Capítulo 22
Julião encarou a casa na frente dele. A mesma casa onde ele cresceu. A mesma casa que guardava memórias. Algumas boas e a maioria ruins. Não tinha mudado muito. Tinha um monte de folhas acumuladas na varanda da frente. A janela no canto superior esquerdo tinha umas rachaduras minúsculas. A pintura tinha descascado e a porta de madeira tinha uns buracos.
Enquanto ele caminhava em direção à porta, esperava que pelo menos a campainha ainda estivesse funcionando. Quando ele apertou e ouviu um som de toque dentro da casa, ele suspirou de alívio.
Cinco minutos depois, a porta ainda não tinha sido atendida. Julião grunhiu de raiva e apertou a campainha de novo. O som de toque foi ouvido de novo dentro da casa.
"Aguenta aí, já vou." Uma voz rouca foi ouvida lá dentro.
Segundos depois, Julião ouviu o arrastar de pés e então a porta foi aberta por um homem com uma aparência rabugenta. Julião franziu a testa de volta. O homem era uns poucos centímetros mais baixo que ele. Ele tinha cabelo preto com as laterais mostrando cinza. Ele tinha pelos faciais escuros e seus olhos verdes opacos contrastavam com os de Julião, que eram afiados. Sua regata revelava braços musculosos e peludos e abraçava sua barriga mal grande.
Ao ver Julião, uma expressão de surpresa apareceu no rosto do homem.
"Julião?" Ele falou.
"Olá, pai." Julião murmurou.
Sem mais nenhuma palavra, ele entrou na casa passando pelo pai que ainda estava surpreso. Julião ergueu as sobrancelhas ao ver o estado da sala de estar. Estava em desordem. Havia garrafas jogadas por aí. Um monte de papéis estavam espalhados pela sala de estar. Seu pai fechou a porta e o encarou.
"O que você está fazendo aqui?" Ele perguntou.
Julião olhou para ele com uma expressão endurecida. Ver seu pai de novo não era o que ele poderia considerar como os melhores momentos da sua vida.
"Eu vim pela espada", ele respondeu. "Ainda está no porão?"
Sérgio Fernandez olhou para o filho em total descrença.
"Você está louco?!" Ele rugiu. "Depois de dez anos sem contato, é isso que você pergunta? Como ousa?"
Julião zombou. Isso confirmou a resposta. A espada ainda estava no porão. Ele balançou a cabeça e começou a se afastar.
"Não tenho tempo para isso." Ele murmurou para si mesmo.
"Não ouse se afastar de mim, rapaz!" Seu pai berrou atrás dele.
"Eu vou pegar a espada." Julião respondeu sem se virar.
"Não ouse me desobedecer", Sérgio avisou. "Eu te proibi-"
"Você me proibiu de um monte de coisas!" Julião rugiu, virando-se.
Sérgio ficou surpreso com a fúria no rosto do filho. Por um momento, o jovem que estava na frente dele era um completo estranho.
"Você me proibiu de ter uma vida", Julião rosnou.
Ele caminhou lentamente em direção ao pai. Sérgio deu alguns passos para trás. Julião parou a poucos centímetros dele.
"Você me transformou num pária social. Você me proibiu de me divertir", Julião continuou. "Você me proibiu de ser feliz. Você me proibiu de ter alguém que eu pudesse chamar de pai de verdade!"
Sérgio ficou sombrio enquanto as palavras do filho o atingiam profundamente. Elas o feriram severamente. Ele encarou o chão, evitando os olhos do filho.
"E tudo porque você me culpou por causar a morte da minha mãe", Julião disse. "Uma mãe que eu nem cheguei a conhecer. Você sempre forçou isso na minha memória. Afirmando que meu nascimento foi a causa da morte dela. Então, o que acontece depois? Você me leva ao túmulo dela todo ano no aniversário da morte dela e me coloca numa viagem de culpa. Você me fez encarar a lápide dela à força. Por causa disso, eu tive pesadelos. Pesadelos que me assombraram por quinze anos. E agora eu perdi as duas únicas pessoas que alguma vez se importaram comigo. Uma está morta e a outra está em perigo. Eu poderia listar os outros danos que você causou na minha vida. Eu poderia ficar aqui o dia todo e discutir com você. Mas chega. Nunca mais. Eu não sou mais aquele Julião. Há coisas mais importantes em jogo."
Sérgio abriu a boca para responder, mas nenhuma palavra saiu.
"Claro", Julião respondeu. "O que eu estava esperando?"
Julião bufou de nojo e saiu da sala de estar, descendo para o porão. A grande caixa de madeira estava no canto. Julião se maravilhou com a visão dela. Tinha ficado assim quando ele saiu de casa anos atrás. E agora, ele ainda a encontrava no mesmo lugar. Tinha acumulado muita poeira ao longo dos anos. Julião a abriu. A espada estava lá dentro. Tirando-a da caixa, ele a examinou. Além de alguns pontos de poeira, parecia nova.
A chegar à sala de estar, Julião encontrou o pai sentado com uma expressão sombria no rosto. Sérgio virou-se para ele e seus olhos se encontraram. Um refletindo arrependimento e o outro refletindo raiva. Sérgio abriu a boca para falar de novo, mas nenhuma palavra ainda conseguiu sair. Julião balançou a cabeça.
"Adeus, pai." Ele murmurou enquanto saía apressadamente da casa.
Fora da casa, Julião agarrou a espada com força pela empunhadura e uma expressão muito zangada apareceu em seu rosto. Esta era a hora da batalha. Uma luta até a morte.
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