O início da longa jornada
Um tempo passou depois que eles terminaram de comer e se arrumar, eu fiquei de olho neles o tempo todo pra saber se eles fizeram o que eu mandei, limpar antes de ir embora. Agora nós tamos aqui fora da casinha e como é meio-dia tem um monte de gente por aí fazendo as paradas da vida.
"Por onde a gente começa?" perguntou Bael, que tava do lado do Cynrad, eu olhei pro Pavel que tava do meu lado.
"Olha o mapa," eu falei e estendi a mão pra ele, ele rapidinho pegou o mapa da bolsa e me entregou, eu abri o mapa e fiquei olhando os lugares que a gente ia.
a gente tem uma viagem longa, longa o suficiente pra eu ficar com eles e fazer minha missão direito.
Percebi que a gente ia pra uma estrada perto primeiro, então eu dei um sorrisinho e fechei o mapa, depois grudei ele no Pavel de novo.
"A gente vai andar um bocado pra chegar no primeiro lugar." Eu menti. Se a gente for pela estrada perto, a gente provavelmente chega no primeiro lugar antes do fim da noite, mas se eu levar eles pela estrada longe, a gente vai passar a noite na estrada.
Coisa que eu gosto mais.
Eu olhei pros três.
"Vão pegar umas mochilas de comida e água porque a charrete não vai poder levar a gente pra estrada que a gente vai." Eu menti de novo, mesmo sendo verdade, a charrete ia levar a gente pro lugar que a gente ia.
Nosso primeiro lugar era uma casa velha que ficava na divisa da vila com a cidade. Tem uma estrada perto dessa casa, mas como eu falei, a estrada que a gente vai pegar é a que fica longe.
"Quantos minutos a gente vai levar andando?" perguntou Cynrad. Eu sorri.
"Seis," eu respondi, aí eles suspiraram aliviados. "Seis horas," eu repeti, fazendo com que todos olhassem pra mim.
"QUÊ?!" Eles me perguntaram ao mesmo tempo, eu olhei pra eles com a sobrancelha esquerda levantada.
"Alguma reclamação?" eu perguntei. Cynrad me olhou com pena.
"Se tá zuando, por favor. A gente não tem tempo, então fala sério." Ele falou enquanto cruzava os braços, eu ri.
"Quando que eu brinquei com vocês, gente?" eu perguntei, ele me olhou mais bravo ainda.
"Não importa o que você faça, eu não vou andar tudo isso," Bael falou.
"Então não vai," eu falei e dei um sorriso pra ele. "Você não é o rei coroado," eu falei e fiz cara de surpresa. "A não ser que você queira assassinar o próximo rei pra um de vocês e o Cynrad serem escolhidos, rei?" Eu perguntei, aí ele me olhou na hora.
"Quê? Nunca me passou pela cabeça atirar no Pavel." Ele falou, era verdade.
"Se for verdade que você não pretende atirar no príncipe, bora começar a andar, vocês tem que sempre me seguir porque eu sei os lugares da vila," eu falei e dei um sorriso.
"Sabe, quando você sorri, você parece um demônio com planos maldosos," Cynrad falou, me fazendo rir.
"HAHAHAHAHA! É verdade." Eu falei, fazendo com que ele me olhasse de repente, eu ri mais ainda e apontei pras duas chifres que eu tenho na cabeça.
"Eu sou fã do Satanás," eu falei, aí ele ficou todo torto e virou a cara.
"Em vez de perder tempo aqui, bora começar a andar porque a gente vai chegar de noite com certeza," eu falei, aí comecei a andar, ouvi os cochichos do Cynrad e do Bael que foram forçados a me seguir, senti o Pavel me cortar e me olhar, eu tava exausta.
"Que mais você precisa?" eu perguntei, sentindo o sorriso nos lábios dele.
"Não, eu só quero te agradecer porque você tá aqui pra guiar a gente." Ele falou, por isso eu olhei pra ele.
"Guiar?" eu perguntei, ele concordou com a cabeça, sorrindo.
"Sim, eu também quero te agradecer por ficar de olho na gente a noite toda." Ele adicionou, eu não fiquei de olho neles, eu só tava numa árvore contando estrelas a noite toda.
"Não precisa agradecer," eu falei, levantando a sobrancelha pra ele. "Eu não tô fazendo nada de bom pra você," eu falei.
"Mas--"
"Não seja mau, só cala a boca," eu falei, aí ele riu.
"Você é assim?" Ele perguntou, eu olhei o que eu tava passando.
"Como assim?" eu perguntei.
"Você é rabugenta e gentil, mas às vezes é suave." Ele falou, por isso eu olhei pra ele.
"Eu não sou gentil," eu falei e desviei o olhar.
"Você é tão má!"
"Você é um demônio!"
"Em nome da cabeça grossa! Eu te expulso do corpo desse homem!"
"Nós nunca mais vamos fazer nada de bom, só devemos fazer o mal."
"As pessoas são só nossos brinquedos."
Eu engoli seco quando lembrei do que eles tavam falando pra mim.
Padre tá certo, as pessoas são só nossos brinquedos.
"Você é gentil, essa é a verdade. Mesmo que a gente diga que você é rabugenta e mandona, você é gentil porque você prioriza o nosso bem-estar antes do seu," eu ouvi o Pavel falar, que tava do meu lado.
"Eu falei que eu não sou gentil," eu falei brava e parei de andar, aí olhei pra ele, eu senti o Cynrad e o Bael pararem atrás da gente.
"Eu nunca fiz nada certo, e nunca vou fazer nada certo. Eu só brinco com vocês porque as pessoas são só brinquedos." Eu falei com um tom sombrio, aí ele parou, eu também parei quando percebi o que eu falei.
Eu desviei o olhar. O que tava na minha cabeça quando eu falei essas coisas?
"Você vai brincar com a gente?" Cynrad perguntou lá de trás. Eu não respondi, não tô no clima pra brigar com ele agora. Porque se eu ficar brava, eles podem ser enviados pro inferno num piscar de olhos.
"A gente tem que andar," eu falei e comecei a andar de novo. Foi uma grande burrice eu falar isso pro Pavel. O que eu preciso aqui agora é a confiança deles, pro final. Eu só vou destruir isso, coisa mais dolorosa pra eles.
Essa não é a hora certa pra eles saberem o que e quem eu sou, minha missão ainda não acabou. Eu tenho que tomar cuidado com o que eu falo. Meu único movimento errado é quando eles duvidarem de mim.
Eu respirei fundo enquanto andava. Eu sou imortal, mas por que eu tô sentindo isso? Por que eu tô me sentindo cansada? Coisa que não devia acontecer.