CAPÍTULO VINTE E NOVE
Eu fui pra casa me sentindo muito realizada, tava claro que a minha loba era forte e isso me deixava forte também.
A gente cumpriu a missão sem nenhum perrengue e isso dizia muito sobre o quanto ela tava machucada, se tava disposta a fazer aquilo contra tudo e todos.
Eu também tava feliz por não ser fraca e isso deixou ele irritado. Era óbvio que ele se importava, só não sabia porque tava lutando contra isso. Eu queria dizer pra ele que eu era uma lobisomem, mas as atitudes dele provaram que eu não podia confiar nele o suficiente pra contar meu segredo.
Isso faria ele voltar atrás na rejeição, mas não ia tirar o fato de que ele me machucou porque não tava disposto a lutar por nós. Posso não saber muita coisa sobre isso agora, mas eu sei que ele jogou fora o lance do 'mate' como se não fosse nada pra ele. Sem se importar com meus sentimentos ou com ninguém que ele tava machucando.
Ele não podia ficar comigo por causa da lei, e eu entendo isso, mas ele nem sequer se deu o trabalho de me conhecer o suficiente pra saber que eu não era humana como eu comecei sendo. Eu já falei pra Camilla não dizer nada pra ele e ela concordou.
Voltei pra casa depois da escola, me deliciando com a minha vitória.
Avilla 1 - Rohan 0
Chequei meu placar mental, estacionei meu carro só pra ver outro carro do lado do da minha tia, estacionado na frente da casa.
Destravei a porta com a minha chave.
"Avilla, vem aqui um segundinho, querida." Minha tia chamou lá da sala.
Fui pra sala só pra encontrar o Sr. e a Sra. Knight sentados, tomando chá com minha tia.
"Oi, Sr. e Sra. Knight" Eu cumprimentei eles.
"Ah, oi, Avilla, que bom te ver de novo" Penélope respondeu. O Sr. Knight só sorriu pra mim.
"Me chamou?" Direcionei a pergunta pra minha tia.
"Ah, sim!" Ela bateu palmas.
"O que foi?" Eu perguntei, curiosa pra saber porque eles estavam na minha casa.
"Eles queriam te ver, tinham uma preocupação sobre algo," minha tia disse.
Franzi a testa e me virei pra eles, curiosa pra descobrir o que queriam.
"Em que posso ajudar?" Eu perguntei pra ambos.
"Nada demais, sabe, meu filho veio pra casa uns dias atrás pra ler sobre nossa história sobre mates humanos, achamos estranho na época, mas só teve uma humana que acabou de fazer dezoito anos e é nova. Rastreamos até você. Você é a 'mate' do meu filho?" Penélope me perguntou.
Abri a boca e fechei de novo, não sabia o que dizer pra eles. Eu sempre podia jogar o Rohan embaixo do ônibus e deixar os pais dele lidarem com ele, ou podia mentir pra sair dessa.
Olhei pras caras deles, cheias de esperança, e eu simplesmente não conseguia mentir pra eles.
"Sim, eu sou a 'mate' dele," eu falei pra eles.
Penélope pulou de alegria e bateu palmas, até fez uma dancinha feliz até que o marido segurou ela.
"Que ótima notícia!!! Oh, eu tô tão feliz!" Ela continuou, era óbvio que ela não se importava que eu fosse humana, então por que ele se importaria? O rosto dela tava cheio de tanta alegria que minha loba se deliciou com isso. Ela tava feliz por ter aprovado a gente.
"Sra. Knight, seu filho me rejeitou porque eu sou humana," eu falei pra ela.
"Ele fez o quê?!!" O Sr. Knight rugiu. Senti o chão tremer um pouco. Essa foi a coisa mais longa que ele disse desde que eu o conheci. O sorriso no rosto dele já tinha sumido, e no lugar tava uma carranca tão grande que cobria a boca dele.
Penélope pegou as mãos do marido nas dela pra acalmá-lo, o peito dele tava subindo e descendo. Ele tava muito bravo e eu ia odiar ser o Rohan agora.
Encolhi de medo da dominância que a loba dele tava emitindo.
"O que ele tava pensando em fazer uma coisa dessas?" Ele questionou.
"Querido, é contra a lei," a esposa dele lembrou.
"Então ele devia ter vindo até nós em vez de rejeitá-la," ele disse com raiva.
Olhei pra minha tia, que olhou pra mim antes de balançar a cabeça. Claramente ela tava brava comigo por não ter contado pra ela que o filho da melhor amiga dela me rejeitou na lata. Eu não queria colocar um ponto final na amizade delas e foi por isso que não contei pra Camilla em primeiro lugar.
"Peço desculpas em nome dele," Penélope me disse.
Eu balancei a cabeça pra ela, não precisava pedir desculpas, e não é culpa deles que o filho deles é um babaca.
Era claro que eles iam ter uma conversa séria com ele quando botassem as mãos nele.
"Posso subir agora?" Eu perguntei pra eles.
"Sim, obrigada por nos contar," Penélope disse, me dando um abraço.
O pai ainda não disse nada, só ficou me encarando com raiva, mas eu sabia que não era direcionado a mim em primeiro lugar.
Eles foram embora um tempo depois, porque eu ouvi o barulho da porta do carro deles, minha tia bateu na minha porta pra ver como eu tava.
"Ei, desculpa não ter te contado. Só não queria estragar a amizade de vocês," eu falei pra ela.
"Querida, somos adultas. Não tem como estragar nossa amizade, mas eu não quero que você guarde coisas como essa pra você porque tá tentando proteger meus interesses. Eu que deveria fazer isso," ela me disse firmemente.
Eu balancei a cabeça pra ela e ela me deu um abraço antes de voltar pro quarto dela.
Foi um tempo depois que eu recebi uma ligação da Camilla e ela tava surtando que eu não tava ouvindo nada do que ela tava dizendo.
"Camilla, mais devagar. Não consigo ouvir nada," eu falei pra ela.
Ela tava falando muito rápido e eu conseguia ouvir gritos de onde ela tava.
"Eu disse, sua vagabunda traiçoeira, você contou pros meus pais sobre você e o Rohan!" ela disse.
Eu não sabia a entonação que eu tava sentindo dela, não sabia se ela tava brava ou feliz, então decidi me fingir de burra.
"O quê?" Eu perguntei.
"Ah, fala sério! Não finja que não sabe. Meu pai tá aqui dando uma surra no Rohan enquanto eu tô esperando minha vez pra levar uma bronca," ela disse numa lufada. Eu tava prestes a dizer alguma coisa quando ela me cortou.
"Então, eu tava em casa assistindo um filme, o Rohan tava no quarto dele fazendo Deus sabe o quê. Ouvi o carro dos meus pais na garagem. A porta bateu com força e ouvi minha mãe pedindo pro meu pai se acalmar. Achei que ele tava com fome porque meu pai sempre ficava assim quando tava com fome.
Mas ouvi a porta do quarto do Rohan bater com força, meu pai chutou a porta e antes que o Rohan pudesse dizer 'já vai', meu pai pegou ele pelo pescoço e jogou ele pra fora do quarto. Por mais confuso que estivesse, o Rohan sabia que não devia desafiar meu pai porque ia acabar com a mandíbula quebrada e outras partes do corpo. Quando eu saí, meu pai tinha espancado o Rohan até virar um bagaço, minha mãe teve que puxá-lo de um Rohan já mole," Camilla narrou.
Então ela não tava brava, tava só animada pra me contar a história. Eu balancei a cabeça pra ela, mesmo que ela não pudesse me ver pelo telefone.
"Bem, eu não queria ter contado pros seus pais," eu falei pra ela.
"Ah, você não precisa pedir desculpas, ele merece totalmente. Ele sabia o quão bravo meu pai podia ficar," ela disse.
"É, acho que sim," eu falei, indecisa.
"Você pelo menos contou pro meu pai que você conseguiu sua loba?" ela me perguntou.
"Essa parte nunca surgiu," eu respondi pra ela.
Ela só riu e riu, disse que achou isso pelo jeito que o pai tava com fumaça saindo pelas orelhas.
Eu fiquei aliviada por ela não estar brava comigo pelo que eu fiz, mas ouvir que o Rohan se machucou muito me deixou triste, eu queria cuidar dele pra ele se recuperar, mas eu sabia que ele não ia apreciar isso agora.
"Ele tá bem?" Eu perguntei pra ela.
"Ele vai ficar bem, vai sarar rápido," ela disse, com desdém.
Decidi zoar um pouco com ela, ela tava indiferente a tudo isso porque não tava no lado que tava apanhando, se ela soubesse que a vez dela era logo depois do Rohan, o humor dela ia mudar com certeza.
"Não seja tão relaxada, eu contei pra seus pais sobre o Mitchell," eu falei casualmente.
"VOCÊ FEZ O QUÊ?!" ela gritou.
Eu caí na risada imediatamente, ela percebeu que eu tava brincando e me xingou.
"Ah, acha que é tão engraçada, hein? Vou te dar o troco de alguma forma," ela disse.
Continuei rindo até entrar numa crise de tosse, ela disse que ia me ligar de volta e desligou.
A reação dela foi tão engraçada, tava claro que ela tava com muito medo dos pais dela e, se fosse ela, eu estaria. Testemunhar o Sr. Knight em todos os tons de raiva tocou um lado meu que eu não sabia que tinha. Medo. Eu tava com tanto medo dele naquele momento.
Senti pena do Rohan no momento, ele merecia a surra que tava levando, mas eu não queria ser a razão pela qual o relacionamento dele com os pais dele ficou tenso. Eu odiava ser a razão pela qual coisas ruins aconteciam, sempre me sentiria culpada vendo aquela pessoa infeliz na hora.
Eu ligaria pra ele, mas não tenho o número dele e duvido que ele ia apreciar minha ligação agora, considerando que eu sou a razão pela qual ele está nesse estado em primeiro lugar. Eu me senti péssima e duvido que ele queira falar comigo depois desse drama todo.
Não contar pro Sr. Knight que eu consegui minha loba nunca passou pela minha cabeça, não é como se eu quisesse que ele punisse o filho dele, mas uma parte doentia de mim ficou feliz por ele ter apanhado muito. Essa parte doentia é minha loba.
"Claro, culpe o animal," minha loba disse, balançando o rabo com raiva.
Eu ri um pouco na minha cabeça da atitude dela, a parte que tava um pouco feliz era eu. Eu fiquei feliz por ele ter sentido dor, mesmo que eu não tenha sido a pessoa a infligi-la nele, mas tanto faz.
Me despi e vesti minha roupa de pintura pra poder entrar no meu ateliê, tinha algo em mente que eu queria pintar. Entrei e admirei algumas das pinturas que fiz até agora. Assim que secam, eu penduro na parede só por diversão.
Peguei um cavalete vazio e montei, dessa vez eu ia pintar com óleo.
Fechei os olhos e imaginei o que eu queria pintar, a imagem tão vívida na minha mente. Memorizei as linhas e formas disso e comecei.
Comecei com traços leves pra destacar as linhas externas, depois comecei a pintar a imagem real que eu queria criar. Meus dedos se moviam delicadamente sobre o cavalete porque eu não queria cometer nenhum erro ou ter nenhuma mancha.
Meus dedos estavam começando a cãibras, mas eu não me importava porque precisava acertar a pintura, terminei o esboço e ficou perfeito, usei o óleo pra preencher e trazer os detalhes do que eu queria.
Foquei mais nos olhos porque eles contavam muitas histórias, peguei a estrutura da primeira memória dele, sendo o primeiro dia que o vi na cafeteria.