Capítulo 27
RANDAL MASON
Filho e amigo amado
1988- 2017
As palavras estavam esculpidas com força na lápide. Julião encarava a lápide com um olhar vazio. Nancy estava ao lado dele, segurando a mão dele. A expressão dela era sombria enquanto seus olhos azuis se concentravam na lápide por baixo dos óculos. O casal estava assim há alguns minutos. Havia silêncio total. Ninguém disse uma palavra. Ninguém fez um som.
Muitas coisas passavam pela cabeça de Julião no momento. Já fazia um ano desde a experiência horrível e paranormal que ele passou. Cheryl ainda estava detida, embora houvesse esperança. Trish encontrou um bom advogado e o caso seria reaberto. Era o mínimo que ela podia fazer. Ela sentia a obrigação de compensar a culpa de trair a amiga dormindo com o namorado dela. Parecia que ela estava em uma montanha-russa emocional.
Julião fazia questão de visitar a família de Randal duas vezes por semana. Eles estavam desolados com a morte dele. Especialmente a mãe dele. A pobre mulher não conseguia passar um dia sem chorar. Levou oito meses e visitas constantes para acalmá-la. O pai dele, no entanto, se distraía facilmente, olhando para o nada com uma expressão carrancuda.
Nancy lançou um olhar para Julião. A ferida que ele recebeu na testa na briga do ano passado tinha cicatrizado. Mas deixou uma cicatriz. Uma cicatriz horizontal vermelha grossa acima da sobrancelha esquerda dele. Nancy se lembrava quando ele olhava para o espelho e franzia a testa para sua reflexão. A cicatriz era um lembrete permanente de que ele passou pelo inferno. Era um lembrete de que, apesar de ter saído lutando e triunfado, vidas foram perdidas no processo. Lembrou-lhe que seu melhor amigo se foi. Para piorar as coisas, Randal teve que ser enterrado naquele mesmo cemitério. O cemitério que nunca guardou boas lembranças. O mesmo cemitério em que Julião matou 'ela'. Como ele odiava aquela cicatriz.
Balançando a cabeça e voltando à realidade, ele se virou para Nancy.
"Vamos," ele disse. "Vamos embora."
"Ok." Ela respondeu.
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Enquanto Nancy fechava o portão na saída, ela perguntou.
"Ela vai voltar alguma vez?"
Julião enfiou as mãos nos bolsos e franziu a testa. Ele sabia o que Nancy queria dizer. Ele não podia culpá-la por fazer aquela pergunta. Ela suportou pesadelos constantes depois daquele encontro horrível. Ele se virou para encará-la.
"Não, ela não vai," Julião disse. "Malorca não seria tão estúpida. Ela deveria estar ciente agora de que, se ousar fazer isso, a história inevitavelmente se repetirá. Para alguém que era inteligente e uma suposta parapsicóloga, estou surpreso que ela nunca tenha lido sobre mitologia grega."
"O que você quer dizer?" Nancy perguntou.
"Se ela tivesse lido," Julião respondeu. "Ela saberia o que aconteceu com o Rei Sísifo."
Nancy caiu na gargalhada. Ela o segurou para se firmar e logo sua risada contagiante teve seus efeitos sobre ele.
Pela primeira vez em anos, um sorriso apareceu em seu rosto.