Capítulo 39
Uma dor lascante explodiu na minha palma, onde eu segurava o metal, e vi um monte de sangue escorrendo por ali. Minhas visões começaram a embaçar e eu engoli em seco antes de juntar toda a minha energia pra arrancar minha palma daquele material afiado e... eu venci.
Minha palma tem um furinho e eu conseguia ver carne vermelha. De repente, me senti tonta e, quando ia cair, alguém agarrou meu ombro e me equilibrou.
Um suspiro escapou da boca dela e eu já sabia quem era. "Larga ele, Harry", ela gritou pra ele, enquanto Kevin o afastava de Karl, que tava sangrando muito, jogado no chão, em pior estado que eu.
Karl me encarou com os olhos inchados e suavizou o olhar quando viu minha mão sangrando. Ele fechou os olhos e o corpo dele ficou dormente.
"Que porra, Kevin. Eu quero matar ele." Harry rugiu com raiva.
"Já chega, Harry", Kevin gritou pra ele antes de soltar a mão dele.
"Sheila, você tá sangrando. Vai pra enfermaria antes que piore", Quinn disse, com um tom de pânico que chamou a atenção dele.
Ele virou os calcanhares pra me olhar e os olhos dele encontraram minha mão sangrando na hora. Seus olhos mostraram horror antes de ele correr na minha direção, mas eu o impedi no meio do caminho, levantando a outra mão.
"Não", eu avisei, lágrimas rolando pelas minhas bochechas, não porque minha mão tava doendo pra caramba. É porque eu vi ele, pela primeira vez, perdendo a cabeça e batendo em alguém terrivelmente, quase tirando a vida dele.
"Sheila, calma. Deixa eu te levar pra enfermaria." Ele se aproximou e tentou pegar minhas mãos, mas eu o empurrei. O contato da minha palma vermelha encharcada deixou uma mancha vermelha dos meus cinco dedos na camisa branca dele, bem onde o coração dele tava batendo.
Eu me encolhi quando senti uma dor aguda, como se alguém estivesse esfaqueando meu braço repetidamente. Eu precisava muito de um bom tratamento agora.
Dando uma última olhada pra Karl, que tava inconsciente no chão, eu fui em direção à enfermaria, com Quinn do meu lado.
*
Perspectiva da Sheila:
"O ferimento é muito profundo, por favor, se cuide. Não chegue perto da água até a ferida secar", disse a Enfermeira, puxando o curativo ao redor da minha palma.
"Ok", eu disse fracamente, olhando para a minha palma coberta de bandagem.
Eu agradeci a ela antes de sair da enfermaria e lá eu vi Harry em pé perto da sala da diretoria, a que ficava ao lado da enfermaria, usando nada além de uma expressão preocupada no rosto, olhando na nossa direção. Assim que ele viu que estávamos saindo da sala, ele deu um passo para se aproximar de nós.
"Quinn, eu quero ficar sozinha, por favor." Eu disse, alto o suficiente pra ele ouvir. Ela balançou a cabeça e foi em direção a Harry, enquanto eu virei os calcanhares e caminhei na direção oposta a ele, esperando muito um tempo longe desse drama.
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Já faziam duas horas que eu estava sentada sozinha no parquinho. Não tinha ninguém aqui, o que de alguma forma me deu paz de espírito.
Eu queria ir pra casa, mas nem pensar. Não tenho chave de casa, Quinn me ofereceu uma chave reserva no dia em que me acolheu na casa deles, mas eu me recusei a pegar e agora estou arrependida de não ter aceitado a oferta dela.
Enquanto eu estava afogada na minha própria onda de pensamentos, senti a presença de alguém atrás de mim. A raiva subiu no meu corpo quando percebi quem seria, porque ele não ia me deixar em paz, mesmo quando eu estava procurando um tempo pra matar ele.
"Você pode me deixar sozinha, por favor?" Eu gritei, sem olhar para o rosto dele, mas meu rosto ficou pálido e eu fechei a boca com força quando me virei para vê-lo, a última pessoa que eu esperava, com o rosto gravemente ferido, com uma bandagem na bochecha esquerda e um corte nos lábios.
"Posso falar com você por um minuto?" Ele perguntou e eu balancei a cabeça, embora quisesse sair desse lugar, especialmente dele.
Ele sentou do meu lado, não muito perto. "Me desculpe, Sheila." Ele sussurrou.
Eu olhei pra ele como se ele tivesse nascido com duas cabeças. De jeito nenhum, o grande mito, o único e inigualável Karl Parker veio aqui para pedir meu perdão.
"Por favor, pare com esse drama. Já tive o suficiente de você. Só me diga o que você quer." Eu disse severamente, escondendo meu rosto o mais reto que podia, ignorando a batida do meu coração.
Ele soltou uma risada baixa, que foi coberta por uma coroa dolorosa antes de olhar pra mim. "Eu sei que você me odeia e nem quer passar um segundo comigo, mas por favor, me dê um minuto. Eu vou explicar tudo", ele disse calmamente.
"Então, agora você tem a razão de toda a dor que você me causou, não é? Não me diga que você fez tudo isso só por diversão. Você estragou minha vida, você tirou tudo de mim. Você... Você até queimou meus 12 anos de estudo, você me humilhou na frente dos alunos, você me fez beber contra a minha vontade e me levou pra sua casa, e você fez um monte de coisas horríveis que eu não consigo esquecer. Como você vai explicar tudo, hein?" Eu cuspi nele.
Os olhos dele mostraram culpa e ele olhou para baixo, envergonhado de si mesmo. "Me desculpe, Sheila. Eu sei que não tenho uma explicação pra tudo isso, mas eu realmente sinto muito. Por favor, me perdoe." Os olhos dele encontraram os meus e eu pude ler a sinceridade ali, embora eu não quisesse acreditar nele.
E se ele estiver armando outro jogo? Mas, por uma razão desconhecida, eu queria dar uma chance pra ele. Todo mundo merece uma chance de provar a sua culpa.