Capítulo 2
A carranca nunca saiu do rosto do Julião enquanto todo mundo se reunia ao redor da mesa e o Sam colocava a garrafa em cima. De todas as coisas que a Trish podia pensar, tinha que ser verdade ou desafio? Do que o Julião sabia sobre o jogo desde tempos imemoriais, sempre acabava mal. Relacionamentos estilhaçados e segredos pessoais revelados. Ele não curtia e fez questão de ficar longe dessas atividades. Além disso, eles deveriam ter superado esses jogos ridículos. Mas, de novo, ele nunca associou a Trish e a maturidade na mesma frase.
'Beleza, eu vou primeiro.' Randal declarou.
Ele girou a garrafa e ela parou com a ponta apontando para a Nancy.
'Demais.' Ela sussurrou.
'Nancy, verdade ou desafio?' Randal perguntou.
'Verdade.' Ela respondeu rapidamente.
'Ah, qual é. Você realmente tinha que começar com uma verdade?!' Trish gritou.
'Ei, não vai contra as regras.' Nancy retrucou.
A Trish revirou os olhos em resposta e murmurou algo que ninguém podia ouvir. Julião estreitou os olhos para ela.
'Próximo.' Randal pigarreou. 'Nancy, você ainda é virgem?'
'Como assim?' Nancy gritou quando seu rosto ficou vermelho. Ela se encolheu ainda mais na cadeira, pois todos os olhos estavam nela.
'Responda à pergunta, querida.' Trish piscou com um sorriso malicioso.
'Tá bom.' Nancy murmurou. Ela examinou os rostos e seus olhos encontraram os do Julião. Ele rapidamente desviou o olhar.
'Sim.' Ela disse depois do que pareceu minutos.
'Eu sabia!' Cheryl gritou enquanto batia no braço do Sam.
'Eu te falei.' Ela acrescentou.
'Podemos seguir em frente?' Nancy franziu a testa enquanto pegava a garrafa. Ela girou e desta vez parou na Trish. Um sorriso que rivalizava com o gato de Cheshire apareceu no rosto da Nancy.
'Trish, verdade ou desafio?' Ela disse.
'Desafio, é claro.' Trish respondeu. 'Verdade é para bebês.'
'Fico feliz que você pense assim.' Nancy respondeu, meio ofendida e meio divertida.
Olhando fixamente para sua amiga, Nancy liberou sua arma.
'Trish, eu te desafio a ficar só de cueca, sair e dançar na chuva.' Ela sorriu.
'O quê! Você não pode estar falando sério!' Trish gritou. 'Eu posso ter hipotermia.'
'Você pode desistir.' Nancy respondeu com um encolher de ombros. 'Mas você sabe o que isso significaria.'
A Trish encarou sua amiga de óculos. Ela definitivamente não esperava por essa. Nancy sorriu docemente em resposta.
Deixando escapar um bufo, Trish se levantou e lentamente começou a se despir. Ela tirou sua blusa azul celeste para revelar um sutiã vermelho rendado. Um sorriso apareceu em seu rosto quando ela notou o olhar intenso do Sam na área do peito, para grande desgosto da Cheryl. Randal olhou como um cachorrinho perdido. Julião, no entanto, tinha uma expressão vazia no rosto. Então ela tirou sua saia preta e jogou de lado, revelando uma calcinha vermelha rendada combinando. De pé, de braços abertos em sua glória semi nua, ela olhou para a saída da sala de estar.
'Não fique aí parada. Vá lá fora e dance.' Nancy riu.
A Trish gemeu e caminhou em direção à porta, seu traseiro quase coberto balançando a cada passo que dava. Cheryl deu um tapa no braço do Sam ao ver onde ele obviamente estava olhando.
'O quê?' Ele sussurrou.
Ela não respondeu. Em vez disso, ela cruzou os braços e desviou o olhar com uma carranca.
Em segundos, Trish estava lá fora e foi recebida brutalmente com as gotas frias de água tocando sua pele.
'Está muito frio!' Ela gritou quando arrepios apareceram por toda a sua pele.
'Pare de reclamar e dance.' Nancy respondeu.
Todos eles se reuniram na porta para assistir a um show emocionante, com exceção do Julião, que decidiu ficar dentro. Randal pegou seu telefone e ligou o gravador.
'Isso vai ser divertido.' Ele sorriu.
A Trish começou a dançar. Desafiando a chuva forte, ela girou seu corpo e moveu os quadris de um lado para o outro.
'Arrase, garota!' Randal torceu enquanto gravava a ação.
Parando para mostrar o dedo do meio, Trish continuou a dançar. Isso era tão humilhante. Pensar que ela foi quem sugeriu esse jogo para ter a chance de irritar o Julião e a Nancy, só para dar errado e colocá-la nessa situação.
'Ok, chega. Você pode entrar agora.' Nancy chamou depois de um tempo.
'O quê? Isso nem chegou a dez minutos.' Randal reclamou.
A Nancy não teve tempo de responder quando Trish rapidamente passou por eles e entrou na sala de estar. Seus dentes batiam um no outro quando ela estava no meio da sala, tremendo. Uma carranca cruzou seu rosto quando ela pegou o olhar ligeiramente divertido no rosto do Julião. Os quatro restantes entraram na sala de estar e o Sam fechou a porta.
'Ótimo. Estou com tanto frio.' Trish reclamou enquanto envolvia os braços em volta de si mesma.
'Valeu muito a pena.' Randal sorriu enquanto olhava para seu celular.
'Totalmente.' Nancy concordou.
'Que se dane vocês dois.' Trish cuspiu.
'Chega de brincadeiras.' Sam disse enquanto caminhava em direção a eles.
'Vamos. Vamos te deixar seca.' Ele acrescentou enquanto colocava um braço no ombro nu da Trish e a levava para seu quarto.
A Cheryl lançou um olhar furioso enquanto observava os dois fazerem sua saída. Ela sempre manteve um olhar suspeitoso sobre o namorado quando se tratava de outras mulheres. Ele nunca lhe deu motivos para suspeitar de infidelidade, mas havia algo que não conseguia sair de sua mente. Ele era fiel a ela. Talvez muito fiel.
Cerca de seis minutos se passaram e nem Sam nem Trish retornaram. Cheryl cerrou o punho até que suas juntas ficaram brancas. Nancy, que estava ao lado dela, viu a raiva e rapidamente se moveu para sentar ao lado do Julião. Randal, sem saber de nada, seguiu e sentou-se no lado oposto do Julião.
'Sério?' Julião franziu a testa. 'Vocês dois tiveram que me deixar no meio?'
Ele gesticulou para os outros dois sofás vazios a poucos metros de onde estavam sentados. Os sofás estavam ao lado da Cheryl, que parecia furiosa.
'Aparentemente, essa não é uma boa ideia.' Randal respondeu.
A Nancy assentiu.
Julião bufou. Ele não se importava com o drama que estava prestes a acontecer. Relacionamentos eram superestimados para ele de qualquer maneira.
A poucos minutos, Sam e Trish entraram na sala de estar.
'Por que demoraram tanto?' Cheryl perguntou em voz baixa.
'Tive que encontrar o tipo certo de roupa que coubesse nela.' Sam respondeu.
A Trish usava uma de suas regatas e shorts de basquete. A roupa ainda parecia grande nela, o que fez Cheryl duvidar ainda mais da explicação do Sam. Antes que ela pudesse expressar seus pensamentos, no entanto, de repente parou de chover. Julião sentou-se rapidamente quando uma expressão surpresa apareceu em seu rosto.
'Isso foi estranho.' Ele sussurrou.
'Sim. Não diminuiu para uma garoa. Apenas parou.' Nancy respondeu. Seus olhos azuis examinaram a janela enquanto ela ajustava seus óculos.
A raiva da Cheryl foi momentaneamente esquecida quando ela também ecoou seus pensamentos. Algo assim nunca havia acontecido antes. Nunca havia chovido forte apenas para parar de repente.
Um silêncio pesado encheu a sala. Ninguém se moveu. Sam, no entanto, decidiu cortar a tensão.
'Todo mundo se acalma? Vamos retomar o jogo e não deixar uma coisa menor como essa estragar a diversão.' Ele disse.
'Sim, eu passo. Ótima festa e parabéns pela sua promoção.' Julião respondeu enquanto se levantava.
'Ah, qual é, cara. A festa acabou de começar.' Sam sorriu. 'Eu não quero acreditar que o motivo de você estar indo embora é porque você está assustado.'
'Não. Tenho que levantar cedo. Você percebe que esta é uma semana de trabalho.' Julião respondeu.
Ele passou pelo Sam e estava chegando à porta quando algo chamou sua atenção. Algo que ele não viu antes. Refazendo seus passos, ele voltou para o Sam e viu.
Gravada na lateral do pescoço do Sam estava uma tatuagem. Julião tinha certeza de que não tinha visto, pois ele tinha ido à casa do Sam naquela tarde e aquela tatuagem definitivamente não estava lá antes de Sam ir para seu quarto com a Trish cerca de quinze minutos atrás. Tinha a forma de uma lâmpada com o número 1 no meio.
'Ei, Sam, quando você fez essa tatuagem?' Julião perguntou.
'Que tatuagem?' Sam ficou confuso.
'Essa aqui. A do seu pescoço.' Julião apontou para o pescoço.
'Do que você está falando? Eu não tenho tatuagem. Julião, se essa é sua primeira tentativa de fazer uma piada, sinto muito em dizer que é horrível.' Sam franziu a testa.
'Eu não estou brincando.' Julião espelhou suas ações.
A Cheryl e a Trish olharam para o pescoço do Sam.
'Não tem nada ali.' Cheryl disse.
'Sim, eu não vejo nada.' Trish concordou.
'Vocês estão brincando, certo?' Julião olhou para as mulheres de forma perplexa.
'Não.' Trish balançou a cabeça. Ela virou a cabeça para a Randal e a Nancy.
'Ei, pessoal, venham aqui.' Ela chamou e eles se aproximaram.
'Randal. Nancy.' Julião se virou para eles. 'Vocês veem aquela tatuagem no pescoço do Sam?'
'Tatuagem? Onde?' Randal apertou os olhos no pescoço do Sam.
'Eu não estou vendo nada.' Nancy disse enquanto estreitava os olhos através de seus óculos.
'Exatamente.' Sam cruzou os braços e olhou para o Julião, dando-lhe um olhar estranho.
Todos os olhos estavam no Julião agora. Cada um tinha uma expressão diferente. Nancy e Randal estavam preocupados. Trish e Cheryl refletiam diversão.
'Julie.' Trish explodiu em gargalhadas. 'Eu pensei que você não bebia.'
Julião olhou para todos surpreso. Ele não podia acreditar nisso. A tatuagem estava bem ali no pescoço do Sam, bem visível para todos verem. Ou era apenas visível para ele ver? O que estava acontecendo? Primeiro, a súbita cessação da chuva forte. Agora isso. Por que diabos ele era o único a ver aquela tatuagem?
'Sabe de uma coisa? Esquece. Eu estou fora. Vejo vocês por aí.' Ele suspirou.
Ele saiu, ignorando os chamados de seus amigos, e fechou a porta.
Esta foi uma das noites mais estranhas de sua vida.
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