Dezenove: Perto
'Halufaya tá perto, a gente descansa um pouco lá."
Elliot me mandou ir pro oeste e a gente encontrou uma trilha mais pedregosa.
Quando chegamos nesse tal lugar, não tinha nada. O lugar era só um espaço muito vasto sem nada—nem árvores, nem relevos no chão coberto de neve.
"A gente vai só sentar aqui, porque eu não tô vendo nada."
O Elliot teve a cara de pau de rir. "É." O fela da mãe.
Eu joguei ele no chão. Diferente dos outros lugares que a gente passou, a neve aqui tava compactada e só chegava nos nossos tornozelos.
Ele ainda tava rindo, mesmo deitado no gelo com as pernas em posições estranhas. "Me escuta, pelo menos a gente consegue ver tudo e vai saber quando alguém chegar."
"Sei lá, vai logo com essa parada pra gente ir embora." E acabar com essa desgraça de vez.
"Aqui também é um lugar isolado, então não tem eletricidade." Elliot se virou de bruços. "Por favor, coloca os metais aqui." Ele apontou uns centímetros da cara dele.
Eu fiz o que ele pediu e empilhei as coisas que a gente pegou do lugar anterior.
Eu fiquei de boca aberta enquanto os metais viravam uma poeira prateada quando o Elliot tocou neles. As pernas dele se mexeram sozinhas e se desfizeram do nó esquisito que fizeram quando eu joguei ele antes.
Depois de uns segundos, meu amigo se levantou como se não tivesse aleijado uns momentos atrás.
"Que porra aconteceu?" Minha mente não conseguia entender o que rolou na minha frente. "Foi magia negra? Bruxaria existe?"
"Isso é o que chamam de Alquimia, meu camarada. Eu só improvisei."
Alquimia. Alquimia existe?
"Você é um alquimista?" Que pergunta idiota de se fazer.
"Dá pra dizer, mas eu não consigo fazer ouro de outros metais que não tenham aquele elemento específico. Além disso, os nanomites no meu corpo têm um papel importante. Eles ajudam a reorganizar e transmutar os elementos para a parada que eu quero."
Ué, qual é?
Depois de superar o fato de que meu amigo pode ser um bruxo, eu sentei na frente dele, e ele me imitou. "A gente vai ficar aqui o dia todo?"
Elliot olhou pro céu cinza e suspirou. "Talvez uns minutinhos pra ajeitar minhas pernas novas."
E a gente ficou ali, ele olhando pro horizonte enquanto eu batia na neve do meu lado.
"Você acha que o… exército de seres mutantes do Nathan já tá nos próximos lugares que a gente vai passar?" Eu perguntei.
Demorou um tempão pra o Elliot responder. "Sim." Ele tava tão convicto. Será que ele sentia eles?
"Beleza."
Um pensamento veio na minha cabeça enquanto eu olhava pro meu amigo.
"Elliot, vai ficar tudo bem se eu te deixar e for pra mina sozinho, sei lá, por via das dúvidas?"
"Eu sei que você tá pensando na minha segurança, mas eu prefiro apanhar lutando do seu lado." Eu vi as mãos dele fecharem num punho no chão, pegando uns pedacinhos de neve nelas. "Você me deixar e ir sozinho é tipo cortar os laços comigo."
Eu abri a boca pra falar que não era isso que eu queria dizer, mas ele me interrompeu.
"Eu sei que eu sou inútil quando o assunto é brigar, mas eu ainda quero estar lá com você. Eu não quero ficar numa 'zona segura' e me esconder em algum lugar enquanto você tá lá fora lutando por nós dois. E eu também posso ajudar, sabe."
Eu suspirei.
"Além disso, quem vai te dizer o caminho pra mina? Porque você é péssimo com direções. Quem sabe onde você vai parar?"
Ok, um bom ponto. Eu balancei a cabeça.
"Minhas pernas tão boas. Vamos nessa." Elliot se levantou e me ofereceu a mão.
Eu peguei e limpei minha bunda depois que ele me ajudou a levantar. "Você pode fazer o que fez com as minhas roupas?" A parada tava começando a feder sangue, e não era o cheiro metálico normal de sangue, mas o cheiro de algo morto há dias.
"Claro." Ele pegou na manga da minha camisa e, em um segundo, uma fumaça leve permeou em volta de mim por um tempinho.
Não tinha nem um pingo de sujeira nem resto do suco da parada quando eu olhei pra minhas roupas. "Valeu."
"De nada." Ele respondeu, limpando as mãos.
Nós deslizamos pela ladeira rochosa que eu subi antes e voltamos pra nossa rota original. E dessa vez a gente decidiu parar com as paradas.
Por quatro dias a gente viajou numa velocidade boa. As pernas do Elliot de repente deram pau no caminho, então a gente teve que—de novo—juntar metais pra ele transmutar. Eu também comecei a sentir a temperatura caindo, que, de acordo com meu amigo, chegou a menos quarenta e dois.
Quem consegue sobreviver a essa temperatura por muito tempo?
Chegamos no país da Tanzânia, leste da África.
A gente tava na estrada de Ilukutwa, quando chegamos numa fogueira enorme. Tava pegando fogo e provavelmente era do tamanho de uma casa, mas não tinha ninguém por perto. Claro, isso nos deixou desconfiados e a gente saiu do nosso curso.
Quem ainda consegue fazer fogo nesse frio se fossem humanos?
Elliot encontrou uma rota diferente pra gente e a gente contornou o fogo, mas nossa tentativa de escapar foi inútil. Cinco coisas enormes estavam esperando por nós e, quando a gente se virou pra voltar, mais duas apareceram.
Eles estavam chegando perto e a gente tava encolhendo enquanto tentava evitá-los.
Foda-se isso. "Você me disse que eles não são páreo pra mim, né?" Eu perguntei pro meu amigo, que só tava parado. A estrutura dele de dois metros de altura foi diminuída pelas alturas dos nossos inimigos.
"É, espera, não me diga—"
"Eu vou te jogar e você cai em pé, ok?" Eu não esperei ele responder e agarrei a cintura dele. Eu levantei o Elliot e joguei ele pra longe dos gigantes que tavam se aglomerando.
Eu tava preocupado que eles pudessem pegar ele e bater ele no chão, mas, felizmente, eu catapultei ele rápido o suficiente pra eles só conseguirem seguir meu amigo com o olhar enquanto ele voava pra longe de mim.
A sombra de repente me cobriu enquanto eu tava garantindo que o Elliot pousasse em segurança.
Eu não achei que o Nathan tivesse feito os cérebros deles tão produtivos quanto as formas físicas deles, porque os cabeças de vento jogaram os corpos neles numa tentativa de, provavelmente, me esmagar.
O primeiro corpo que me derrubou me atordoou—até me deixou sem fôlego. Eu tentei levantar o gigante, mas outro peso prendeu meus braços no chão.
Eles tão me prendendo no futebol americano? Eu vi isso uma vez no condicionamento com meu então-irmão Leib, já que ele era jogador de futebol americano, e não era saudável de se ver, ainda mais não saudável pra quem tava sendo esmagado embaixo. Tipo eu.
Porra, parecia que minhas costelas e todo o meu ser já tavam esmagados até o esquecimento quando o quarto peso foi adicionado. Eu respirei fundo—mesmo doendo pra caralho—e reuni minhas forças pra levantar os caras gigantescos em cima de mim.
Pouco a pouco meus braços e mãos foram subindo, mesmo com o quinto peso a mais, minha força não foi impedida.
Minhas mãos tavam totalmente esticadas nesse ponto, o suficiente pra passar elas pra esquerda e fazê-los rolar pra longe de mim. Eu fiz exatamente isso e rapidamente me afastei deles.
Eles tavam rápidos em seus pés pro tamanho deles e chegaram em mim depois de um segundo.
Merda, eu não achei que eles fossem tão rápidos assim!
Eu evitei uma sucessão de golpes sem fim enquanto eles se revezavam tentando me socar. Um pegou em mim na cara, e doeu pra caralho.
Eu pulei e recuei até estar numa distância segura, e foi só então que eu projetei calor na minha mão e deixei ela quente. Mais quente, mais quente, até eu achar que era o suficiente pra até dominar um deles.
Elliot me disse que eles foram construídos da mesma forma que eu, mas vamos ver como eles vão se sair com calor.
Eu joguei a bola de calor do tamanho do meu punho das minhas mãos pro bando que tava chegando. Eu joguei ela um pouco baixo, e, surpreendentemente, ela passou pelo abdômen de um dos gigantes, fazendo um buraco no meio do tronco dele. Mas não impediu eles de vir pra cima de mim.
"Pega a cabeça!" Eu ouvi o Elliot gritar.
O único som que eles faziam era as suas pisadas e os movimentos dos seus membros enquanto eles tentavam me acertar. Até aquele com um buraco no estômago não grunhiu.
Eu fiz outra bola de calor, mas agora do tamanho das cabeças dos meus atacantes, e joguei ela com as duas mãos.
Uma cabeça sumiu, e o corpo caiu; o que tava atrás dele teve metade da cabeça desintegrada, mas deixou ele ainda se mexendo.
Eu corri pra cima deles então, com meus dedos brilhando em vermelho, e pulei no ser mais próximo. Eu agarrei o pescoço dele e senti o cheiro forte de carne queimando.
Mãos agarraram minhas pernas e cintura, me puxando pra longe do aliado deles.
Mais quente, mais quente! Eu apressei minhas mãos pra aumentar a temperatura delas, enquanto eu podia sentir a metade inferior do meu corpo sendo separada da minha parte de baixo.
Se eu me dividir no meio, qual ia crescer? Ou ia ser mesmo?
Porra! Eles eram um pouco à prova de calor mesmo.
Com os dentes cerrados, eu me levantei um pouco e agarrei o pescoço da criatura. Uma torção e uma puxada foram tudo o que precisou pra separar o corpo dela da cabeça.
Eu gritei de frustração enquanto eu fui arrastado na neve pelas criaturas silenciosas.
Mais cinco.
Eu puxei o membro que me agarrou até que eu ouvi o estalar familiar de ossos, tendões e músculos, e então eu senti tontura e tava voando pra sei lá onde.
Eu caí de costas, recuperando o fôlego. "Eu fui esmagado como um mosquito, porra."
Eu ouvi as pisadas deles chegando perto.
Eles estavam aqui pra me levar de volta ou pra me matar? De qualquer forma, nenhuma das duas coisas era boa pra mim.
Eu levantei e comecei a construir minha parede.
Eu podia ter feito isso antes, por que me fazer apanhar primeiro? Talvez eu tenha ficado complacente demais e não os levei a sério.
Além disso, eu queria viver a vida normal que eu conheci através dos sonhos que eles me condicionaram.
A fumaça subiu quando minha parede ficou mais quente.
Eu notei que, quando o gelo virou água, eu afundei mais e mais—porra, a gente tava em cima de um corpo d'água o tempo todo?—e mais, até que eu notei pedras circulares embaixo de mim.
Eu andei, a fumaça tava mais densa e subindo agressivamente nesse ponto enquanto eu empurrava minha parede de calor em direção aos meus inimigos. O primeiro a entrar em contato foi reduzido a inexistência, e o segundo também.
Eu não sei por que o terceiro e o quarto ainda continuaram correndo em direção à parede quando eles já tinham visto seus companheiros serem desintegrados. Eles realmente foram feitos fisicamente perfeitos com uma mente de um imbecil.
Chega aqui, gatinho, gatinho, gatinho. Eu chamei o último na minha mente, e eu já sabia que ele ia fazer a mesma coisa que seus amigos fizeram quando não parou de correr na minha direção.
E eu tava certo, a parede nem sequer deu nenhum de seus restos pra passar por ela.
Acabou. Demorou um tempo pra eu parar o fluxo de energia das minhas mãos e fazer a parede sumir.
"Você tá bem aí embaixo?" A voz do Elliot parecia distante pelo quão baixo tava o volume.
"Sim," eu gritei de volta e me virei.
Uau. Vários metros de onde eu tava em pé, tinha um caminho amplo de magma vermelho-quente, brilhante. A água do gelo derretido que ia fluir perto dele ia chiar e evaporar. Nós realmente estávamos em pé debaixo d'água, baseando-se em quão fundo eu tava. Eu tava talvez quatro ou cinco metros abaixo, sem botas e em pé na frente de uma face alta de gelo.
"Não tinha lagos nem rios nessa área, até onde meu sistema sabe, mas viola!" Elliot tava olhando pra baixo de cima de mim, provavelmente de bruços.
"Me ajuda a subir?" Ah, eu também tava nu, acho que meu guarda-roupa de quatrocentos graus se desintegrou também.
A vergonha que alguém deveria sentir por causa da sua nudez tava ausente em mim. Crescendo, eu não tive a chance de sentir essa emoção, já que eu tava naquele estado sem roupa mais vezes do que eu podia contar no laboratório.
"Eu só consigo estender meus braços até aqui." O braço dele nem conseguia cobrir um quarto da profundidade. "Tem uma inclinação de gelo de onde você escorregou um tempo atrás, e eu acho que dá pra subir."
Uh, tinha um caminho de magma no caminho pra lá. "Como eu posso chegar lá?"
Ele me deu aquela cara de 'você tá falando sério?'. "É só pisar no magma. Tenho certeza que você vai ficar bem."
Eu fiquei olhando pro líquido brilhante por uns segundos. Se ele disse isso então... Não!
"Vamos lá, Trinta e Cinco, é só um magma."
Só um magma? Eu podia ser cozido como um ovo se eu pisasse nele, por tudo o que eu sabia!
Eu franzi a testa ao perceber minha atitude em relação às palavras do Elliot. Eu tava duvidando...?
Isso era novo. E parece ruim, me fez pensar que eu era fraco.
Balançando a cabeça pra tirar aquela emoção, eu mergulhei um pé e depois o outro. O líquido viscoso subiu um pouco mais alto do que meus tornozelos, e eu nunca senti esse relaxamento instantâneo em toda a minha vida de laboratório.
A sensação tava derretendo meus ossos—de um jeito bom—e me fez querer só me submergir e só ficar ali por todo o tempo que eu me importasse. Era tipo uma massagem nos pés muito boa, muito lenta, depois de muito tempo só andando, em pé e correndo.
Hã. Porra.
"Ah, alô? A gente não tem o dia todo." Meu amigo gritou de cima. "Eu sei que você gosta, mas se controle, a gente tem um núcleo pra descongelar."
Eu tava só aproveitando a sensação momentânea e emocionante, nossa. "Sim, eu vou."
Cada passo que eu dava eram os mais felizes que eu acho que dei na minha vida, e isso acabou quando eu saí dele. Eu apoiei as solas dos meus pés numa laje de gelo—que derreteu instantaneamente—e eu me senti normal mais uma vez. Eu fiquei ali e deixei meus pés esfriarem.
Meus olhos olharam pra trás pro caminho de magma que tava perdendo seu brilho lentamente pela última vez e subiram. Eu tive que furar o gelo escorregadio com meus dedos numa velocidade rápida pra conseguir ter apoio, e meus pés também.
Elliot me encontrou na borda e colocou seu sobretudo de couro preto nos meus ombros. Ele abotoou tudo até o topo e apertou o cinto na cintura.
"Nós não temos uma fonte de celulose pra transmutar roupas novas pra você, então vai ter que ser isso por enquanto."
A viagem foi retomada, e minha guarda tava em cima o tempo todo, caso a gente encontrasse aquelas criaturas de novo.
"Você acha que a gente sobreviveria se essas coisas viessem pra cima da gente de uma vez?" Eu perguntei pro Elliot, a bainha do sobretudo que ele me deu tava no chão, balançando a cada passo que eu dava.
"Eu acho, depois que tudo desapareceu como mágica quando você fez seu escudo de calor lá."
"Então eu só vou ter que fazer isso de novo quando isso acontecer." Ao mesmo tempo, eu tava pensando em como eu podia colocar meu amigo longe deles e o dano que eu ia causar.
Ele fez um humm.
"Ei, por que isso foi bom lá?" Eu tava falando do magma que eu pisei antes.
"Você é um termófilo, claro que você ia se apaixonar por qualquer coisa que seja toque-e-você-vai-queimar-pior-reduzido-a-carbono tipo de temperatura."
Hã. Termófilo, algo que ama habitar no calor.
Mas o que acontece com ele quando começa a esfriar?