Dezesseis: Lembrança 3.0
A gente ainda não conseguia ver ninguém e ainda tava no deserto. Descobrindo que o Nathan não funcionava sem comida, nem água, nem descanso, o Elliot fez uns desvios pra conseguir comida pra ele — tipo um cacto e água — de sei lá onde.
"Tem algo errado." A cara suave do Elliot fez uma carranca.
Minha guarda subiu na hora, meus olhos procurando qualquer coisa se mexendo. "O quê?"
"Tô ouvindo um 'ping' de alerta desde que saímos." Ele olhou pra trás da gente.
O Nathan tava dormindo de barriga pra cima.
"Que 'ping'?"
"Um 'ping' de bomba, meu sistema tá me avisando que tô perto de uma bomba. Chequei várias vezes se tavam nos seguindo, mas não... a menos que..." Ele me olhou fixo.
Quê? Olhei pra ele.
"T, posso te inspecionar?"
Assenti. "Claro?" Caraca, plantaram uma bomba em mim?
Ele parou de falar e só ficou me encarando.
Como ele ia fazer isso?
O Elliot tava tão parado que achei que ele tinha desligado, mas depois de um tempo os olhos dele piscaram. "Não surta, tá?"
Tá? Fiquei encarando, esperando as próximas palavras.
"Tem uma mini-bomba na sua nuca e acho que ela começou a contagem regressiva quando você saiu da instalação."
Eu não tava surtando, nem um tiquinho nervosa, mas continuei olhando pro meu amigo.
"E você tem quinze minutos antes que ela separe sua cabeça do resto do seu corpo."
"Dá pra fazer alguma coisa?" Será que dessa vez ia me matar?
Talvez, talvez não.
"Sim, meu amigo, eu tenho toda a inteligência gravada do planeta, então não precisa se preocupar. Só precisamos achar um lugar bom e facas afiadas pra te operar. Rápido." Ele falou com um sorriso que não chegava nos olhos.
"Notícia urgente, a gente tá no meio do nada." Olhei pra cima e o céu azul começou a ter uns tons de laranja e nuvens rosas.
Ele assentiu e a cara dele pensativa. "Hum-hum?"
"Então, onde, Elliot?"
"Se a gente correr, a pele desse garoto vai sair?"
Fiz uma carranca. "Acho que não. Acho que..."
E foi o que a gente fez. Corremos o mais rápido que conseguimos, esperando achar alguma civilização antes que eu fosse decapitada.
O Nathan provavelmente acordou porque ouvi uns gritos no meio da corrida, bem na direção do Elliot.
Vi umas luzes lá na frente e tive que avisar pro meu amigo diminuir.
Tinha uma estrada! E do outro lado tinha uma casa sozinha..? Não consegui ver direito o que era de longe, mas tinha telhado, então provavelmente era uma casa.
A medida que a gente chegava mais perto, o Nathan tava se engasgando, consegui ver melhor o prédio. Era tipo um daqueles dos sonhos que eles projetavam.
"Uma loja de conveniência?" Perguntei pro Elliot, olhando pra ele e pra o que ele tava carregando.
"Sim." Ele continuou andando na estrada preta — asfaltada.
"Você nunca viu uma loja de conveniência antes?" O Nathan perguntou quando passou por mim, tava pálido, tipo sem sangue.
"Já." Só que não de verdade, só parecia uma.
Segui eles, o caminho duro e nivelado era uma sensação estranha nos meus pés por causa da areia que eu tinha andado por horas.
Tinha um posto de gasolina na frente da loja.
"Tem uma pessoa lá dentro." Vi um cara andando na loja.
"Lógico, não funciona sozinho." O tom do Nathan foi sarcástico e deu vontade de dar um tapa na cabeça dele.
"Cala a boca, garoto." Era o Elliot.
Entramos como se fosse a coisa mais normal — pelo menos pra gente. O cara que eu vi tava atrás do que parecia ser um caixa quando a gente entrou.
Ele não pareceu se importar com a nossa aparência. Acho que uma garota com roupa de baixo e uma bata de laboratório por cima, e um homem bonito carregando um garoto adolescente do tamanho de uma criança numa camisa grande não era nada perto do que ele já tinha visto.
"A gente não tem dinheiro." Sussurrei pro meu amigo enquanto olhava as prateleiras.
O Elliot só sorriu e assentiu devagar, "Temos que agradecer a presença de um caixa eletrônico, então." Ele colocou o Nathan no chão e ficou segurando a mão dele. "Pega o que você precisar, mas nada de doces nem chocolates." Ele falou.
O Nathan resmungou e pisou forte enquanto ia pra outro corredor.
"Você também, T. Pega desinfetante, faca ou qualquer lâmina, e cola."
"Não, vou com você." Eu podia me virar sozinha, mas não ver o Elliot nem por um tempinho me deixava inquieta, era como se eu não soubesse o que fazer sem ele.
"Tá." Ele assentiu, "Temos que ser rápidos, só temos onze minutos."
Fomos até a máquina perto do caixa do cara. O Elliot pegou algo do bolso de trás, mas eu fiquei confusa quando ele não inseriu nada na fenda do cartão. Minhas sobrancelhas subiram quando um monte de dinheiro saiu do caixa eletrônico.
"Vamos." Fui atrás dele, olhando as costas dele enquanto ele pegava as coisas. "Sério, você não tá nervoso nem um pouco?"
"Não." Peguei um desodorante na prateleira. Eles me davam isso na instalação, então eu sabia. Não lembro se usei no condicionamento, no entanto. "Eu sei que não vou morrer."
"Você não pode ter tanta certeza." Eu não tinha. Se eu morrer, beleza, eu não era pra estar nesse mundo mesmo, se não, também beleza, só tenho que ficar de olho nas pessoas tentando me levar de volta pra um laboratório.
O Nathan encontrou a gente no caixa com sua variedade de porcarias e roupas pra trocar.
"Tem um banheiro?" O Elliot perguntou enquanto pagava a nossa conta.
"Sim, lá no fundo." Ele apontou a direção e deu o nosso recibo junto com as coisas.
Assim que a porta de vidro fechou, meu amigo me puxou na direção do tal banheiro e andou depressa. "Oito minutos." Ele murmurou.
Consegui ouvir os pés do Nathan pisando forte, provavelmente correndo atrás da gente.
O Elliot mexeu na sacola de plástico e me empurrou no banheiro.
Lá fora, eu podia ouvir ele instruindo o Nathan sobre ficar parado e não deixar ninguém entrar.
Ele entrou e trancou a porta depois de fechá-la. "Prenda seu cabelo."
Prendi meu cabelo na altura dos ombros com a fita que ele me deu.
"Ajoelhe perto da privada."
Fiz isso, meus joelhos tocaram as telhas frias e secas e abaixei a cabeça.
Uma toalhinha pendia no meu campo de visão e eu peguei.
"Isso vai doer muito, T. Desculpa." Foram suas últimas palavras antes de sentar na privada e apoiar minha cabeça na coxa dele.
Foi quando eu senti, o afundar de algo afiado na minha nuca.
Que dor do caramba!
Apertei os dentes pra evitar gritar e me debater.
De alguma forma, a coisa foi mais fundo e ficou mais doloroso que minha visão embaçou. Soltei um gemido e enfiei a toalha que o Elliot me deu na boca.
Tiveram cliques e sensações diferentes que minha mente fugaz sentiu, mas eu estava quase fora de mim por causa da dor extrema. "Elliot." Implorei que ele terminasse logo porque eu tava sentindo que ia morrer.
"Aguenta, meu amigo." A voz dele tava longe, muito longe e tava ecoando. "Mais um pouquinho." Acho que foi o que ele disse.
Desmaiei... tipo por dois segundos só pra sentir aquela dor penetrante de novo. Meu sangue provavelmente escorreu pelo meu rosto porque eu senti o gosto na boca.
Foi tão longo, tão longo que a dor em si me anestesiou lentamente. Ouvi um estouro.
E aí eu apaguei.
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Acordei com um zumbido baixo, não era chato, mas confortante. Era tipo acalmando meus ouvidos.
"Não se mexe!" Disse uma voz. "Ela acordou!" Uma criança, um robô, uma duende?
Ah, o Nathan.
"Onde?" Hmm, minha mandíbula tá deslocada? Não consigo abrir direito.
"Você tá no meu colo, de bruços, e com fita adesiva. Não se mexe." Ele disse.
Ah, então eu sobrevivi a isso, ainda assim, não teve nenhum lugar nas minhas memórias de ‘abrir-meu-corpo-mais-memorável-sem-anestesia’.
"Elliot."
"Tô aqui, meu amigo."
"Ele tá dirigindo."
Eles falaram ao mesmo tempo que meu cérebro teve dificuldade de decifrar o que cada um disse.
Dirigindo?
Grunhi, a dor tá voltando.
"Toma, bebe isso."
Algo foi colocado entre meus lábios — possivelmente um canudo — e eu suguei. Era doce com uma sensação ardente quando descia.
"O quê?" Perguntei quando o canudo foi tirado da minha boca.
"Um coquetel, o seu amigo aqui, inventou."
Não consegui evitar o gemido que saiu da minha boca. Caraca, tava parecendo que meu pescoço tava inchado do tamanho de uma cabeça humana.
"Onde você conseguiu o carro?" Murmurei no escuro.
"O quê?" O Nathan perguntou. Consegui sentir a mãozinha dele no topo da minha cabeça fazendo umas palmadinhas.
"Descanse primeiro, Trinta e Cinco. Você pode fazer suas perguntas mais tarde, quando estiver curada." Ouvi o Elliot.
Fiz o que me mandaram e fechei os olhos. Não consegui dormir, no entanto, a dor tava sempre presente e cutucando meus ossos constantemente.
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Acordei com murmúrios que foram ficando mais altos à medida que fui recuperando a consciência.
"...temos que continuar, senão eles nos encontram."
Levantei devagar e fiquei cara a cara com o Nathan. A cor dos olhos dele era realmente vermelho escuro através da fonte de luz limitada, achei que era só o truque da luz no laboratório.
"Como você tá?" Quando virei a cabeça com cuidado na direção da voz, era o Elliot no volante. "Tive que costurar sua ferida com fio dental e colar com fita adesiva depois."
Fascinante. Minhas sobrancelhas não paravam de subir enquanto eu ouvia a história dele. Cutuquei levemente o corte com o dedo indicador. "Quanto tempo eu fiquei fora?" Quem diria que fio dental não era só pra tirar sujeira dos dentes? Provavelmente só eu.
"Cinco horas, mas não ouvi reclamações do garoto com você sobre pernas dormentes e coisas do tipo enquanto você dormia."
Cinco horas. Tudo já podia ter sarado, me mexi pra tirar a fita da minha nuca, mas o Elliot me parou. Ele disse que ia fazer isso depois e que o fio dental ainda tava preso na minha pele.
Tá.
Tocou um clique e me virei pra ver o Nathan preso no cinto de segurança. "Por segurança. Não sou imortal como vocês." Ele tinha dito.
"Onde estamos?" Os arredores mudaram, agora tava escuro e comparado ao deserto imenso que andamos, estávamos passando por muitas árvores. Tava chovendo também.
"Kansas, saímos do Colorado há algumas horas. Temos que continuar, não sei se eles começaram a nos rastrear—"
Não consegui terminar de ouvir o que o Elliot tava falando. Teve uma sacudida e então meu rosto foi de alguma forma esmagado em algo macio que me fez voltar.
Fiquei olhando pro teto cinza enquanto tentava piscar, mas meus olhos não estavam seguindo minha vontade.
"Elliot!" Chamei quando voltei a mim e levantei com muita dor pra checar o banco do motorista.
Vazio.
"Elliot!" Eu não tinha medo de morrer ou de ser decapitada, mas perder meu amigo de novo era como pular num corpo de água gelada. O pânico me afogou que minha garganta começou a se contrair.
Puxei a maçaneta da porta e empurrei, não aconteceu nada. Quando girei pra tentar a outra porta, vi que o Nathan ainda tava no banco dele, imóvel.
Ele não falou, mas tava me encarando.
"Você tá bem?" Perguntei e tentei a porta do lado dele. Abriu!
Não ouvi a resposta dele — se é que ele respondeu alguma coisa. Saí cambaleando do carro e corri pro lado do motorista. Não tinha postes de luz e a única fonte de brilho era o farol e as luzes de teto do carro, então me arrastei até meu amigo, mas aos poucos minha visão se ajustou.
A primeira coisa que registrei foi a porta aberta e bem ao lado dele tava meu amigo, deitado na calçada, imóvel.
"Elliot!" Corri pra ele, bati nas bochechas dele, e estupidamente ouvi a respiração e o coração dele. "Acorda!" Sem resposta.
Os olhos dele estavam abertos, mas ele nem piscava.
E então teve um barulho. Foi breve, mas eu ouvi.
"Alvo localizado."
Eles nos encontraram. Eu não tinha percebido antes, mas tinha buracos no corpo do Elliot.
Ele tava morto? Não, ele não pode morrer! Ele era uma Inteligência Artificial do caramba!
Ouvi o som de novo, como pedras pesadas caindo.
Passei a mão no rosto dele pra fechar os olhos, não consegui evitar soluçar enquanto olhava pro meu amigo sem resposta.
Olhei pra cima e com certeza os robôs cromados estavam a poucos metros de nós.
Caramba, o Elliot não pode morrer!
Chorei em silêncio enquanto me levantava. Achamos que escapamos — pelo menos por mais de um dia, mas parecia que eles só nos deixaram fugir pra se divertir nos perseguindo no final.
Bom, que se fodam eles e suas bundas metálicas.
Me afastei do meu amigo e caminhei mais perto deles. Estavam prontos pra atirar e todas as suas armas pesadas estavam apontadas pra mim.
Não sabia quanta quentura era preciso pra derreter metais, mas comecei a projetar calor das minhas mãos.
Mais alta, maior, até começar a se materializar. Um campo de força de calor do caramba mais quente que suas cabeças e tão largo quanto a estrada, seus filhos da puta.
Chegamos até aqui, eu não ia deixar eles nos arrastarem de volta pra outro laboratório pra fazerem experiências de novo.
Fui esquentando mais, dei um passo e depois outro. Começaram a atirar e eu só conseguia rir, suas balas iam derreter antes mesmo de me tocar.
Estava indo em direção a eles, minhas mãos estendidas. A estrada tava virando água preta, fervendo e secando.
Os primeiros robôs que foram tocados pelo campo foram reduzidos à inexistência e então os outros começaram a recuar. Um deles tropeçou e bateu com a cabeça, o pedaço de metal afiado rolou e um par de olhos humanos me encarou com medo.
O quê? Não, eles são robôs.
Continuei andando.
"Por favor." Ele fez com a boca.
Larguei minhas mãos. Olhei pra trás, a estrada tava carbonizada, e não tinha vestígios daqueles que estavam lá atirando em mim antes.
Olhei pro homem implorando de novo, ele ficou jogado na estrada.
Continuei andando, precisava limpá-los pra abrir um caminho pra gente.
Senti a picada antes mesmo de ouvir. Levei um tiro nas costas da perna — o campo de força evaporou num instante — quando me virei pra ver, senti outra dor na minha barriga e, com certeza, também levei um tiro ali, quando vi o sangue vazando do buraco que a bala fez.
Não sabia se ia rir ou ficar com raiva da pessoa segurando a arma. A última pessoa que eu esperava que tivesse coragem de empunhar uma pistola.
O Nathan do caramba.
Então, eu fiz a primeira coisa e gargalhei. "Cuidado com isso, não é um brinquedo, garoto." Gritei.
Vi ele puxar o gatilho, mas não fui rápido o suficiente pra desviar que a bala ainda roçou no meu braço.
Ele não falou. Ele parecia diferente, parecia vazio de emoções.
Ouvi mais alguns tiros depois, no entanto, eu tava pronta e apesar da dor, consegui sair do alcance.
A perda de sangue tava deixando minha visão embaçada e me derrubou de joelhos, o que doeu pra caramba, já que minha ferida na perna foi perturbada.
"Esse foi o seu plano o tempo todo?" Eu devia ter deixado ele lá e queimado. "Que pena, você não tem pra onde voltar."
Não o vi se mexer e ele estava instantaneamente na minha frente, com a arma na minha cabeça. Meus olhos deslizaram pro corpo do Elliot, mas ele tava no mesmo estado que eu o deixei.
"Eu não sou um garoto." Foram suas últimas palavras antes de eu ver seu dedo começar a apertar o gatilho, para o qual eu inclinei a cabeça para o lado para evitar o tiro.
Moron do caramba.
"Se você acha que eu ia deixar você atirar em mim—" Não consegui terminar minha frase quando ele decidiu esmagar minha mandíbula com a coronha da arma, em vez disso. Minha visão triplicou.
Foi surpreendente quanta força ele tinha, já que era pequeno. Ele conseguia até lidar com o chute da arma ao atirar.
Outro tapa de arma do outro lado do meu rosto me fez cair no chão e eu tava vendo manchas pretas.
Minha visão escurecendo conseguiu distinguir suas costas de bebê que estavam ficando mais longe antes de sentir a mordida familiar da eletricidade no meu corpo.
Um garoto de um metro e vinte conseguiu nos enganar e me dominar.
Fodeu.