tava frio também e acho que tava mais frio que lá fora. Não tinha gelo, mas o chão era meio macio—barrento, se fosse pra descrever.
Então era isso que olhos comuns viam quando não tinha luz, mas aos poucos as formas começaram a aparecer e eu consegui ver de novo—não tão claro, mas ia servir.
Eu fui reto, se visse outra entrada de túnel eu ignorava, porque sem dúvida ia me perder se saísse do meu caminho.
Espirrei pela terceira vez já. Não pude evitar, tava tão empoeirado e quem sabe que outras partículas tavam girando por aí.
Continuei andando e eventualmente me cansei da interminabilidade do túnel, que decidi correr.
Tarde demais quando meu pé direito pisou num espaço vazio, percebi que caí e tava caindo por sabe-se lá quantos metros e alguns segundos depois, *splat* de costas no chão. Doeu pra caramba e fiquei sem ar por um tempinho, mas acho que o resto tava ok.
Era só uma teoria, porque eu ainda tava esticado e imóvel.
Mas aí ouvi meu joelho esquerdo voltar pro lugar, e meu quadril direito também. Acabou que eu não tava ok. Caí e me quebrei quando aterrizei.
Esperei mais um pouco, porque meu corpo não doía, não conseguia sentir nada. Ouvi mais ossos estalarem de volta nas suas posições originais, músculos torcidos nos seus ângulos corretos e minha visão clareando—bom, o mais claro que podia ficar nessa escuridão.
Levantei como se nada tivesse acontecido e olhei em volta. Não tinha outros túneis, nem um buraquinho.
'Acho que é isso?'
Devo começar a esquentar?
Ok.
Coloquei as mãos no chão e concentrei uma boa quantidade de calor nelas, não fez nada. Mais calor e a mesma coisa aconteceu, nada.
Hmm.
Aí respirei um pouco e comecei a formar minha barreira de calor no chão.
Nada ainda, se é que não ficou mais empoeirado. O solo começou a se desfazer e cair—meio que virou um pó que escorria.
'Devo cavar?' Bom, de que outro jeito ia chegar mais perto do núcleo?
E eu cavei. E esquentei e depois cavei de novo.
Me pergunto como o Elliot tá lá em cima. Foram meus pensamentos enquanto continuava a cavar. Espero que ele esteja seguro.
Cavei mais rápido. Porra—achei que essa mina tava perto do núcleo da Terra? Não era pra ter magma já fluindo—ou pelo menos pedras de níquel—depois de cavar um buraco três vezes minha altura?
Ia ficar aqui por um tempo então, e espero que o Elliot esteja aguentando e se mantendo seguro.
Perdi a noção de quanto tempo fiquei cavando, mas tinha certeza que tava longe de onde comecei. Minha visão tinha se adaptado e conseguia ver claro de novo.
Unha cheia de sujeira, e provavelmente o resto de mim também, mas isso não me incomodou enquanto continuava minha jornada pra chegar mais perto do núcleo do planeta. Mantive um ritmo constante porque sabia que tava longe de alcançar o—
Meus joelhos de repente cederam e senti minha respiração desacelerar.
O que tava acontecendo?
Senti que só queria me encolher e dormir por causa da tontura repentina. Meu coração diminuiu as batidas, por quê?
Arrepios percorreram todo o meu corpo e percebi que tava... frio?
Nunca tinha sentido frio antes.
Com os membros tremendo, levantei e voltei a cavar, mas tava lento, muito mais lento que meu ritmo normal. É porque tava muito frio que meu corpo tava começando a hibernar?
Ficou mais frio conforme descia?
O núcleo tava congelado.
Mesmo no meu estado pré-congelamento, não pude evitar soltar uma risadinha trêmula.
Não ia rolar. Ainda tenho meu objetivo de viver minha vida normal sem ser reivindicada com meu amigo, então não ia rolar.
Comecei a projetar calor—não no solo, mas em mim mesmo. Engoli em seco quando meu coração começou a recuperar suas batidas normais e o frio que eu tava sentindo lentamente dissipou.
Continuei cavando, mas mais rápido dessa vez, porque aparentemente não consigo derreter solo.
Depois de alguns minutos cavando em alta velocidade, minhas mãos encontraram algo duro, como uma parede de concreto.
Uma pedra? Já passei da crosta da Terra?
Isso vai derreter então se eu esquentar?
Não sei, vamos tentar.
E eu tentei. Demorei um pouco pra projetar calor, porque a sensação de frio voltou e não foi agradável.
Finalmente derreti uma pedra, mas ela começou a endurecer e perder o brilho nem um minuto depois que foi reduzida a um semi-líquido.
Precisava ficar mais quente pra combater a temperatura fria.
Minha segunda tentativa foi mais fácil que a primeira, porque a pedra derreteu mais rápido.
Devo forçar?
Devo.
Dei um passo e empurrei a estreita parede de calor que fiz. O magma começou a endurecer assim que o calor saiu dele.
Isso ia levar muito, muito tempo se eu ainda fosse até o núcleo.
Só projetei calor perto do meu corpo e nunca tentei fazer ele viajar ou ir a uma certa distância antes.
E se eu tentar isso agora?
Era um risco que eu tava disposto a correr, mas não garantia um resultado certo. Se não funcionar, então ia voltar e ver o Elliot—certificar que ele tava seguro, além de fazer perguntas—antes de retornar.
Deixei a parede flutuar, enquanto gerava ondas constantes de calor pra fazer ela se afastar de mim aos poucos. Continuei fazendo isso até a parede estar provavelmente a um metro de mim e garantir que eu conseguia gerar calor suficiente pra estabilizar a temperatura ou fazê-la aumentar.
Mas conforme ia se distanciando de mim, ficou mais difícil manter o fluxo consistente de temperatura, porque conforme somava distância de mim, precisava de mais calor.
Grunhi e aumentei a temperatura da onda. A aparência de feixe que seu caminho tinha criado intensificou seu brilho vermelho-alaranjado.
Minhas orelhas e minhas costas começaram a esquentar também. A rocha em que eu tava de pé rapidamente ficou macia, quase lamacenta.
Tava funcionando?
Provavelmente, porque ouvi uma forte rachadura de algo quebrando, possivelmente o manto congelado.
A *trench coat* de couro que o Elliot me deu há um tempo já foi, derreteu, carbonizou e desapareceu.
Até onde a parede precisa chegar?
Outra rachadura forte.
Mesmo que estivesse ficando difícil, decidi alargar a parede pra cobrir pelo menos mais algum espaço.
Senti que tava ficando fraco, mas não podia desistir. Cheguei até aqui pra desistir agora. Mas tava me sentindo cansado já, nunca tinha projetado calor por tanto tempo. Talvez essa fosse a razão de eu não conseguir manter.
Não consigo.
Não.
Não.
Líquido dos meus olhos começou a escorrer, por alguma razão, tava começando a me odiar.
Odeio que desistir estivesse sequer roçando minha mente e que eu sabia que não ia conseguir aguentar mais.
Era esse o ser forte que o Elliot tava falando? Porque eu não tava me sentindo como um no momento. Tava me sentindo patético!
Onde tava aquele calor como o do sol? Por que não conseguia fazer isso e acordar o caralho do núcleo de uma vez por todas?
Com as mãos tremendo ainda levantadas no meio do caminho, soltei a última onda que consegui com um longo grito. Vi uma luz azul viajando pra onde tava a parede antes que minha visão começasse a formar manchas pretas.
Foi isso. Foi tudo o que eu tinha.
Minhas pernas cederam e antes de cair no magma, acho que fui pego.
'Você não devia desistir agora, você tá tão perto.' Eu sussurrei no meu ouvido. 'Vamos, levante as mãos.' Ele insistiu.
Tudo em mim tava fora disso, com exceção da minha consciência. A única coisa que tava me segurando era o anel que de repente apareceu na minha seção média.
'Vamos, Trinta e Cinco.' Esse sussurro irritante continuava atrapalhando quando eu tava quase sucumbindo ao sono.
Algo agarrou minha mão e a levantou da mesma forma que eu fiz quando tava fazendo a parede móvel.
'Quem é o quê?' Consegui dizer enquanto tentava me virar.
'É o Nathan.' Aquilo me deu uma descarga de energia pra me virar e dar uma tapa nele na cara.
'Traidor.' Rosnei. De alguma forma minha energia tá voltando num ritmo rápido.
O soco não o abalou, ele só me olhou pra baixo.
Hã, ele cresceu.
'Você pode me bater e me chamar do que quiser, mas tem que terminar isso.' Franzi a testa pra ele.
Ele tava certo, mas quem era ele pra falar isso pra mim quando traiu a gente?
Elliot!
'O que você fez com o Elliot?' Minhas mãos tavam esquentando de novo, dessa vez me senti mais... à vontade?
'Nada, deixei ele sentado lá—'
'Se ele tiver sumido—'
Foi tão rápido—ele foi tão rápido que não vi chegar—ele pegou meu rosto nas mãos grandes dele e fechou a cara. 'Foca, Trinta e Cinco. Seu querido Elliot tá vivo e bem fora da mina, então dê o seu melhor e esquente o núcleo.' A voz dele ficou mais grave, mais máscula que os gritinhos infantis que ele costumava fazer.
Ele me virou pra eu ficar de frente pro buraco que a parede tinha feito.
'Foca.' Ele disse uma última vez antes de levantar a mão ao meu lado e imitar minha forma.
Ele também começou a projetar calor, mas era em forma de uma esfera e ela cresceu conforme se distanciava dele.
'Que porra você tá fazendo?' Retomei meu trabalho quase interrompido.
'Te ajudando, é isso que tô fazendo.'
Fiquei quieto e foquei em projetar calor na parede. Talvez tenha passado despercebido antes, mas tinha fitas de chamas azuis indo com as laranjas que eu tava enviando.
Ouvimos várias rachaduras desde que começamos e o som ficou mais e mais suave conforme ficamos mais tempo.
Aquela sensação de cansaço veio de novo depois que o Nathan disse que a gente devia sair.
Eu ainda tava enviando calor quando o chão tremeu, me derrubando.
'A gente devia ir, o núcleo tá acordando.'
'É o suficiente? E se congelar de novo?'
Ele pegou minha mão e puxou. 'Confia em mim.'
Há, essa foi boa vindo de você. Eu queria retrucar, mas ele já tava me puxando de volta pra onde eu vim.
Pulamos de volta nos trilhos e ele me direcionou às pressas pra direção da entrada da mina.
O Elliot parecia tão confuso quanto eu quando vi o Nathan pela primeira vez, e ia e voltava olhando pra mim e pra ele.
O chão ainda tava tremendo, meu amigo me puxou pro lado dele e imediatamente tirou a camisa. Ele não me entregou, mergulhou ela na minha cabeça e quando minha cabeça tava em segurança fora da gola, ele arrastou pra baixo até a minha coxa.
'A gente devia ir, a lava vai explodir a qualquer momento.' O Nathan sem dizer mais nada me pegou pela cintura e pulou.
O chão tava rugindo como se quisesse soltar algo.
O Elliot tava rápido no nosso encalço e tava logo atrás de nós.
E, pra falar a verdade, assistimos da boca da mina enquanto líquido vermelho brilhante jorrava e escorria.
A temperatura dos planetas podia começar a se normalizar depois disso?
Só podíamos observar. Por enquanto.