Capítulo 25
Julião não conseguia acreditar nos olhos. Ele tava de volta no cemitério, onde tudo começou. Mas ele tava sozinho dessa vez. Não tinha Loretta. E nem Nancy. Ele estremeceu quando a brisa fria e dura bateu na pele dele. Seus olhos vasculharam a área enquanto ele andava por aí. Tudo tava quieto. As folhas no chão faziam um barulho crocante quando ele pisava nelas. Ele chegou perto de uma lápide e sentou nela. Passou a mão no cabelo enquanto tentava entender a situação dele. O que tava acontecendo? Onde tava a Nancy? Ele lembrou que tentou atacar a Loretta e agora tava ali. Sozinho. Sem aliados. Sem como se defender. Ele levantou a mão e ficou olhando pra ela. A mão que segurava a espada poderosa há alguns momentos atrás. Agora, não segurava nada. Apertando os nós dos dedos, soltou uma série de xingamentos baixinho. Mais uma vez, pra fúria dele, a Loretta tinha colocado ele numa fria. Por que ela tava fazendo tudo isso? Pelo que ele sabia, ela teve a chance de acabar com a vida dele naquela época e depois esperar de novo até o século que vem. Então por que ela não fez isso? Por que ela tava enrolando? Era tudo diversão pra ela? Julião olhou ao redor do cemitério de novo. Era outro dos joguinhos dela?
De repente, uma névoa verde encheu a área. Julião se levantou rápido do cemitério e ficou em alerta.
"O que pode ser dessa vez agora?" Ele murmurou.
O estalar de um galho foi ouvido à distância. Depois vieram passos. Julião engoliu em seco quando o som se aproximou. A silhueta de um homem logo apareceu na névoa verde. Julião apertou os olhos enquanto tentava identificar a figura desconhecida.
"Alô?" Julião chamou.
"Julião?" A figura respondeu.
A cara do Julião ficou pálida quando ele reconheceu a voz. Era dolorosamente familiar.
"Pai?" Ele disse, sem acreditar.
Julião andou em direção à figura. Seus passos eram calculados, pois ele meio que antecipava que provavelmente seria mais um joguinho mental. Mas uma parte dele queria estar errado. Ele não sabia por quê, mas aquela parte dele queria que realmente fosse o Sergio ali. Mas assim que chegou perto da figura e a névoa se dissipou, ele provou que estava errado. Ele parou quando o coração quase saiu do peito.
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Na frente dele estava a forma decaída de Sergio Fernandez. Faltava um nariz, um olho e os lábios tinham sumido, mostrando dentes amarelos e tortos. Uma minhoca rastejou da órbita vazia do olho dele e caiu no chão. Ele rosnou e começou a avançar em direção ao Julião. Julião recuou rapidamente.
"Jovem," O cadáver gemeu. "Bem-vindo de volta."
"Sai de perto de mim!" Julião gritou.
"Não," Ele respondeu, com baba amarela escorrendo dos lábios. "Você pertence aqui. Com sua mãe. Junte-se a ela. Ela está esperando por você."
Ele sorriu cruelmente e de repente aumentou os passos. Seu rosto deformado enrugou quando esticou as mãos em direção ao Julião.
"Ela está esperando por você!" Ele gritou de novo. Desta vez, a voz saiu em um tom agudo.
"Fique longe!" Julião gritou de novo.
Enquanto o cadáver se aproximava dele, ele se inclinou para trás e chutou a lateral da cabeça dele. A força do impacto tirou a cabeça dos ombros e a mandou para longe. O corpo sem cabeça caiu no chão, tremendo incontrolavelmente.
Julião se virou apenas para ver a mesma forma decaída de seu pai a poucos centímetros de distância dele. O cadáver sorriu maliciosamente. Julião ficou petrificado de choque. Não era esse o mesmo cadáver que ele tinha acabado de decapitar com o pé há poucos segundos atrás?
"Como-"
Antes que Julião pudesse terminar a frase, o cadáver o agarrou pelo pescoço e começou a enforcá-lo. Julião tentou afastar as mãos, mas descobriu, para seu desgosto, que elas estavam presas.
"Junte-se a ela!" Ele gritou, com um sorriso maligno adornando seu rosto podre.
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Loretta sorriu enquanto olhava para o redemoinho negro à sua frente. Fazia horas que ela tinha jogado o Julião lá dentro. Enquanto ela estava sentada em uma grande lápide, batucava o pé no chão gentilmente. As coisas estavam indo muito bem no momento. Isso era divertido para ela. Se tudo corresse como planejado, Julião estaria mentalmente quebrado. Quebrado o suficiente para ela dar o golpe final.
Ao lado dela, Nancy grunhiu e lutou para sair das correntes.
"Não adianta," Loretta suspirou, balançando a cabeça. "Essas não são correntes comuns."
Nancy ignorou ela e continuou lutando. Um sorriso divertido tomou conta do rosto da Loretta. Ela se levantou da lápide e se agachou na frente da Nancy.
"Você é bem teimosa," Ela disse, passando a mão no cabelo da Nancy. "Atrevida e esperta também. Eu consigo ver por que o Julião gosta de você. Uma pena que esse romance inevitavelmente vai acabar em tragédia."
"Vai se ferrar." Nancy cuspiu com veneno. Seus olhos brilharam com fúria enquanto ela olhava para a Loretta.
Loretta suspirou e se levantou.
"É tão triste que você não consiga entender que isso é para o bem maior." Ela disse.
Naquele momento, Loretta avistou a espada por perto. A mesma espada que o Julião tinha deixado cair. Ela caminhou em direção a ela e pegou-a. Um grito agudo escapou de seus lábios quando ela sentiu o calor da espada queimar a palma da mão. Ela fez uma careta e jogou-a para longe. Nancy gritou quando quase a atingiu.
"Quase esqueci o quanto aquele objeto amaldiçoado podia machucar." Loretta murmurou enquanto massageava a palma da mão agora dolorida.
Era para sair como um sussurro, mas a Nancy ouviu suas palavras. Naquele momento, ela percebeu algo. Ainda havia esperança. A espada não podia ser destruída, pois a Loretta não conseguia tocar nela. Tudo o que a Nancy precisava era de uma pessoa. De sua posição deitada no chão, ela esticou o pescoço e virou o rosto em direção ao portal.
"Julião!" Ela gritou.
Loretta desviou a atenção da palma da mão e deu à Nancy um olhar confuso.
"Você percebe que ele não pode te ouvir." Ela disse, cruzando os braços.
Nancy ignorou ela e gritou de novo. Desta vez, com toda a sua força.
"Julião!"