CAPÍTULO QUATRO
Uns dias se passaram, e as coisas continuam na mesma entre o Theodore e eu. Descobri que o nome dele é Theodore pela Charlotte. Dá pra imaginar como tá ótima a nossa relação, né, já que descobri o nome dele por outra pessoa. Tô indo agora pedir pra ele se posso pegar um celular pra ligar pra Mãe e pra Chloe. Tô com saudade delas, e faz um tempão que não falo nem converso com nenhuma delas. Ele tá trabalhando de casa hoje. Vou até o escritório dele e bato na porta. Entro assim que ele fala, entra.
'O que você quer?' Ele fala com aquele tom grosso de sempre. Os olhos dele grudados nos papéis na frente. Tenho certeza que ele nem precisou levantar pra saber que sou eu. Deve ter sentido meu cheiro assim que entrei.
'Queria perguntar se podia pegar um celular pra ligar pra minha Mãe,' falo, já na frente dele.
'Por que precisaria disso?' Ele pergunta, me deixando chocada com a pergunta dele.
'Tô com saudade dela e quero saber como ela tá.'
'Ela tá bem, e vou pedir pro seu Alpha avisar que você tá com saudade.'
'Como você sabe que ela tá bem? E por que não posso falar com ela?' Por que ele tá tentando me afastar da minha Mãe? Ele age de um jeito muito estranho.
'Se ela estivesse morta, seu Alpha já teria me avisado, e não quero que você fale com ninguém de fora dessa alcateia?'
'Com licença, mas por quê?' Pergunto, confusa.
'Porque eu não quero.'
'Porque você não quer, que tipo de razão é essa? Não sou sua prisioneira, por que não posso ter um celular pra ligar pra minha Mãe?'
'Não preciso que você interaja com ninguém da sua antiga alcateia. Essa é sua nova casa, então você só vai interagir com gente daqui.'
'Por que você tá tomando essas decisões como se tivesse toda a palavra na minha vida? Você nem me aceitou como sua A Rainha, e tá me mandando esquecer minha antiga alcateia e fazer daqui minha nova casa. Mesmo que eu faça daqui minha nova casa, isso não significa que eu deva esquecer todo mundo importante pra mim da minha antiga alcateia.'
'Não precisa ser A Rainha pra aceitar isso aqui como sua nova casa. Você é minha parceira, querendo ou não, e isso faz daqui sua nova casa. Devia se dar um favor e esquecer tudo relacionado à sua antiga alcateia e seguir em frente com sua vida.'
'Você não pode tomar decisões sobre a minha vida assim. Eu tenho o direito de falar com minha Mãe.'
'Eu falei que não, e ponto final,' ele diz, me encarando com aqueles olhos escuros dele, cheios de raiva. Com um olhar nos olhos dele, sei que ele não vai mudar de ideia. Me sinto tão magoada que meu parceiro não vai me deixar falar com minha mãe, sem motivo.
'Não sei por que você tá fazendo isso, mas tá sendo muito cruel comigo.' Sinto que vou desabar em lágrimas. Saio correndo do escritório dele antes que eu desabe na frente dele.
Subo correndo pro meu quarto. Não consigo mais segurar e deixo as lágrimas rolarem. Quando foi que minha vida ficou tão complicada? Por que me deram um parceiro tão cruel? Por que ele não me deixa falar com minha Mãe? Não é como se eu tivesse dito que ia voltar pra minha antiga alcateia, e se eu quiser voltar? Não é como se ele me quisesse, então por que ele tá me prendendo como se eu fosse uma prisioneira?
Não sei quando adormeci, até que ouço alguém gritando, me perturbando no sono. Devo ter dormido enquanto chorava. Desço as escadas pra descobrir quem ousa fazer barulho na casa do Alpha Rei. Enquanto desço as escadas, vejo um homem jovem na frente da escada. Ele parece uns anos mais velho que eu, mas não tão velho quanto o Theodore, e agora que comparei ele ao Theodore... Ele se parece um pouco com ele, só que tem cabelo loiro. Tem os mesmos olhos azuis e corpo musculoso. Ele é bonito, mas não tão atraente quanto meu parceiro. Assim que chego no último degrau, ele fala.
'Você deve ser a Ana. É um prazer te conhecer. Eu sou o Liam,' ele diz, pegando minha mão na dele e deixando um beijinho nela.
'Tira as mãos dela, se ainda quiser ter elas presas ao seu corpo,' o Theodore fala, assim que sai do escritório dele.
Não acredito que ele ficou no escritório o dia todo, já é quase meia-noite. Ele devia descansar, mas por que eu tô me importando com ele? Ele não se importa comigo, então não vou me importar com ele. Ele que trabalhe até morrer, não tô nem aí. Digo pra mim mesma, mas sei que ia me despedaçar se ele fizesse isso.
'Eu gosto da minha mão, muito obrigado, e só fiz isso pra você sair daquele seu escritório,' o homem desconhecido fala,
Ele beijou minha mão pra tirar o Theodore do escritório dele? Se fez isso, deve ser muito próximo dele pra colocar a vida dele em risco assim.
'Não tenta de novo, e por que você voltou?'
'Ouvi dizer que meu irmão finalmente encontrou a parceira dele. Tive que vir ver com meus próprios olhos se é verdade, e tô sem palavras. Você é mais bonita do que as pessoas descrevem. As histórias não te fizeram justiça,' o Liam diz, sorrindo pra mim. Não tô aqui há tanto tempo, e já tem histórias sobre mim rolando. Me pergunto que histórias são essas, porque não aconteceu nada entre o Theodore e eu, então me pergunto o que o Liam ouviu. E ele é irmão dele. Explica por que ele fala com ele sem respeito e por que eles se parecem.
'Agora que já viu ela, pode ir embora.'
'Por que tá me botando pra fora, se acabei de chegar? Quero conhecer nossa futura A Rainha.'
'Não tem A Rainha aqui, então pode ir embora,' o Theodore fala, e parece que me deram um soco no coração.
Sempre que ele me rejeita indiretamente, dói tanto quanto tenho certeza que ia doer se ele realmente me rejeitasse. Não sei se peço pra ele me rejeitar pra sentir a dor de uma vez, mas ao mesmo tempo, não quero deixá-lo. Eu realmente queria que ele me amasse e me tratasse bem. Me pergunto se isso ia acontecer algum dia entre a gente.
'Não devia falar essas coisas com sua parceira por perto. Dói, não sabe?' O Liam fala, tapando meus ouvidos como se isso fosse fazer com que eles não ouvissem as palavras duras dele, mas não vai. Os efeitos das palavras dele já foram feitos.
'Vejo que não gosta das suas mãos,' o Theodore rosna.
'Desculpa,' o Liam fala, tirando as mãos dos meus ouvidos. 'De qualquer forma, acho que todos devíamos ir pra cama. Já é tarde, e estamos todos cansados. Até amanhã, gente,' ele fala e começa a andar em direção à porta da frente.
'Falei pra você ir embora, não pra ir pra cama,' o Theodore fala, seguindo ele.
Eles me deixam parada sozinha nas escadas. Posso dizer com certeza que o Theodore não quer o irmão dele por perto, e me pergunto por quê. Se eu tivesse um irmão, gostaria que ele estivesse por perto. Afasto o pensamento e volto pro andar de cima pra dormir um pouco.
No dia seguinte, desço as escadas pra cozinha pra fazer café da manhã pra mim. Não fui na casa da alcateia pra comer café da manhã depois daquele dia, o Theodore me deixou constrangida. Ele pode só ter falado comigo. Mas todos somos lobisomens, então todo mundo ao redor da mesa ouviu nossa conversa. Tô com muita vergonha de mostrar minha cara na frente daquelas pessoas de novo. No caminho pra cozinha, o aroma de algo divino cozinhando passa pelo meu nariz. Me pergunto se a Charlotte veio fazer café da manhã pra mim. Entro na cozinha, e a pessoa que vejo no fogão não é quem eu esperava ver.
'Bom dia, A Luna,' o Liam fala.
'Bom dia, Liam, e não acho que devia me chamar de A Luna,' falo, sentando em um dos bancos da cozinha.
'Por quê?' Ele pergunta, enquanto põe um prato com ovos, salsichas e pão torrado na minha frente. Mostro meu pescoço pra ele, que não tem nenhuma marca do irmão dele. 'Mesmo que ele não te marcou, isso não muda o fato de que você é a parceira dele.'
'Sei que não, mas ele tem que me aceitar pra eu me tornar A Luna.'
'Você tá certa, e desculpa pelo comportamento do meu irmão.'
'Não precisa se desculpar por ele.'
'Sei que não, mas sinto que devia. Meu irmão passou por muita coisa, então vai levar um tempo pra ele confiar em você o suficiente pra te fazer A Rainha e te aceitar como parceira.'
'Não sei o que seu irmão passou, mas não acho certo ele ser cruel comigo do jeito que ele é.'
'Sim, você tá certa de novo, mas peço que tenha paciência com ele e tente fazer dar certo.'
'Vou tentar, porque o laço da parceira torna impossível não querer ele, mas também não quero que meu coração seja partido por ele.'
'Pode confiar, se você tiver paciência com ele, ele vai mudar.'
'Ok, se você diz e obrigada pelo café da manhã.'
'De nada.'
Depois do café da manhã com o Liam, vou pra casa da alcateia pra achar a Charlotte. Entro, e sou recebida com um monte de olhares. Tento agir como se não estivesse me incomodando, mas tá. Me pergunto por que estão me olhando.
'É porque você é a parceira do Rei,' a Eva fala.
'Mesmo assim, por que estão me olhando com tanta pena nos olhos?'
Todo mundo que tá me encarando me olha como se eu fosse uma criança perdida que não consegue achar o caminho de volta pra casa. Tem muita pena nos olhos delas, e me pergunto por quê.
'Não sei.'
'Acha que elas acreditam nas histórias que ouviram sobre o Rei, e acham que ele tá nos machucando?'
'Não acho, porque essa alcateia é diretamente próxima dele, se alguém soubesse a verdade, seriam elas. Nossa parceira nunca nos machucaria.'
'Quão certeza você tem?'
'Tenho certeza, porque o lobo dele nos quer, mas o humano continua lutando contra isso.'
'Queria que ele se permitisse ficar com a gente.'
'Eu também,'
A Eva fala e vai pra parte de trás da minha cabeça.
Continuo procurando a Charlotte, e no momento em que bato os olhos nela, me encho de alegria. Finalmente posso sair da casa da alcateia e ir embora de tantos olhares. Vou correndo até ela e a puxo pra fora.
'Oi pra você também,' a Charlotte fala, enquanto eu a arrasto pra fora da casa da alcateia.
'Tenho certeza que tá se perguntando por que te puxei assim. Só precisava sair de lá.'
'Por quê? Você viu alguém que queria te machucar?' A Charlotte fala, em pânico.
'Não, e por que tá em pânico?'
'Porque você é a parceira do Rei, então sua vida pode estar em perigo em qualquer lugar, a qualquer hora.'
Nunca pensei nos perigos de ser a parceira do Alpha Rei. Agora que a Charlotte falou, tô um pouco preocupada comigo mesma. Tenho que tomar muito cuidado agora.
'Sei, mas te puxei rápido porque todo mundo tava me olhando estranho lá dentro.'
'Ah, você notou.'
'É claro que notei. Por que estavam me olhando assim?'
'Acho que não quer saber por quê,' a Charlotte fala, e isso só me deixa mais curiosa pra descobrir o porquê.
'Por favor, me conta por quê.'
'Hum….' A Charlotte hesita em falar, mas continua depois de respirar fundo. 'Todas elas acreditam que o Rei vai te rejeitar ou, pior, te matar.'
'O quê! Me matar, por quê?' Pergunto, ficando com medo da minha vida.
'Porque você tá aqui há três semanas e ele não te marcou nem te rejeitou, a única opção que sobrou é te matar.'
'Não, só porque ele não fez nada disso não significa que me matar é a única opção,' falo, mas uma pequena parte de mim sabe que esse pode ser meu destino, mas ele realmente ia me matar?
'Sim, você tá certa, mesmo que ele não tenha feito nada disso, te matar não é a última opção,' a Charlotte fala, mas sinto que ela só disse isso pra eu parar de ter medo, porque tenho certeza que tô com medo da minha vida, como se estivesse.
'Sim, não é a última opção, e por que todo mundo ia pensar isso?'
'Nosso rei não tem uma boa reputação. Tenho certeza que ouviu as histórias.'
'Sim, ouvi, mas vocês deviam saber do que ele é capaz, já que vocês são a alcateia mais próxima dele.'
'Sabemos, e por isso estamos preocupadas com você, mas não pense muito nisso.'
'Acho que já é tarde demais pra isso.'
Já colocaram medo em mim, e não sei mais no que pensar. Até esqueci por que vim procurar a Charlotte.