Olhos vermelhos
Parámos de andar temporariamente pra descansar, debaixo duma árvore grande aqui no meio da estrada, pensámos em descansar pelo menos uma hora.
Foi surpreendente porque eu também tava cansada, uma coisa que não devia ter acontecido comigo. Sentia que as minhas pernas tavam duras e o meu corpo todo tava dormente, já andávamos há quase três horas e eu insisti que eles fossem trazidos pra cá pelo caminho longo.
"Espero que a gente possa só andar de carruagem em vez de andar tanto", o Bael reclamou, ele tava a falar enquanto andávamos. A pouco e pouco, vou explodir de chateação porque ele é tipo uma mulher, se ele consegue reclamar.
"A carruagem não pode passar em alguns caminhos, Bael, viste mais cedo, não viste? Uma carruagem não podia sair do rio quando passámos", o Pavel disse enquanto ficámos na minha frente.
"Mesmo assim, é cansativo. Devia e--"
"Não devias ter vindo se és assim", eu disse friamente, fazendo com que ele me olhasse com surpresa.
"Já andas na estrada há um tempão, sabes como és irritante? Eu também estou irritada contigo. Quero tirar a tua língua da tua boca só pra te manter calado!" Eu gritei, o que assustou-o ainda mais. Vi-o engolir enquanto olhava pra mim.
"K-Ksara..."
"Não suporto o barulho que estás a fazer, mais um barulho e eu vou tirar a tua língua e atirá-la às piranhas!" Eu gritei com raiva, fazendo com que os arredores ficassem quietos. Respirei fundo. A pouco e pouco, acalmei-me, por isso vi o Cynrad e o Pavel a olhar pra mim assustados, enquanto o Bael começou a chorar.
"Por quê?" Eu perguntei porque eles ainda não tiraram os olhos de mim.
O Bael apontou pra mim e depois correu pra trás do Pavel.
"Monstro!" O Bael gritou, então eu fiquei atónita. Olhei pro Pavel com medo nos olhos dele enquanto ele olhava pra mim.
"As pessoas, mesmo quando não mudarem os olhos em nós, somos um monstro nos olhos delas."
Dei um passo pra trás quando me lembrei do que o meu Pai me disse.
"Os teus olhos", o Pavel disse suavemente enquanto me olhava. Parei e desviei o olhar.
Droga! Os meus olhos estão vermelhos outra vez? Tenho que ter cuidado da próxima vez, não devia ceder à minha raiva. Ainda bem que só viram os meus olhos, quando virem o meu chifre, tenho a certeza que vão rezar pra me afastar.
Olhei pra eles outra vez.
"Quais são os meus olhos?" Eu perguntei num tom em que também tinha medo.
"O-os teus olhos ficaram vermelhos, os teus olhos ficaram vermelhos!" O Cynrad gritou com medo, então eu também gritei e agarrei-me ao Pavel.
"O quê?! Impossível!" Eu atuei, fechei os olhos e abracei o Pavel.
"É impossível! Diz que tavas só a brincar!" Fingindo estar assustada e a chorar, eu disse.
"Como é que os meus olhos vão ficar vermelhos? Eu vou morrer?!" Eu perguntei e abracei o Pavel ainda mais forte. Ouvi a risada do Pavel, então olhei pra ele, o Cynrad e o Bael também olharam pra ele.
"O que é que tem graça?" Eu perguntei com lágrimas nos olhos enquanto olhava pro Pavel que me tava a abraçar.
"Talvez estejamos só cansados, então o que vemos é uma alucinação", ele disse, depois olhou pra mim.
"Já me podes largar agora." Os meus olhos arregalaram-se e imediatamente empurrei-o pra longe de mim e fiquei de pé, depois virei-me pra longe deles. Já não se resolve.
"Talvez", o Cynrad disse que o Bael ia logo lutar.
"Tu da próxima, não reclames só. Achaste que a Yuniko era a única que tava chateada contigo? Eu também tava chateado contigo há um bocado por causa do teu barulho, como se fosses gay", o Cynrad disse chateado, então eu sorri.
As pessoas podem ser facilmente enganadas.
"Desculpa", o Bael disse como uma criança.
"Vamos só descansar, mais tarde sairemos outra vez pra ir pro nosso primeiro destino", o Pavel disse e virou-se pra mim.
"Estás bem?" Perguntou o Pavel, eu assenti. Ele entregou-me água, então peguei e bebi, depois sorri pra ele.
"Não te vou agradecer, isso não é trabalho meu", eu disse, fazendo-o rir.
"Foste tão fofa há bocado." Fiquei atónita com o que ele disse, só olhei pra ele, o que o fez rir ainda mais.
Passaram-se uns minutos antes de todos decidirmos voltar a andar, já não tava muito quente, tínhamos algumas pessoas a andar connosco, por isso o Bael já não tava barulhento.
Enquanto andávamos, reparei num homem que tava a olhar pra mim, parei de andar enquanto olhava pro homem, e ele desviou o olhar e depois mudou a direção em que tava a andar.
"Estás bem?" Olhei pro Pavel que também parou de andar enquanto me olhava. Só assenti e voltei a andar, senti-me estranha em relação àquele homem. Parece que ele sabe o que eu sou. Quem quer que ele fosse, o Pavel não conseguia vê-lo.
"Temos que nos apressar", eu disse, então eles olharam pra mim.
"Mais quanto tempo vai demorar pra chegarmos ao nosso primeiro destino?" Perguntou o Cynrad.
"Já não vamos andar", eu disse, então eles olharam pra mim.
"Vamos voar?" O Bael perguntou, então eu olhei pra ele torto.
Olhei em volta e vi um carro feito de maquinaria. Aproximei-me dele e falei com o motorista, a princípio ele não concordou em nos levar pra onde íamos, mas porque eu controlei a mente dele, ele não fez nada.
Esta não é a altura certa pra andarmos, tenho a certeza que o homem que vi agora mesmo está a seguir-me. Por isso vamos só entrar no carro pra chegarmos onde vamos.
Olhei outra vez pro sítio onde vi o homem, assim que o nosso carro começou e eu vi a saída do homem que me tava a seguir mais cedo. Vi como ele fez o sinal da cruz enquanto olhava pra mim.
Eu tinha razão, ele sabia o que eu era.