Nobres ignorantes
Respirei fundo olhando para o céu, tava cega por causa da luz do sol. Parece que meu corpo tá pronto pra esperar os três acordarem.
Olhei pra janela do quarto onde eles dormiram ontem à noite, ainda tavam dormindo. Tô tão cansada, quanto tempo as pessoas dormem? Sou muito grata porque criaturas como eu não precisam dormir tanto, eles perdem tempo deitados na cama por um tempão.
"Esses três tão planejando acordar?" perguntei pra mim mesma. Espiei pela janela de novo e vi o movimento do Bael que caiu na cama, tava exausta.
Preciso descer e achar alguma coisa pra comer pros três. Quando desci da árvore olhei em volta pra ver se alguém tinha me visto, fui muito grata que não tinha ninguém nesse lugar. Caminhei pro mercado que tava perto.
Vi o jeito que as pessoas me olhavam, é por causa do chifrinho na minha cabeça.
"Quanto custa isso?" perguntei, a mulher se assustou com a minha aparição repentina, ela logo se endireitou e me olhou.
"Dois de ouro e uma de prata," ela falou, olhei pros outros produtos dela. Vou deixar eles cozinharem a comida deles.
"Vou comprar," falei e depois olhei pra mulher com cuidado, essa não é a hora certa de tirar a vida dela de volta. Respirei fundo e peguei as três moedas de ouro do palácio. Dei pra ela e depois me virei pra pegar a mercadoria.
"Só um momento, Moça, vou pegar seu troco." Só ignorei ela. Continuei andando de volta pra casinha. Quando entrei, vi a mulher encarregada daquela casa.
"Bom dia, Moça, parece que acabou de chegar," ela falou com um sorriso. Só fiquei encarando ela e depois levantei minha mão.
"Por favor, acorde meus amigos," falei e ela fez uma careta. "Eu vi que você tem uma cozinha aqui, só vamos pedir emprestado e depois vamos embora," falei e depois coloquei seis moedas de ouro na frente dela, os olhos dela arregalaram e ela logo me olhou.
"É demais--"
"Só faça minhas ordens," falei e fui em direção à cozinha que tava do outro lado.
Coloquei a carne que eu trouxe e depois sentei numa cadeira e esperei eles chegarem. Uns minutos depois, primeiro vi o Cynrad com a cabeça baixa enquanto caminhava em minha direção. Depois foi o Bael que coçou as costas e o Pavel que ainda tava com os olhos fechados enquanto segurava o Bael.
"E aí?" perguntou o Cynrad, o Pavel abriu o olho esquerdo pra nossa visão ficar certa, ele logo se endireitou e sorriu pra mim.
"Bom dia, Ksara, como foi seu sono?" ele perguntou, fiz uma careta.
"Não dormi," falei e o Bael e o Cynrad me olharam.
"Cê é burra?" o Bael perguntou e sentou numa cadeira.
"Minha cabeça dói." o Cynrad gemeu, o Pavel veio até mim então olhei pra ele, ele sorriu e de repente me abraçou me fazendo arregalar os olhos e as imagens aparecerem na minha visão de novo.
"Bom dia." Ele cumprimentou animado e depois soltou o abraço. Meu corpo ficou rígido por causa do que ele fez. Idiota!
"Qual minion do Satã te disse que pode me abraçar?" falei brava fazendo os olhos dele arregalarem e ele se afastar de mim.
"D-desculpa, foi assim que a mulher que nos acordou mais cedo nos cumprimentou. Ela nos abraçou porque é isso que os cidadãos daqui fazem." Ele explicou então levantei e devagar fui chegando perto dele, ele foi pra trás me fazendo encostar na parede e engoliu em seco quando eu o tranquei com meus braços.
"Da próxima vez que você me abraçar, o abraço da morte te mandará pro inferno," falei sombriamente pra poder ver o medo nos olhos dele.
"K-Ksara--"
"Que carne é essa?" Fechei meus olhos quando lembrei que tínhamos amigos aqui. Me afastei do Pavel e depois olhei pra nossa companhia que tava olhando pra gente.
"Vocês vão cozinhar," falei fazendo os olhos deles arregalarem e fazerem barulho.
"O quê?! Cê tá de sacanagem? A gente é de--"
"Regra número 2, vocês vão seguir minhas ordens, e regra número 3, vocês vão deixar de lado a realeza." Cortei o que o Bael ia falar, fazendo ele me olhar feio.
"Mais uma coisa, eu fiquei de olho em vocês a noite toda, e na manhã seguinte eu comprei carne pra vocês, vocês não me devem um favor?" perguntei.
"Naturalmente você vai fazer essas coisas porque você é a Yuniko," o Cynrad respondeu.
"No que me diz respeito, só vou servir o Pavel, não tem problema se eu cozinhar a comida dele, desde que ele seja o único a comer. Ele é o único a comer a carne na sua frente." Falei e ele me olhou feio.
"Você ficou de olho na gente a noite toda?" perguntou o Pavel que tava do meu lado. Não me virei pra ele.
"Então você precisa descansar porque agora o primeiro dia a gente vai começar a viajar, certo?" ele perguntou e depois foi em direção à carne que eu trouxe.
"A questão é que a gente não sabe cozinhar, a gente tá acostumado a ser servido com as comidas prontas," ele adicionou e me olhou, suspirei e sentei onde eu tava sentada antes.
"Não é meu problema se vocês não sabem cozinhar, eu fiz o meu trabalho, não é meu trabalho cozinhar a comida de vocês porque os criados da cozinha fazem, eu sou só a serva do príncipe," falei e depois fechei meus olhos.
"Vou descansar," falei fechando os olhos, mesmo que a verdade seja que eu não vou descansar.
"Pode ir pro quarto pra poder descansar bem?" ouvi o Pavel perguntar mas ignorei ele.
"Não se preocupe com isso, Yuniko, o que a gente tem que se preocupar é como cozinhar." ouvi o Cynrad falar.
"Aquela garota de antes." Quanto ao Bael, apertei meu punho.
"Certo! Vamos até ela e deixar ela ensinar a gente a cozinhar." Ouvi o Pavel falar.
"Vou só chamar ela," o Bael falou e ouvi os passos dele saindo da cozinha.
Burros, como se aquela mulher fosse ajudar eles.
Eles têm que ralar e vivenciar o que as pessoas normais vivenciam.
Uns minutos se passaram quando ouvi a voz do Bael.
"Ela diz que não sabe cozinhar." Sorri por dentro.
"Hã? Impossível?" o Cynrad perguntou.
"Ela falou que não sabe nada quando se trata de cozinhar, outra coisa é que ela tem um emprego." Ouvi o Bael falar com uma voz fraca.
"Então o que a gente vai fazer?" perguntou o Cynrad, queria ver as reações deles por isso mantive os olhos do meu corpo humano fechados enquanto minha alma saía daquele corpo.
Ri quando vi a reação nos rostos dos três, eles eram como crianças que não podiam fazer nada além de olhar pra carne.
"E se a gente só fritar?" o Pavel perguntou e os dois olharam pra ele.
"Cê sabe como?" perguntou o Bael.
"Não, mas às vezes ouço do pessoal da cozinha que só precisa de óleo pra cozinhar a carne," o Pavel falou então o Cynrad levantou e foi em direção aos temperos e levantou uma garrafa só com óleo.
"Ah, aqui tem óleo, e depois o que faz?" o Cynrad perguntou e entregou o óleo pro Pavel.
"Hum, frigideira?" respondeu o Pavel, que o Bael logo entregou pra ele. Os dois ficaram olhando pro Pavel enquanto ele colocava óleo na frigideira e colocava a carne na frigideira.
"E depois?" perguntou o Bael.
"Era pra estar tocando, porque não tá tocando." Ri quando vi a cara de preocupado e surpreso do Pavel. Burro, como que vai cozinhar sem fogo?
"Talvez toque mais tarde?" o Cynrad perguntou.
"Beleza, vamos esperar tocar," o Pavel falou e cobriu a frigideira só com óleo de porco, ri enquanto olhava pros três. Idiotas.
Voltei pro meu corpo humano mas continuei com os olhos fechados.
"A Ksara não tá com dificuldade na posição dela?" ouvi o Pavel perguntar.
"Deixa isso pra lá, o problema que vamos ter é como fazer tocar pra fritar," o Bael falou. Respirei fundo pra parar de rir.
Uns minutos depois eles já estavam brigando.
"Eu achei que só precisava de óleo pra cozinhar?" o Bael.
"Porque ainda não tocou?" o Pavel.
"Tô faminto, será que vai demorar mais uma hora?" o Cynrad.
"Idiotas," falei e abri meus olhos, vi que todos estavam olhando pra mim. "Como que vai cozinhar sem fogo? Idiotas." Adicionei que eles se olharam e olharam pra chapa na frente deles.
"A propósito, precisa de fogo pra ficar quente," o Pavel falou sem jeito enquanto coçava as costas, vi a irritação do Bael e do Cynrad enquanto o Pavel só sorria e começou a abrir o fogão e colocar a frigideira com óleo e carne dentro.
Idiotas.
"Você tava acordada mais cedo e só deixou a gente brigar aqui e se esforçar aqui?" perguntou o Pavel quando abriu o fogão.
"Eu pareço com sono?" perguntei.
"É verdade! Porque você só falou que precisa de fogo pra cozinhar?" o Bael falou irritado. Olhei pra ele.
"Cê perdeu o juízo? Cê acha que só óleo pode cozinhar carne? Toda comida que é cozida precisa de fogo, onde cê deixou o cérebro?" perguntei e eles ficaram em silêncio. Levantei e me afastei da cozinha.
"Ei, pra onde você vai?" perguntou o Pavel.
"Vou comprar minha comida," respondi e não olhei pra eles. Nobres ignorantes.