Eu parti por nada
Eu sentei quietinha esperando o Cynrad acordar, já fazia uma hora que a gente tinha voltado pro mundo humano. Respirei fundo e olhei pro céu, que tava brilhando com tanta estrela.
Eu falhei. Falhei em falar com a Arae, falhei em ajudar o Pavel.
"Não devia ter brigado com ela." Sussurrei pra mim mesma. Balancei a cabeça. Fiz a coisa certa, ela se acha demais, não é porque é uma criatura poderosa que eu não vou botar ela pra baixo. Eu ainda sou a Ksara, uma das princesas do submundo e a detentora do quarto círculo.
Me curvei, blasfema Arae. Que ela sofra na caverna dela.
Mas e agora? O que eu vou falar pro Pavel quando a gente voltar pra eles? Tô animada por ele, mas não quero decepcioná-lo. Nem fiz nada pra tirar a maldição do Winsoul e fazer ele rei.
"Me tornei um fardo." Sussurrei pra mim mesma e engoli seco. Fiquei olhando pro céu de novo. Se ao menos eu pudesse pedir ajuda lá de cima. Mas, sei lá, tenho certeza que só vão rir de mim e, que nem a Arae, vão me menosprezar.
É loucura buscar ajuda dos inimigos.
Um Demônio? Pedindo ajuda pra um anjo? Que viagem.
"Se ao menos a gente pudesse fazer uma maldição que removesse a maldição que a Alada fez." Sussurrei. Não quero chegar ao ponto de me ajoelhar pra minha irmã blasfema só pra me livrar da maldição que ela colocou.
Eu quero que o Pavel seja rei e governe Winsoul, a missão que me deram? Sei lá se vou fazer isso. Nem sei por que essa era minha missão, fazer o Pavel ser mal. Quando o Pavel virar rei, eu volto pro meu lugar e descubro o que fizeram com a minha alma pra me transformar numa demônio.
Depois disso eu pretendo... Fazer um acordo com o Padre pra ele me fazer humana e poder ficar com o Pavel.
Sorri com meus pensamentos. Vamos continuar nos amando em outras vidas.
"Eu juro, Karma, você nunca vai ser feliz e nunca vai ficar com o homem que você quer!"
Congelei quando lembrei das últimas palavras que a Arae disse antes da gente sair do portal. Uma maldição.
"Você tá chorando." Fiquei chocada quando ouvi a voz do Cynrad do meu lado. Ele acordou e tava me olhando. Limpei as lágrimas na hora que ele falou que eu tava chorando. Sorri pra ele quando ele chegou perto de mim.
"Desculpa, não consegui impedir ela de não--" Parei quando ele me abraçou de repente. Meus olhos arregalaram com o que ele fez, meu corpo ficou duro por causa da velocidade dele.
"Desculpa, se eu atrapalhei." Ele sussurrou. Fui eu que me afastei do abraço. Olhei pra ele e balancei a cabeça.
"Não é culpa sua." Falei e sorri pra ele. Ele só ficou me encarando, por isso levantei do meu lugar.
"Vamos, vamo voltar pro Pavel." Falei e me virei pra ele. Não quero que o clima fique estranho.
"A gente não convenceu aquela criatura." Ele falou enquanto andávamos, parou na minha frente e olhou pra frente.
"Ela é muito arrogante." Falei e respirei fundo. "Não sei o que dizer pro Pavel." Sussurrei. Senti ele me olhando.
"Você não precisa falar nada pra ele, Ksara, ele não te mandou fazer um jeito pra ele virar rei." Ele falou, por isso olhei pra ele.
"Mas eu quero que ele seja rei, quero compensar ele." Falei, vi ele sorrir. Um sorriso que dava pra ver que foi forçado.
"Você só tá se colocando em perigo, acha que o Pavel ficaria feliz se alguma coisa ruim acontecesse com você?" Ele perguntou, olhei pra estrada e não respondi. Ele tá certo.
"Pode ter outro jeito de se livrar da maldição." Ele adicionou, ficamos em silêncio de repente. Só o vento soprando e o barulho dos insetos pra ouvir.
Que tenha outro jeito, seja qual for eu tô disposta a fazer, só deixa o Pavel ser rei.
Andamos em silêncio, só ele falava quando precisava, enquanto eu ficava pensando se tinha outro jeito de se livrar da maldição.
Até que chegamos na frente da casa deles, senti de repente um sentimento e uma emoção que eu não entendo, de repente fiquei inquieta por motivos que eu não sei.
"Tenho certeza que ele vai adorar." Cynrad falou, por isso olhei pra ele, ele tava olhando pra porta da casa do velho, mas dava pra ver que tava com receio de entrar. Comecei a entrar e girei a maçaneta.
Quando a porta abriu, vi na hora o O velho conversando com o Bael e a santa.
"O que ele não tem?" Gabriel perguntou, confuso.
"Não sei, mas--" Bael parou de falar quando os olhos dele foram na nossa direção. Nós dois nos olhamos, então os olhos da santa arregalaram e ela veio na minha direção rápido.
"Ksara! Que bom que você tá aqui! A gente tava te procurando faz uns dias e ele tá te esperando faz uns dias!" A santa falou enquanto me abraçava.
A minha reação não mudou. Fiquei quieta e procurei o único homem que eu queria ver.
"Cadê o Pavel?" Perguntei, fazendo a santa e o Gabriel pararem. Olhei pros três como se estivesse esperando a resposta deles.
"Ele saiu agora há pouco." Bael falou, mas eu senti o cheiro dele mentindo. Franzi os olhos.
"Onde tá o Pavel?" Perguntei com tanta ênfase que a Santa olhou pro Bael e depois virou pra mim de novo.
"O Pavel sumiu de repente, antes ele tava do lado de fora da casa esperando por você, mas quando chegou a hora de deixar ele entrar, ele não tava mais lá." A santa falou, por isso parei. Afiei meu olfato na hora e tentei sentir o cheiro do Pavel.
Quando o cheiro ficou melhor lá fora.
Me virei na hora e saí da casa do velho, ouvi o Cynrad me chamando, mas ignorei. Só segui o cheiro do Pavel.
Enquanto eu seguia, senti de repente um medo, foi a primeira vez que senti, mas sempre vejo nas pessoas. Agora, tá acontecendo comigo. Tenho medo que alguma coisa ruim aconteça com o Pavel, que alguém o leve.
Mas todo meu medo sumiu, também parei de andar e respirei aliviada quando vi ele sentado embaixo do poste e brincando com uma pedra, parecia estar esperando alguma coisa e ficava olhando pro outro lado. Essa é a estrada que eu peguei o Cynrad me seguindo.
O que ele tá fazendo aqui?
Vi ele respirar fundo e depois brincar com a pedra de novo. Só fiquei observando ele de onde eu tava.
Quanto tempo ele tá ali?
"Ela já volta também." Ouvi ele dizer e de novo vi ele olhar pra baixo na estrada. Até que passaram uns minutos, só fiquei parada onde eu tava e observando ele.
Vi ele se levantar e soltar a pedra que ele tava brincando. Foi pro meio da estrada e ficou olhando pra estrada.
"Onde você tava Ksara?" Ouvi ele perguntar. Virou na minha direção enquanto fazia uma reverência, colocou as duas mãos no bolso e começou a andar fazendo reverência.
Bem burro, não acha? Ele pode tropeçar se não olhar por onde anda.
Até que ele esbarrou em mim, aproveitei na hora pra puxá-lo e abraçá-lo. Senti a surpresa dele com o que eu fiz.
"Q-quem-- Ksara?" Ele perguntou surpreso, mas eu abracei ele com mais força ainda.
"Shh, não se mexe." Falei e fechei os olhos enquanto abraçava ele. Senti a rigidez do corpo dele e as emoções estranhas dele.
"V-você tá aqui." Ele falou e me abraçou de volta. Foi aí que minhas lágrimas começaram a cair, as lágrimas que eu tava segurando.
Todo dia o Pavel tava esperando eu chegar, mas não fiz nada de bom ou que pudesse ser chamado de bom pra ele. Eu saio por nada