CAPÍTULO VINTE E TRÊS
Eu fui de carro pra escola com um humor meio down, tava bem diferente do que eu tava sentindo antes de ganhar o presente dos meus pais, foi mó fofo eles terem preparado meu presente mesmo que não fossem estar aqui pro meu aniversário de dezoito.
Eu nunca ia tirar o relicário do meu pescoço, eu via ele como um pedaço deles que nunca ia embora e mostrava que eles iam sempre estar aqui por mim, acontecesse o que acontecesse.
Meus olhos encheram de água quando eu pensei neles de novo, eu rapidamente mudei meus pensamentos pra um feliz, pensei no meu sonho e isso trouxe um sorriso na hora pro meu rosto.
O sorriso no meu rosto ficou lá até eu chegar na escola, ia ser estranho se eu entrasse com um sorriso estranho na cara, ia assustar as pessoas e elas iam se preocupar comigo.
Eu encontrei a Camilla perto dos armários que na hora percebeu que tinha algo errado,
"Por que você tá com essa cara de sorriso estranho?" ela me perguntou
"Eu tive um sonho mó bom" eu falei, sem conseguir esconder o sorriso mais.
"Tô achando que por esse sorriso crescendo na sua cara, foi bom?" ela perguntou
"Sim, claro. Por que mais eu estaria sorrindo?" eu questionei ela
Ela revirou os olhos pra mim "Ah, para, vamo pra aula"
Nós não tínhamos nenhuma aula juntas, mas tínhamos a cantina juntas.
Eu chequei os nossos horários de novo e parece que nós não tínhamos o mesmo horário de cantina hoje, parece que eu ia ficar sozinha no almoço hoje.
"Não se preocupa, a gente vai sair depois da escola" ela falou bagunçando meu cabelo
Eu dei um tapa na mão dela murmurando baixo, como essa escola era injusta.
Eu cheguei na minha aula e sentei pra ter a aula. Eu assisti a próxima e a próxima depois dessa.
O resto das aulas foi muito bom, algumas eram chatas e improdutivas, mas artes era a única matéria que eu realmente tava esperando e eu não via a hora de chegar lá.
Eu tava na aula de cálculo avançado quando de repente eu consegui sentir um cheiro maravilhoso que eu não consigo descrever, mas fosse o que fosse, cheirava tão maravilhoso e tentador. Minha Ambrosia tava lutando pra sair e tomar o controle.
Eu levantei sem me importar de me desculpar, eu segui meu nariz pra identificar de onde tava vindo o cheiro. Eu não consegui me controlar.
Eu andei pela escola antes de encontrar a fonte do cheiro, minhas pernas pararam de repente quando eu descobri quem tinha o cheiro delicioso.
Ele tava de pé com o Ben embaixo da árvore com uns caras que eu presumia que eram os marombados. Eles tavam todos conversando e rindo. Ele tava lá, nem contribuindo nem falando. Só lá parado ouvindo eles zuarem.
O Ben foi o primeiro a me ver e cumprimentar
"Oh, oi Avilla, o que você tá fazendo aqui fora?" ele falou do outro lado da sala.
Todo mundo parou de falar e só ficou me olhando, mas eu tava ocupada olhando pro Rohan que ainda não tinha me olhado.
"Vai pra sua alma gêmea, vai pra sua alma gêmea" minha Ambrosia latiu na minha cabeça.
Os olhos lindos dele arregalaram quando ele olhou pra cima pra mim, os olhos dele suavizaram enquanto eles percorriam meu rosto. Eu consegui ver a luxúria e a fome nos olhos dele enquanto eles subiam e desciam pelo meu corpo. Mas aí ele olhou pro lado tão rápido que minha Ambrosia choramingou, a respiração dele irregular.
Minha Ambrosia uivou de alegria e me forçou a pular nele e firmar meu lugar.
Ele andou na minha direção e eu tive o pensamento que ele ia me segurar e me beijar até perder o juízo.
"Me siga" ele diz com a voz grave e saiu do lugar que seus amigos tavam.
Eu segui ele pela grama pra outra árvore onde a gente podia ter nossa conversa sem os olhares curiosos.
Ele me encarou por um tempão como se ele estivesse tentando descobrir algo sobre mim.
"O que você é?" ele finalmente perguntou.
Os olhos lindos dele nem estavam me olhando mais, mas eu não conseguia tirar os olhos do rosto dele. O sol batendo no cabelo dele, a sombra caindo pelos lados da mandíbula dele.
"O que você quer dizer?" eu finalmente respondi.
Ele fez um barulho com a boca, parecendo desapontado com a minha resposta,
"Eu tô tentando descobrir o que você é, mas eu não consigo" ele declarou
"Eu não entendi, era pra eu ser outra coisa?" eu perguntei pra ele, eu sabia o que ele tava querendo dizer, mas eu não queria que ele soubesse que eu era uma deles.
Ele soltou a respiração e passou a mão no cabelo, eu tive a sensação que o que quer que fosse acontecer, não ia ser bom.
Minha Ambrosia tava começando a ficar agitada, ela tava bufando e respirando fundo na minha cabeça, sem conseguir ficar parada.
"Eu sei que você não vai entender o que eu vou falar, mas só aceite do jeito que for" ele falou parecendo triste.
"O quê?" eu perguntei
"Qual é o seu nome?" ele me perguntou
Essa conversa tava começando a me confundir, que porra ele tá falando agora?
"Hum… Avilla Stevenson" eu informei pra ele
"Escuta, isso é mais difícil pra mim do que ia ser pra você, mas a gente não pode ficar junto por motivos maiores que a gente. Você entende?" ele me perguntou
Ah, não! De repente eu soube o que ele ia dizer. Meu coração começou a acelerar, minhas respirações saindo curtas e rasas. Eu não percebi o que tava acontecendo comigo até que caiu a ficha que meu coração tava quebrando.
Tava claro que ele não queria ficar com uma humana e eu não ia corrigir ele se fosse assim que ele se importava com essas coisas, então ele não era digno de ser meu parceiro.
"Eu não consigo ficar com alguém como você, Avilla Stevenson" ele falou
Eu senti vontade de chorar, minha Ambrosia chorou e uivou de dor. Por que ele tá machucando a gente?
"Ei cara, o que tá rolando?" Falou o Ben que deu um tapa nas costas do Rohan
"Nada pra se preocupar" ele responde
O Ben olha pra mim com pena, eu acho que ele ouviu com a boa audição dele. Eu sorri pra ele, mostrando que tava tudo bem, mas por dentro eu tava com vontade de chorar, mas eu não podia deixar eles verem nenhum sinal de fraqueza.
Eu balancei a cabeça pra eles dois e saí de lá antes de começar a chorar igual um bebê.
Enquanto eu saí de lá, eu ouvi o Ben falando pro Rohan
"Rejeitar ela não foi uma boa ideia, cara" ele falou pro amigo dele
Rohan suspirou "Eu sei cara, mas você sabe que eles nunca iam deixar a gente ficar junto. É proibido um lobisomem namorar uma humana"
Ah, então essa era a razão, não foi culpa dele, mas isso não significava que a rejeição era menos dolorosa pra mim. Estranhamente eu tava bem e de jeito nenhum como a Camilla tinha descrito. Minha Ambrosia tava em silêncio, com certeza. Mas não tava tão doloroso como eu pensei que ia ser.
Eu falei cedo demais, eu cheguei no banheiro quando eu caí no chão agarrada no meu peito, e doeu muito. Parecia que ele enfiou uma faca no meu peito e girou ela. Aí ele continuou empurrando pra cima e pra baixo até não sobrar mais nada do meu coração, só uma feiura sangrenta e torcida no meu peito.
A Ambrosia se encolheu de dor, aí ficou em silêncio
Eu não sei como eu cheguei em casa ou como eu tava deitada na minha cama, a última coisa que eu lembro foi de desabar no chão do banheiro das meninas.
Eu tô deitada na minha cama agora, tudo tava borrado, e eu não conseguia lembrar de nada.
Eu fiquei sabendo da presença da minha tia no meu quarto. Ela tava parada na posição que eu descobri que ela era uma loba.
"Fala comigo, querida. Me conta o que aconteceu?" fala a Tia Beatriz gentilmente tirando meu cabelo da minha testa.
"Ele me rejeitou, Tia Beatriz. Meu parceiro me rejeitou." meus olhos tavam lacrimejando de novo. Eu ainda acho difícil de acreditar que isso tava acontecendo comigo, eu tava desejando que tudo fosse um pesadelo terrível. Não muito tempo no mundo sobrenatural e eu tava me arrependendo.
Um monte de emoções diferentes passaram pelo rosto da minha tia. Descrença, raiva, dor e tristeza por mim.
A dor toda voltou com força total, tava torcendo meu coração. Minha tia envolveu as mãos dela em mim. Mesmo no calor suave do abraço dela, eu ainda não me sentia melhor, nem isso expulsou a dor.
"Faz parar, por favor. Meu coração dói tanto. Por favor, faz parar" eu solucei agarrada no meu peito. Dói tanto.
"Vai ficar tudo bem, sua coitada" minha tia chorou comigo, lágrimas escorrendo pelo rosto dela enquanto ela me abraçava forte, querendo que minha dor fosse embora.
Depois do que pareceu horas, eu me acalmei ou talvez eu estivesse muito exausta pra até derramar mais uma lágrima. Meu peito tava subindo e descendo, o sono não veio fácil no meio da noite. Ficar sozinha no escuro bem no meio da noite fez algumas lágrimas vazarem de novo, caindo pelo meu rosto em silêncio. Minha Ambrosia, tava completamente em silêncio, mas eu conseguia sentir a dor dela, tanto quanto a minha.
Eu posso não ter sido uma loba por muito tempo, mas desde que eu soube que a gente pode ter aquela única pessoa que significaria muito pra gente, me deu esperança sabendo que eu ia conseguir superar o que a vida tem reservado pra mim. Minha mãe falou sobre isso em algumas histórias pra dormir, mas eu sempre achei que eram fantasias e ela só tava inventando pra me deixar feliz.
E agora?
Será que minha Ambrosia vai ser feliz de novo?
É assim que é? Eu me senti como uma casca vazia.
Eu ia sobreviver sem um parceiro?
Eu li muito sobre o sobrenatural e descobri que,
Todos os lobisomens só tem uma chance de ter um parceiro, as chances de ter um segundo parceiro acontecendo era uma vez a cada século. E a maioria dos lobos ia acabar morrendo ou enlouquecendo depois que eles perdem seus parceiros. Os lobos deles desaparecem quando a dor fica insuportável. Agora eu entendi como era doloroso e eu nem tive a chance de conhecer ele.
Eu vou morrer ou enlouquecer também? Eu espero que a Ambrosia seja forte o suficiente pra aguentar isso.
O que eu fiz pra merecer isso?
Depois daquele dia, eu nunca mais chorei alto de novo. Eu sempre chorei quando eu tava tomando banho. Eu me certificava de abafar os sons com a minha mão, eu não queria preocupar minha tia mais do que eu já preocupava. Eu recusei atender as ligações da Camilla. E eu nunca mais fui pra escola também. Não era justo com ela, mas eu só não queria falar com ninguém, especialmente ela, vendo que o irmão dela partiu meu coração.
Eu não queria que ela escolhesse lados, porque eu tava com medo do resultado, ela podia acabar escolhendo o irmão dela porque eu era a garota nova na vida dela e eu era descartável. Ela era a melhor pessoa pra me animar agora, mas eu só não podia dizer pra ela.
Eu tava só pensando nela quando a minha porta foi aberta com tudo e lá estava ela, toda a 1,67m de raiva.
Eu esperava que ela gritasse comigo por eu ter sumido, mas ela veio pra minha cama pra deitar comigo em vez disso, ela pegou minhas mãos nas dela e afagou minha cabeça de uma maneira gentil.
"O Rohan me contou o que aconteceu e não se preocupe que eu chutei a bunda dele" ela falou, me deixando chocada com a minha mandíbula caída.