Lidando com o demônio
Meu corpo dói,” Bael reclamou enquanto a gente tava andando. Eu tava indo de boa, enquanto os três atrás de mim reclamavam porque seus corpos começaram a doer de repente.
“Droga, eu achei que Abiah ia com a gente pra cidade, ia ser legal se ela estivesse com a gente pra Bael ter com quem conversar e o lugar ficar barulhento,” Cynrad disse, eu já tava cansada e respirei fundo.
“Por que ela foi na frente de novo?” Pavel me perguntou.
“Uma corça passou por aqui mais cedo, ela disse que precisava seguir pra dar algo pros pais dela na cidade.” Minha resposta foi simples.
“Só isso? Por que a gente apagou?” Bael perguntou, então eu preparei minhas habilidades de atriz. Virei pros três.
“Droga, vocês não lembram que bateram a cabeça quando a corça pulou em cima de vocês três?” Perguntei, e os três franziram a testa e tentaram lembrar. Idiotas.
“Não lembro de nada,” Bael disse, segurando a cabeça.
“É normal, sua cabeça bateu com força no chão mais cedo, por isso você apagou,” eu disse, então virei as costas pra eles e olhei pra baixo.
“Por favor, eu imploro... Eu preciso de você.”
Lembrei de novo o que aquela santa tinha me dito antes de eu mandar ela embora. Respirei fundo.
“Cê tá cega?” Perguntei pra santa, ela tava ajoelhada na minha frente. “Eu sou uma criatura das trevas e meu trabalho é fazer suas vidas miseráveis, não te ajudar,” falei pra ela, e ela chorou mais ainda, como uma criança na minha frente.
“V-você é minha única esperança de voltar pra cidade sem perder minhas memórias.” Ela disse, chorando. Eu ri.
“Por que você não pede ajuda pro santo que você adora? Ele é mais capaz que eu.” Falei e me virei de novo.
“Por favor... Eu preciso da sua ajuda... Eu sinto falta dos meus... pais.” Ela disse, tava chorando, então respirei fundo.
“Bem, não volta pra casa,” falei irritada, e virei pra ela. “Por que você não consegue ir pra casa sozinha e tem que me incomodar? Eu tenho uma missão, por isso tô aqui nessa terra, e minha missão é fazer o mal e tornar aquele homem mau, não te ajudar a ir pra casa.” Falei irritada, ela só tava chorando, curvada.
“Você conseguiu ir sozinha, agora vai pra casa sozinha.” Então eu disse, ela tava torturada.
“V-você não entende!” Ela gritou de repente, me fazendo encarar ela, bem quando eu ia chegar perto pra estrangulá-la, senti a energia protegendo ela, e encarei ela.
“Gente como você também é culpada por eu não poder voltar pra casa!” Ela gritou, e era óbvio que ela tava com nojo de gente como eu, eu ri.
“Você ainda sente pena do seu problema.” Então eu disse, ela se virou.
“A cidade tem uma maldição... e é culpa sua por eu não poder voltar pra casa com a gente, mesmo querendo voltar.” Ela disse, tava chorando, então eu fiquei chocada.
Maldição? A cidade? Eu não olhei pra ela, continuei parada de costas pra ela.
“O.., tudo que eu preciso é... da sua ajuda pra me levar pra casa.” Ela lamentou e disse que eu mordi a língua.
“Eu quero... eu quero voltar pra casa com a gente, então por favor.... me ajuda... Eu faço tudo, só me ajuda a ir pra casa e ver meus pais...” Ela disse, chorando, então virei pra ela e ri.
“Tudo? Mesmo que a troca seja sua vida e as almas dos seus pais?” Perguntei, por isso ela não respondeu, eu conseguia ver a decepção e a tristeza nos olhos dela. Eu ri e olhei pro céu.
“Você acha que eu só vou pedir algo simples em troca da minha ajuda? Eu sou uma demônia, sem coração e sem piedade, então você não pode esperar nada de mim.” Falei, olhando pra ela. “Como eu disse, peça ajuda pro seu Deus, não pra mim,” falei, virando de novo.
“Eu estou disposta.” Fechei os olhos com o que ela disse, como as pessoas são malvadas!
“Mas eu tô falando com você, mesmo que você só leve minha vida e minha alma, não leve minha mãe e meu pai. Por favor.” Ela disse, então virei pra ela de novo e sentei na frente dela, então olhei nos olhos dela, ela tava falando sério.
“Você pode me transformar em animal de estimação, escrava, ou o que você quiser, mas por favor, não meus pais.” Ela disse, tava falando sério.
“Eu gosto da ideia,” falei brevemente, vi o poder que protegia ela enfraquecendo por causa do acordo dela comigo, até que aquele poder fraco sumiu completamente, eu imediatamente engasguei e dei um tapa nela. Motivo pra ela ter medo de mim e nada acontecer, não importa o que ela reze na mente dela.
“Você entendeu o que disse, Mulher?” Perguntei com coragem e mostrei pra ela minhas verdadeiras cores, minha verdadeira forma, o meu lado assustador. Ela rastejou pra longe de mim, enquanto eu chegava mais perto e mais perto dela.
“Fazer acordo comigo é o maior pecado que você cometeu na sua vida, rejeitando o ser poderoso que vocês adoram,” falei friamente e com medo enquanto me aproximava dela, ela encostou na árvore, então sentei na frente dela e toquei gentilmente o queixo dela.
“Mas eu vou rejeitar seu acordo comigo,” falei friamente, então voltei pra forma humana normal. Ainda tem um vestígio de medo nos olhos dela.
“Eu não quero perder tempo com alguém como você,” falei e afaguei o cabelo dela.
“Eu não quero perder o tempo que eu deveria estar dedicando a terminar minha missão,” adicionei e cheguei mais perto dela e lami a bochecha dela, fazendo ela ficar ainda mais nervosa.
“Sua alma é muito boa, mas eu não tenho intenção de pegar ela, porque já tenho escravos demais,” falei, me levantando.
“Mas se você quiser, eu faço o acordo. Não inclui sua alma ou as almas dos seus pais.” Falei, então ela olhou pra mim, eu sorri.
“Se você me ajudar a tornar aquele homem mau,” falei e apontei pro Pavel. “E depois da minha missão, eu vou te ajudar a voltar pra casa,” falei e sorri.
Vi dúvida nos olhos dela.
“Sua consciência não consegue lidar com o que eu quero, vai embora, você tá perdendo meu tempo e só vai estragar minha estratégia,” falei, levantei minhas sobrancelhas quando ela não se moveu, entrei na mente dela e controlei o corpo dela pra sair e ir embora da gente.
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Já faz algumas horas que a gente tá andando, e eu já consigo ver o relógio grande que fica no meio da Cidade.
“Finalmente estamos perto,” Bael disse com um sorriso no rosto, como se tivesse ganhado.
“Vamos, vamos achar um lugar pra ficar enquanto estivermos na cidade,” falei e tava prestes a andar quando alguém falou atrás da gente.
“UM POUCO!” Ao mesmo tempo, olhamos pra trás e vimos três árvores grandes com uma distância entre a santa e a gente, meus olhos se afiaram quando ela se aproximou da gente, ela sorriu pros três e depois olhou pra mim.
“Eu aceito.” Ela disse, algo que eu entendi e algo que fez os três franzirem a testa.
Essa garota queria ver os pais dela, então fez um acordo com uma demônia como eu.