Corpo humano
Tá nervosa, né? Olhei pro rapaz do meu lado, todo inocente. Se não fosse pelo sangue e pelos machucados na testa, esse guri até que era bonitinho.
Ignorei ele e só fiquei olhando pra frente. O máximo que eu pudesse, eu me afastava das paradas que eu sei que no fim das contas vão me deixar sozinha.
— Tudo bem se você não me batizar. — Virei pra ele, vi um sorrisinho no canto da boca, a decepção na cara dele tava na cara, suspirei e puxei o ar fundo.
— Quando eu falo, eu faço. — Falei alto o suficiente pra a criança ouvir, os três tavam ali na minha frente e já tavam tirando um cochilo, enquanto eu tava acordada pensando em como eu ia atravessar aquela igreja sem me machucar.
— Mas vocês que vão se ferrar se forem forçados... — Ele não conseguiu terminar o que ia falar quando eu lancei um olhar mortal pra ele.
— Não entende? — Falei irritada. Ele fez bico e abaixou a cabeça. — Quando eu digo que vou fazer, eu não quero perder a... — Não terminei o que eu ia falar, ele me olhou. Só desviei o olhar e fiquei na dúvida se devia contar o que ia acontecer depois.
— Não quer perder minha confiança em você? — Ele perguntou, então eu olhei pra ele e puxei o ar fundo, né? Eu não quero perder a confiança dele em mim. Ele foi a primeira pessoa que confiou em mim.
— Cala a boca, você sabe demais. — Falei, depois levantei, puxei o ar fundo e olhei pro céu.
Céu, Terra, Inferno. Por que eu fui parar na última dessas três opções? Dizem que tudo acontece por uma razão. Será que existe alguma razão pra minha casa ser no inferno e não no céu ou na terra?
Olhei de volta pros três que tavam dormindo feito pedra, não era bom. Eu tô ficando mole. Antes eu não me arrependia de ser um demônio, mas agora, por que... por que eu fico pensando em coisas que não devia?
Uns minutinhos de espera se passaram e eles finalmente acordaram, o Bael acordou primeiro, depois o Cynrad, e por último o Pavel.
— Vamos voltar a andar. — Cynrad falou e levantou, e depois se espreguiçou, o Pavel só sorriu pra mim me fazendo revirar os olhos pra ele, eu também levantei e depois olhei pros três.
— Se ajeitem porque a gente vai andar. — Falei dando as costas pra eles.
— Irmã, já bolou algum plano? — O guri que tava com a gente perguntou, olhei pra ele e puxei o ar fundo e balancei a cabeça. Ainda não tinha pensado em um plano pra passar pela igreja sem me machucar, com certeza criaturas como eu não seriam aceitas em um lugar desses.
— Dormiu? — Olhei pro falante do meu lado, o Cynrad. Ri e dei um sorriso malicioso.
— Quando que você se importou comigo? — Perguntei e comecei a andar, dava pra ouvir a conversa entre o Pavel e o Bael lá atrás, como se o Bael tivese contando pro Pavel sobre o sonho dele.
— Agora? Eu percebi que quando a gente acordou, você já tava acordada. — Ele falou, só dei um sorriso malicioso.
— E se eu acordar antes de vocês? — Vou perguntar. Ouvi ele barateando.
— Que atitude, perguntando maaa... —
— Sim, eu durmo, que que você tá feliz? — Respondi e depois olhei pra ele. Dei um sorriso malicioso quando vi a cara de sério dele. — E o que que isso te importa se eu tô dormindo ou não? — Pergunto.
— Você parece tão cansada. — Parei no que ele disse, olhei pra ele que também parou enquanto me olhava.
— Parece que você não dorme, percebi que suas olheiras estão crescendo e... —
— É um insulto? — Perguntei e ri depois continuei andando.
— Só tô falando a verdade. — Ele falou e passou por mim enquanto andava, o Bael e o Pavel também foram e passaram pela fileira do Cynrad e minha olhando pra gente.
— Do que vocês tão falando? — Pavel perguntou pra gente.
— Ela não parece cansada? — Cynrad perguntou pros dois. Os dois olharam pra mim.
— Tá tendo uma soneca? — Bael perguntou, me fazendo ficar tensa.
— Dá pra só andar, vocês percebem muita coisa. — Falei e comecei a andar mais rápido.
Dormir? Não, eu não tô dormindo, criatura como nós não dorme, nós não somos pessoas pra dormir.
— Você também tem que descansar o seu corpo. — Lancei um olhar mortal pro guri que apareceu do meu lado de repente.
— Não se mete na conversa. — Falei brava pro guri, e o guri riu.
— Não é como se sua alma fosse imortal, seu corpo também é. Ainda é um corpo humano e precisa de descanso, se o seu corpo não descansar, seu corpo provavelmente vai ficar doente. — Ele falou, então eu olhei pra ele.
'O que você quer saber?' era o que eu queria dizer pro guri do meu lado, mas escolhi ficar em silêncio.
— Você também precisa comer, porque seu corpo tá perdendo peso, não é porque sua alma é imortal, seu corpo também é imortal, você tem que comer e beber água, você também tem que cuidar do seu próprio corpo pra mantê-lo em ordem. — Falou o guri, puxei o ar fundo e olhei pra frente.
— Eu também vou deixar esse corpo. — Falei, senti ele me encarando então olhei pra ele.
— Você é a única demônio que eu conheço que não machuca. — Ele falou, o que me fez rir.
— Você não tem certeza. — Falei enquanto andava.
— Você não pode machucar seus amigos. — Foi aí que o sorriso do meu rosto sumiu, e a boca desse guri caiu.
Não falei nada e só continuei andando, o tempo todo em que estivemos andando eu só fiquei em silêncio, nada veio na minha mente sobre quais passos eu devia dar pra não me machucar quando eu passasse pela igreja.
— Ksara, vamos descansar primeiro. — Pavel falou que tava atrás de mim, parei de andar e depois olhei pros três que tavam me olhando, olhei pra frente pra onde a gente ia andar, íamos chegar na igreja em alguns minutos. Balancei a cabeça e depois me sentei embaixo de uma árvore.
— Ei, valeu. — Ouvi o Bael falar enquanto se sentava. — Parece que minhas coxas vão quebrar. — Ele falou, então olhou pra mim, ia tirar os olhos de mim quando de repente ficou encarando como se tivesse percebido algo estranho.
— Oy, tá tudo bem? — Ele perguntou, os dois olharam pra mim. Levantei as sobrancelhas.
— Seu nariz tá sangrando. — Ele falou então me segurou pelo nariz e olhou pra minha mão que eu usei pra segurar meu nariz, engoli a seco quando vi o sangue na minha mão. Imediatamente senti o Pavel se aproximando de mim rápido então olhei pra ele.
— Olha pra cima. — Ele falou sério e misturado com preocupação, por isso eu olhei pra cima.
— O que te dói? Tá com dor de cabeça? — Ele perguntou, balancei a cabeça enquanto olhava pra cima.
Depois de um tempo, ele levantou e limpou o queixo do meu nariz. Olhei pro rosto dele enquanto limpava meu nariz.
— O que tá acontecendo com você? A gente não devia ficar doente porque não sabe onde ficam os hospitais aqui. — Ele falou então pegou algo na sua mochila.
— Come, você tem que comer. — Ele falou sério, olhei de volta pro céu e ri. Pessoas são naturalmente atenciosas, mas eu não consigo dizer se a preocupação deles é genuína ou não.
— Ela também precisa dormir. — Ouvi o que o Cynrad falou, então olhei pra ele, ele tava de braços cruzados enquanto me olhava enquanto o Bael tava do lado dele.
— Nessa situação, você vai seguir a gente. — Bael falou, então minhas sobrancelhas se arquearam.
— A gente não sai daqui até você comer e dormir pelo menos um pouco. — Cynrad falou, então eu lancei um olhar mortal pra eles.
— Eles tão certos. — Virei meu olhar pro Pavel que tava na minha frente.
— Você precisa descansar, Ksara. — Ele falou sério.
— Tudo bem... —
— Não tá tudo bem, não seja teimosa. — Cynrad falou irritado.
— Quantos dias você não dorme? — Olhei pro Pavel quando ele perguntou isso.
Três, eu não durmo nem como há três dias, por isso, minha alma consegue lidar com isso, só o corpo humano não, Droga.
— Eu durmo, mas não por muito tempo. — Minha resposta.
— Mentira. — Bael falou, então eu olhei pra ele.
— A gente nunca te viu dormir. — Cynrad falou, o que me fez rir.
— Você precisa me ver? — Vou perguntar.
— Consegue, não seja teimosa Ksara, só coma e durma. — Olhei pro Pavel quando ele disse isso, a raiva e a preocupação estavam evidentes na voz dele, e por dentro eu sorri.
Raiva, ele já sentiu raiva, bom pra isso. Ele não é mais difícil de ensinar.
— Tudo bem, você que manda. — Falei então peguei a comida na minha frente e dei uma mordida, eles me assistiram mastigar então eu ri.
— Por favor, não fiquem me olhando como se estivessem assistindo um filme. — Falei.
Olhei pro Pavel que tava sério até agora, sorri.
Ele é tão fofo quando fica com raiva. Parei de mastigar quando percebi o que eu disse. O que é fofo?
Eu tava tão cansada que só comi quieta, não sabia que a comida das pessoas tem esse gosto, é tipo terra.