Capítulo 6
A pancada incessante na porta acordou Julião da cama no dia seguinte. Era um sábado e ele não queria nada mais do que dormir até o meio-dia. Resmungando de raiva, ele ignorou as batidas e colocou os cobertores sobre a cabeça. A batida não parou. Ficou mais alta. Julião jogou os cobertores para longe da cabeça, levantou-se rapidamente da cama e saiu do quarto.
'Acho que o universo continua inventando novos métodos para me provocar.' Ele resmungou enquanto descia as escadas.
Ele chegou à porta da sua sala de estar e a abriu, encontrando Randal do outro lado com os braços cruzados. E Randal não parecia nada feliz.
'Randal?' Julião coçou a cabeça confuso.
'Não, é Dom Quixote.' Randal resmungou secamente. 'Claro que sou eu. Julião, o que está errado com você?'
'O que você quer dizer?' Julião franziu a testa.
'Estou falando de ontem. Estou falando de Sam. Você não atendeu minhas ligações. E então, quando Nancy tenta entrar em contato com você, você a ignora?' Randal disse, sua carranca se aprofundando.
Julião soltou um suspiro enquanto evitava os olhos do amigo. Ele não sabia por onde começar.
Randal olhou para ele por um tempo antes que sua expressão suavizasse. Eles eram amigos desde a infância, mas ele sempre o achava complicado às vezes. Ele não conseguia dizer se as ações de Julião eram uma forma de luto ou apenas sendo ele mesmo.
'De qualquer forma. Acho que algo aconteceu na casa do seu vizinho.' Randal disse.
'O quê?' Julião virou-se para encará-lo.
'Ali.' Randal apontou com o polegar para o lado.
Julião saiu pela porta para ver para onde Randal estava apontando. Com certeza, ele avistou uma van estacionada na entrada da casa do Sr. Wyatt, a poucos metros do carro de Kate. Um grupo de paramédicos de branco estava reunido em volta de Kate, que estava perto da porta, tentando responder às suas perguntas. Ela estava com os braços enrolados em volta de si mesma enquanto parecia abalada. Seu rosto estava pálido e seu cabelo estava bagunçado. Seus lábios se moviam sozinhos, mas parecia que ela não conseguia fazer uma frase coerente, como Julião notou pela confusão nos rostos dos paramédicos que faziam as perguntas.
'O que aconteceu? Um acidente ou algo assim?' Randal perguntou enquanto olhava para a cena.
Julião encolheu os ombros em resposta.
Naquele momento, mais dois paramédicos saíram da casa com um carrinho empurrado entre eles. No topo do carrinho estava o que parecia ser o formato de um corpo envolto em tecido branco, com as bordas quase tocando o chão. Os dois amigos se encararam por um momento e voltaram a atenção para o carrinho.
Naquele momento, um dos paramédicos que empurrava o carrinho tropeçou e quase perdeu o equilíbrio. O movimento fez com que uma mão escapasse de debaixo do lençol branco. A mão estava queimada. O paramédico rapidamente ajeitou o corpo, devolvendo a mão para dentro do lençol. Foi uma ação rápida, mas Julião viu.
'Não. Sr. Wyatt.' Sua voz mal era audível quando sentiu uma onda de pavor invadi-lo. Randal mal o ouviu e virou-se para encará-lo.
'Desculpe, o que foi isso?' Ele perguntou.
'Aquele é meu vizinho.' Julião apontou para o carrinho que agora havia sido enrolado na parte de trás da van. Ele rapidamente entrou na casa com Randal seguindo atrás.
'Cara, por que você está agindo estranho?' Randal perguntou enquanto fechava a porta atrás dele. 'Você está assim desde a anteontem. Há alguma coisa que eu precise saber?'
Julião suspirou enquanto caía na grande poltrona. Randal sentou na cadeira adjacente, de frente para ele.
'Eu não sei, Randal.' Julião finalmente respondeu. Ele olhou para seu melhor amigo diretamente nos olhos.
'Eu não sei mais. Coisas estranhas estão acontecendo nos últimos dois dias.' Ele continuou.
'Coisas estranhas?' Randal se inclinou, seu interesse aguçado. 'Tipo o quê?'
'Eu realmente não posso explicar. É quase como se Sam e meu vizinho tivessem morrido da mesma maneira. Acredito que Nancy deve ter contado o que aconteceu com Sam.' Julião disse.
'Sim, ela contou. É por isso que te liguei. Essa foi parte da razão pela qual eu apareci aqui, lembra?' Randal tinha uma pitada de sarcasmo na voz.
'Algo me diz que meu vizinho morreu assim. Ele deve ter explodido por dentro.' Julião disse.
'Isso parece loucura. Como você pode dizer?' Randal perguntou.
'Eu vi a mão dele. Estava queimada.'
'Queimada?'
'Sim.'
Randal franziu os lábios pensativo. Aquela coisa toda soava como um balde de bobagens.
'Eu não sou realmente especialista nesse tipo de coisa, mas acho que você deveria tentar encontrar uma maneira de relaxar sua mente e corpo. Tudo isso pode ser uma coincidência. Ainda não estou convencido da causa da morte de Sam, como está no momento. Há algo de peixeiro na história de Cheryl. Mas, por enquanto, você parece que não dorme bem há dias. Eu te ligo mais tarde.' Randal disse.
Ele se levantou e se moveu para a porta. Quando ele alcançou para abri-la, ele fez uma pausa quando de repente se lembrou de algo.
'Acho que você também deveria conversar com Nancy quando terminar de descansar.' Ele virou-se para encarar Julião.
'Por quê?' Uma carranca apareceu no rosto de Julião enquanto ele olhava para o amigo.
'Você sabe por quê.' Randal respondeu.
Sem mais nada dito, ele saiu e fechou a porta gentilmente.
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Nancy cantarolava de felicidade enquanto espanava a bancada em sua cozinha. O doce aroma de sua torta de maçã no forno pairava no ar. Era assim que ela aproveitava seus finais de semana. Cozinhar, limpar e finalmente relaxar com um romance. Seu romance era sua trégua do mundo da realidade, que continuamente a servia com todo tipo de decepção e depressão. No fundo, ela sabia que o que estava fazendo hoje era um ato. Ela precisava fingir que tudo estava bem. Ela queria acreditar que nada de ruim aconteceu nas últimas quarenta e oito horas. Tudo foi um sonho.
Uma batida na porta a trouxe de volta do seu momento de felicidade. Curiosamente, ela deixou a fralda cair e saiu da cozinha para sua sala de estar. Abrindo a porta, ela ergueu os olhos surpresa ao ver a última pessoa que ela esperava. Julião olhou para ela. Rapidamente recuperando sua compostura, ela cruzou os braços e lhe deu um olhar inquisitivo.
'E aí.' Ele disse.
'E aí.' Ela respondeu.
Os dois ficaram em silêncio depois disso. Cada um por razões diferentes. Nancy, se perguntando o motivo de sua visita repentina. Julião, surpreso por vê-la em um estado diferente de roupa pela primeira vez. Da primeira vez que a conheceu, Julião nunca a tinha visto dessa maneira. Ela usava uma camiseta escura com shorts brancos. Julião engoliu em seco enquanto olhava para as pernas longas e cremosas dela. Ela seguiu seus olhos e de repente se sentiu consciente de seu corpo. Era bom saber que ele não era tão denso quanto ela pensava. E por mais que ela estivesse um pouco feliz por ele finalmente ter notado o sexo oposto, ela ainda estava chateada com ele. Ela pigarreou e ele levantou os olhos para encontrar os dela. Foi então que ele notou outra coisa. Esta foi a primeira vez que ele a viu sem os óculos. Seus olhos azuis pareciam ainda mais brilhantes.
'Eu sei que minha vinda aqui é inesperada.' Ele disse, esfregando a nuca.
'Considerando a maneira como nos separamos da última vez, vou dizer que você não está errado.' Ela respondeu.
'Sobre isso. Me desculpa.' Ele murmurou enquanto desviava o olhar.
Nancy tinha certeza de que não ouviu direito. Ele acabou de pedir desculpas? O frio Julião acabou de pedir desculpas? Realmente, algo estava errado em algum lugar. Ela olhou para ele para decifrar se ele estava brincando. Ela não conseguia ver nenhum traço de humor em suas feições. Em vez disso, o que ela viu foi remorso e fadiga. Ele tinha a expressão de uma criança perdida. Também havia olheiras sob os olhos. Sua raiva deu lugar à pena quando sua expressão suavizou. Ela descruzou os braços e esfregou o antebraço timidamente.
'Tudo bem.' Ela disse. 'Você pode entrar.'
Ela se moveu para o lado. Julião entrou, passando por ela e ela fechou a porta.
'Estou fazendo torta de maçã. Você quer um pouco?' Ela disse enquanto caminhava em direção à cozinha.
Julião abriu a boca para responder, mas seu estômago o venceu com um ronco alto.
'Vou aceitar isso como um ‘sim’.' Ela riu de sua expressão ligeiramente envergonhada e entrou na cozinha.
Poucos minutos depois, ela estava fora com um prato da sobremesa. Havia dois garfos de cada lado.
'Desculpe, só fiz para um.' Ela disse, colocando o prato na mesa na frente dele.
'Tudo bem.' Ele respondeu.
Ela sentou-se ao lado dele e os dois se entregaram à sobremesa.
'Faz um tempo que você não vem aqui, Julião.' Ela disse depois de engolir uma mordida.
'Eu sei. Eu só queria falar sobre algo.' Ele fez uma pausa em sua refeição. Ele olhou para ela e fez menção de dizer outra coisa, mas fechou a boca.
'Julião.' Nancy olhou para ele preocupada. Ela colocou a mão suavemente em seu ombro.
'Julião, o que aconteceu?' Ela acrescentou em uma voz mais suave.
Depois de um momento, ele suspirou profundamente e olhou para o teto.
'É o Sr. Wyatt.' Ele disse.
'Seu vizinho?' Nancy ergueu as sobrancelhas. 'O que tem ele?'
'Ele está morto.'
'O quê?!' Nancy quase pulou em sua cadeira, seus olhos arregalados de choque. 'Como?!'
'Essa é a questão. Eu não sei como. Mas pelo que vi, tenho a sensação de que foi da mesma maneira que Sam morreu.' A voz de Julião estava rouca.
'Você quer dizer.' Nancy fez uma pausa.
'Sim.' Julião esclareceu. 'Ele explodiu por dentro.'
Nancy sentiu a bile subindo em sua garganta e quase teve vontade de vomitar.
'Eu não entendo. Não faz sentido.' Sua voz era quase um sussurro.
'Tem mais uma coisa que você precisa saber.' Julião virou-se para encará-la.
'Sim?' Ela ouviu atentamente.
Julião hesitou. Ele deveria revelar isso a ela?
'Julião.' Nancy tinha um olhar suplicante nos olhos. 'Você pode confiar em mim. Por favor.'
'Eu vi.' Julião disse. 'Eu vi a tatuagem no pulso do Sr. Wyatt ontem à noite.'
'Você quer dizer a mesma que você viu em Sam?' Nancy inclinou a cabeça para o lado.
'Sim. Eu sei que isso parece estranho e você pode achar que eu sou louco, mas você precisa acreditar em mim. Algo está errado em algum lugar. Não é apenas uma mera coincidência.' Ele respondeu.
Nancy olhou para ele curiosa. Ela sabia que ele nunca aceitava as coisas como garantidas. E agora, o tema da morte não era algo para brincar. Um pensamento ocorreu a ela.
'Como é a tatuagem?' Ela perguntou.
'Tem um formato de bulbo com números dentro. A de Sam tinha o número um. A do Sr. Wyatt tinha o número dois.' Julião respondeu.
'Eu acredito em você.' Ela disse.
'Acredita?'
'Claro que sim. Julião, eu te conheço há vinte anos. Você nunca brincou. Embora sua afirmação pareça bizarra, não é totalmente irrealista. Talvez você seja a única pessoa que pode ver essa tatuagem por uma razão.'
'Você acha?'
Ela assentiu.
'Eu posso não ser capaz de ajudá-lo profissionalmente nesta questão, mas eu sei quem pode.' Ela disse.
'E quem é?' Ele perguntou.
'Uma parapsicóloga.' Ela respondeu.