Sete
KAT
Eu sabia que ele tinha visto, as marcas de queimado que meus dedos deixaram no cobertor antes de eu jogar ele longe. Eu, eu mesma, não conseguia entender o que tinha acabado de acontecer.
"Kat", a preocupação era MUITO evidente na voz do meu irmão. "Que sonho você tá falando?"
Eu tava ocupada entendendo como eu queimei o cobertor que eu não conseguia verbalizar uma resposta pro meu irmão. Meus olhos estavam grudados nas minhas palmas, perguntando pra elas o que tava rolando. A enxurrada de pensamentos inundando minha mente me fez sentir como se eu estivesse em outro lugar — em algum lugar vazio — e nada, absolutamente nada, fazia sentido mais.
"Você parecia que tava tentando fugir", a preocupação na voz dele sumiu quando a raiva tomou conta. "O que você viu na cozinha? Me conta o que realmente aconteceu, Kat." A cara dele ficou sombria. "A mãe não parou de chorar desde que te trouxemos pra cá."
Eu conseguia imaginar as lágrimas da minha mãe e doía saber que eu causei isso nela.
Eu enxuguei minhas lágrimas com o dorso da mão, com medo de me queimar se eu usasse as palmas. "Ele tava tentando me injetar alguma coisa, ele disse que ia doer muito."
"Quem era ele?" Leib pegou nas minhas mãos.
Eu imediatamente tirei elas e deixei nos lados das minhas pernas. Eu podia machucar ele.
"Eu não sei. Um diferente aparece toda vez, mas todos usam jalecos e máscaras." Flashs de branco começaram a aparecer de novo. Eu tentei focar no que meu irmão tava dizendo, mas parecia que ele só tava mexendo a boca. Eu não conseguia ouvir som nenhum vindo dele com todos os murmúrios afogando tudo.
"Kat", a voz dele. Parecia tão distante.
"Por favor, continua falando." Eu me agarrei na voz do Leib.
Até a cara dele de cenho franzido tava começando a borrar. "Ok." Ele deu uma pausa. Ou será que minha paranoia já tinha dominado a realidade?
Continua falando, Leib. Por favor.
Os murmúrios ininteligíveis estavam ficando mais altos.
"O sonho, o que você ia me contar sobre ele?"
Sim, o sonho.
"Eu sonhei com isso muitas vezes — mais do que eu consigo lembrar. Sempre começava comigo como alguém que tava lá, mas não tava — tipo um fantasma, talvez." O quarto ficou mais claro. Os flashes brancos diminuíram. "Eu não sabia quem eu era ou o que eu era, mas eu sabia de tudo o resto.
"Eu tava em algum lugar claro e limpo, limpo demais. Tinha cientistas que estavam fazendo alguma coisa com uma bactéria. Aí tinha uma criança — um bebê — ela tava em um tanque cheio de água."
Minha respiração falhou lembrando dos olhos cinzas intensos. "Eu cheguei mais perto dela, eu me perguntei como ela podia estar ali. Na hora seguinte, ela abriu os olhos e eu tava caindo.
"Ela disse que eu era ela e que nós éramos uma —"
Eu parei de falar quando vi um homem de jaleco branco usando máscara cirúrgica entrar e o cabelo na nuca ficou em pé.
Ele é só um médico, se acalma.
Ele chegou mais perto e cumprimentou meu irmão com uma reverência, eu achei que meu coração ia sair pela boca quando ele parou do lado da minha cama. Ele me encarou com atenção e rabiscou na pasta que ele tava segurando.
"Você está indo extraordinariamente bem, Senhorita Swenson", eu me encolhi com a voz anasalada dele. "Eu vou mandar uma enfermeira te ver mais tarde." Ele fechou a pasta e saiu do quarto sem mais nenhuma palavra.
Familiar. Aquela voz.
"Little, T."
O chão caiu e eu senti que tava caindo, em espiral para o esquecimento.
Minhas calças vieram em rápidas sucessões quando a realização bateu junto com o clique da porta que acabou de ser fechada.
"Ele é", eu sussurrei e entrei em pânico. "Ele é", termina o que você ia dizer!
"Kat, o que foi?" Leib agarrou meus ombros, ele me sacudiu e eu tinha certeza que eu tava quase desmaiando.
Lágrimas escorreram enquanto eu me forçava a falar. Os sussurros eram instáveis e só pioraram, meu irmão me abraçou bem forte murmurando 'tá tudo bem, se acalma, eu tô aqui' várias e várias vezes.
Eu chorei. Eu chorei e queria me bater porque eu não conseguia falar direito.
"Ele é um deles." Eu consegui soltar sem fôlego.
Leib se enrijeceu e instantaneamente me soltou da segurança do abraço dele. Sem olhar pra trás, ele abriu a porta com um solavanco e correu pra fora do quarto.
Eu abracei meus joelhos. E se eles voltassem e eu estivesse sozinha? Eu não teria ninguém pra pedir ajuda.
O pânico virou paranoia. Eu tentei pensar em alguma outra coisa pra me acalmar, mas eu sempre terminava pensando no som de bolhas estourando e murmúrios ininteligíveis.
Parecia que horas tinham passado e meu irmão e meus pais não tinham voltado ainda. Será que alguma coisa ruim aconteceu com eles?
Eu pulei quando Leib entrou.
Ele tava respirando pesado, suor cobria a testa dele e a mão dele tava tremendo quando ele passou no rosto.
"Eu perdi ele." Ele me disse, "Porra, eu tava tão perto!" Eu senti a frustração dele enquanto ele andava de um lado pro outro no quarto do hospital. "Como você soube quem era ele? Você lembra de tudo?"
Eu não sabia o que dizer pra ele, a paranoia ainda tava correndo nas minhas veias. "Você viu a mamãe e o papai?" Eu perguntei tremendo.
"Não, eu tava focado em pegar o cara." Leib foi sentar rigidamente na cadeira do lado da minha cama. Os olhos esmeralda dele perfuravam os meus como se ele pudesse ver minha alma. "Me conta."
Duas palavras. Só duas palavras, mas parecia que eu tinha que carregar alguma coisa muito mais pesada do que eu sabia como começar — por onde começar.
Levou minutos antes de eu falar e Leib esperou. "Eu lembro da época em que eu fui levada, eu vi eles com máscaras pretas de esqui antes de eles cobrirem meus olhos e me eletrocutarem. Eu lembro de acordar em um quarto, tava muito claro e eu não conseguia me mexer nem falar, mas eu via pessoas, ou elas estavam se mexendo ou estavam me encarando."
Eu desviei o olhar do olhar do meu irmão, "Eu nem sabia se eu tava deitada ou em pé. Eu não sentia nada, era como se eu estivesse lá, mas ao mesmo tempo não estivesse. Eu continuo ouvindo essas bolhas estourando, como se alguma coisa estivesse fervendo, mas eu não conseguia relacionar isso com nenhum dos fragmentos que eu lembro." Eu procurei na minha mente alguma outra coisa, mas tudo o que eu consegui foi um zumbido nos ouvidos e uma dor de cabeça, mas eu senti que tinha mais coisa que eu podia lembrar, só que meu cérebro tava me impedindo de fazer isso.
Por quê? Eu não ia aguentar se eu lembrasse delas? Eu ia enlouquecer? Eu nunca ia olhar para as coisas da mesma forma depois que eu soubesse?
O silêncio nos envolveu mais uma vez.
"O homem, como você soube que ele era um deles?" Meus olhos foram para os do Leib.
"Eu já ouvi a voz dele antes, na cozinha, ele tava lá." Minha voz soava tão distante.
"Eu verifiquei, Kat, não tinha ninguém além da mamãe e você na cozinha."
Eu agarrei minha cabeça, se eu pudesse só apertar como uma esponja e todos os pedaços faltando das minhas memórias saíssem, seria melhor. Melhor do que jogar esse jogo idiota de 'encaixe a peça que falta' com meu irmão.
"Às vezes eu não sei o que é real e o que não é mais, em um momento eu tava falando e no momento seguinte eu perdi horas." Lágrimas vieram e meu nariz ficou entupido de novo. "Talvez", eu gaguejei. "Talvez eu não tenha sido realmente abduzida — talvez eu seja mentalmente instável e só inventei tudo isso — eu acho que eu tô ficando louca, se já não estiver." Meus olhos se arregalaram e as lágrimas escorreram.
Meu irmão estendeu a mão e enxugou o líquido salgado no meu rosto. "Essa pode ser uma explicação válida", eu franzi a testa e ele teve a audácia de sorrir. "Mas isso explica como você queimou o cobertor?"
"Não."
"Isso explica como você consegue segurar a panela quente sem se queimar?" Eu fiz isso?
"Não."
"Deve ter outra razão. E aquelas pessoas fizeram alguma coisa." Pra você, eu terminei a frase dele.