Cynrad
Agora o quarto tá na maciota, Cynrad tá sentado na frente do Lolo Gabriel que ainda tá confuso e com mó medo. Enquanto eu tava só parada entre o velho e o Cynrad. Cynrad respirou fundo e se acalmou, saca?
– Cê tá querendo dizer que a alma da Ksara tá aqui no quarto? – Cynrad perguntou pro Lolo Gabriel, o velho balançou a cabeça e depois olhou pra mim.
– Ela tá entre nós, Cynrad – ele respondeu. Sei lá como o Lolo Gabriel me viu agora, o importante é que eu tenho um aliado.
– Que nada, Vovô Gabriel, a Ksara tá no quarto dela, como a alma dela tá aqui? – Cynrad perguntou. Lolo Gabriel me olhou e ficou esperando a minha resposta.
– Meu corpo foi roubado – eu respondi, então ele olhou pro Cynrad de novo e repetiu o que eu falei. Cynrad franziu a testa mais ainda e olhou pro velho desacreditado.
– Roubado? – Cynrad perguntou, depois olhou pro nada. O velho e eu ficamos olhando pro Cynrad que tava pensando, mó cara de bravo.
– A Alada tá dentro do meu corpo agora e não eu – eu falei, então o velho me olhou.
– A Ksara disse, a Alada tá dentro do corpo dela agora e não ela – ele falou pro Cynrad, Cynrad olhou pra ele.
– Eu quero ver a Ksara – Cynrad falou pra ele, então eu olhei pro velho que tava olhando pro Cynrad mó sério.
– Cê tá falando sério? – ele perguntou, Cynrad balançou a cabeça em resposta.
– Eu quero ver a Ksara com meus próprios olhos antes de acreditar, desculpa, Vovô Gabriel – Cynrad falou, o velho balançou a cabeça e depois respirou fundo.
– Tem um jeito de você ver a alma da Ksara – ele falou pro Cynrad.
– Qual é, Vovô Gabriel? – Cynrad perguntou.
– Eu vou abrir o seu terceiro olho, quando eu abrir seu terceiro olho você vai poder ver uns espíritos que o olho normal não consegue – ele falou, eu vi o Cynrad engolir seco, então eu dei uma risadinha.
– A Ksara tá sorrindo agora – o velho falou, então Cynrad olhou pra cima e balançou a cabeça.
– Beleza, Vovô Gabriel, abre meu terceiro olho pra eu ver a Ksara – Cynrad respondeu sem hesitar, eu de repente fiquei feliz olhando pro Cynrad.
de alguma forma, tem mais um ser querendo me ver. Cynrad sabia quem eu era de verdade, que eu era um demônio, ele viu minha forma de demônio, mas não teve medo de mim, não se assustou comigo, e tudo pareceu normal pra ele como se eu fosse só uma pessoa normal se considerar ele mesmo sabendo quem eu sou de verdade.
Cynrad foi rapidinho até o Lolo Gabriel, sentou na frente do velho, e o Lolo Gabriel tocou na testa do Cynrad, depois fechou os olhos e falou umas palavras. Enquanto eu tava olhando pra eles, a minha memória do Cynrad entrando comigo no submundo de repente voltou pra mim.
Chifres longos e enrolados, garras pretas longas e afiadas, asas vermelhas grandes, uma cauda preta longa dividida em três e pontuda em cada ponta, olhos pretos, orelhas pontudas, pés de leão e cabelo branco comprido se movendo espontaneamente. É isso que o Cynrad tá vendo agora.
Eu virei as costas e respirei fundo, mesmo de costas eu conseguia sentir o medo correndo pela alma dele. Eu fechei os olhos pra não querer a alma dele. Eu não posso machucar o Cynrad, ele é amigo do Pavel e faz parte do meu passado.
Eu tenho que ter paciência.
– Essa é a razão, Cynrad – minha voz parecia a melodia da morte, bem diferente da minha voz toda vez que eu me juntava com o meu corpo humano.
– Eu entendo se você tiver medo de mim, você pode ir embora de novo – eu falei, olhando pra ele, ele ficou surpreso com o meu olhar de repente.
– Mas eu te imploro, não deixa o Pavel saber minha identidade verdadeira. Que fique em segredo só entre nós dois – eu falei, ele não disse nada porque parecia que o que aconteceu ainda não tinha entrado na cabeça dele. Qualquer pessoa ia ficar com medo se encontrasse um demônio.
– K-Ksara… – Ele chamou meu nome, eu me curvei e depois virei de volta pra de alguma forma fazer o medo dele sumir.
– Eu não pretendo machucar, eu quero ajudar o Pavel – eu falei. Tinha silêncio entre nós dois.
Eu lembrei da resposta dele pra mim de novo quando eu perguntei pra ele do que ele tinha medo, ele falou que tinha medo de ir pro inferno. Algo que vai acontecer se ele for comigo pro lugar da Arae.
– C-como eu posso… ter certeza… de que você não vai se machucar se você for… – Ele não conseguiu terminar o que ia falar, aí eu me ajoelhei na frente dele, olhando pro chão. Ele pareceu surpreso com o que eu fiz. Mas essa é a única garantia que eu posso dar de que eu não vou me machucar.
As pessoas, elas conseguem confiar nos outros de boa
elas são pessoas, mas não conseguem confiar na gente porque pensam na gente como inimigos, que é a parada real.
– Demônios, na hora de se ajoelhar na frente de uma pessoa, abaixam o olhar pra si mesmos, algo que acontece comigo – eu falei ajoelhada. – Eu não tenho a intenção de machucar, eu só tenho a intenção de ajudar –
Eu vi como o Cynrad abriu os olhos e olhou na minha direção devagar. Eu sorri pra ele e na hora minhas lágrimas caíram enquanto eu olhava pra ele.
– K-Ksara… – Ele chamou meu nome, enquanto olhava pra mim.
– Cê não tá com medo de mim agora? – Eu perguntei, olhando pra ele, ele não respondeu e veio rapidinho me abraçar, mas eu só passei por ele, então eu pude ver a decepção nos olhos dele.
– Não – Ele respondeu minha pergunta, olhando nos meus olhos, eu não consegui sentir mentira na resposta dele, o que me fez sorrir mais ainda.
De repente eu lembrei da primeira resposta dele quando eu perguntei pra ele se ele tinha medo de mim.
– Agora, se você tiver medo de mim. Eu entendo. Você pode voltar pro seu corpo e voltar pro Pavel – eu falei, eu fiquei surpresa quando eu senti ele segurar minha mão, eu olhei pra ele e vi que ele tava sorrindo pra mim.
– Sim, eu tava com medo de você, mas quando eu descobri que você era a Karma, eu soube que você não ia me fazer mal – Ele falou, então eu fiquei olhando pra cara dele. – Por causa das nossas vidas passadas, você não pode ver que eu tô machucado – Ele sussurrou, então eu parei.
– Cynrad! – Eu corri rapidinho pra onde ele tava e apoiei ele. – Cê tá bem? O que aconteceu com a sua cabeça? Por que tem sangue? – Eu perguntei, preocupada, apoiando ele. Ele só riu de mim e depois me puxou pra perto dele, o que me surpreendeu.
– Ninguém vai mais lutar contra você, Karma – Ele sussurrou, então eu me enrijeci, eu olhei pra cara dele e eu consegui ver a aura preta dele.
– Q-que cê fez? – Eu perguntei, ele só sorriu pra mim e depois me abraçou de novo e fechou os olhos.
– N-não repita o que quer que cê tenha feito, Cynrad. Eu não quero te ver machucado ou machucando –
É tipo um raio quando umas imagens aparecem nos meus olhos. Eu fechei os olhos e me acalmei, eu suspirei e olhei pro Cynrad que tava olhando pra mim.
– T-tá tudo bem? – Ele perguntou, eu só fiquei olhando pra ele e depois olhei pra mão dele segurando a minha, eu tirei a minha mão devagar e comecei a andar.
– Você falou, o que você mais tem medo é ir pro inferno – eu falei e parei de andar, olhei pra ele por um momento. – Eu tô indo pra lá pra conversar com um ser que pode ajudar o Pavel – eu falei, sem dúvida ele se aproximou de mim com um sorriso.
– Bora, então. Quando a gente voltar, vai direto pro Pavel – Ele falou, então eu sorri, eu estendi a mão pra ele e ele olhou pra ela.
– Eu nunca vou ter medo de você… Ksara – Ele falou, olhando pra mim.