Capítulo 13
Eu terminei a comida rapidinho. Já tinha sido o suficiente pra me encher. Ela, então, me deu água pra beber na garrafinha dela.
"'Tá tudo bem?" ela perguntou.
"Sim. Obrigado, Heather."
Ela sorriu envergonhada.
"De nada."
"O que aconteceu com você hoje?" eu perguntei.
"Asma."
"Você tem?"
"Sim. Começou hoje, acho. A mamãe me levou na clínica. 'Tô bem agora. Tenho um remédio que 'tô tomando."
"'Tô feliz que você esteja bem." Eu segurei a mão macia dela na minha. Ela corou.
"Eu roubei isso pra você." ela disse envergonhada, tirando um remédio do bolso.
"O que é isso?"
"Analgésicos. Vão ajudar a diminuir a dor no seu corpo. Já que a mamãe te surrou hoje." ela disse com a voz trêmula. Ela estava quase chorando de novo. Eu abracei ela.
"Não chora. Por favor."
"Eu – eu vou tentar."
"Por favor."
Ela me olhou.
"Promete tomar o remédio?"
"Prometo."
Ela me olhou nos olhos e, então, saiu do meu abraço.
"É melhor eu voltar pro meu quarto agora." ela disse, levantando e pegando a tigela e a garrafinha.
"'Tá. Obrigado de novo, Heather." Eu olhei pra ela e sorri. Ela sorriu de volta.
Ela começou a se afastar e eu fiquei olhando. Mas aí ela parou. Eu fiquei me perguntando por quê.
Heather veio até mim de novo e se ajoelhou, com o rosto na minha frente. Nós encaramos os olhos um do outro e, então, ela colocou os lábios dela nos meus.
Eu congelei. Eu não sabia o que fazer. Antes que eu pudesse reagir, ela se levantou e correu pra fora do estábulo. Eu fiquei sentado por um minuto. Sem acreditar no que tinha acabado de acontecer. Eu sorri pra mim mesmo. Eu tinha ficado chocado a ponto de não ter reagido ao beijinho dela. Eu prometi que, da próxima vez, eu seria o que ia beijar ela. E, dessa vez, eu não ia congelar. A presença de Heather tinha me feito sentir melhor naquela noite. Pela primeira vez em muito tempo, eu dormi muito bem.
***
Eu estava menos pra baixo depois da noite que Heather tinha me alimentado. E todo mundo percebeu isso. Parecia que eu tinha recuperado um pouco de energia. Eu trabalhei duro e não reclamei. Sra. Christina ainda me xingava ou me insultava. Mas eu não chorava nem mostrava que estava machucado. Eu não ligava. Ela também ficou se perguntando por quê.
Daquela noite em diante eu não tive a oportunidade de falar com Heather de novo porque não tinha como. Eu só via ela.
De manhã, eu via ela indo pra escola com Sawyer. Ela me olhava de um jeito envergonhado e, quando eu sorria, ela corava e virava o rosto. A visita dela naquela noite ia continuar sendo nosso segredinho.
***
Uma tarde, enquanto eu estava sentado numa pedra vendo os cavalos correrem, Sra. Christina veio até mim.
"Já terminou suas tarefas?" ela perguntou secamente.
"Sim." Eu respondi friamente, sem olhar pra ela.
"Quando eu falo com você, você me olha!" ela disse com raiva. Sem querer problema, eu olhei pra ela. "Eu vejo que sua puberdade pode começar logo. Você tem treze anos, né?"
"Quase."
Ela zombou.
"É, né. De qualquer jeito, eu 'tô aqui pra te dizer que o antigo advogado do seu pai vai vir hoje."
"Por quê?"
"Eu falei pra ele que você queria passar todos os seus bens pra mim, pra que eu cuidasse de você com o seu próprio dinheiro."
Meus olhos se arregalaram.
"O quê?? Você não cuida de mim!"
"Eu sei. Quem liga? Só aceita passar todos os seus bens pra mim."
"Nunca!" eu disse com raiva e me levantando.
"Com licença? Você vai voltar atrás."
"Não, não vou."
Ela ficou chocada por eu ter respondido.
"Cuidado, seu bastardo. Não me faça ligar pro Rob pra te bater pior do que da última vez."
Imediatamente que ela mencionou Rob, eu tive um flashback estranho. Eu me lembrei dela correndo pra ligar pro Rob. Mas, então, eu me lembrei da cena da cozinha. De repente, eu me lembrei de ter visto ela rindo com um homem na cozinha, na noite em que meu pai tinha sumido. Era o Rob?? Eu ainda não lembrava o que eu tinha ouvido naquela noite.
"Alô??" a voz brava dela me tirou dos meus pensamentos.
"Quem é Rob?" eu perguntei.
"Ah, você vai saber quem é. Ele vai te bater se você se recusar a assinar."
"Eu não vou assinar. Eu não ligo de apanhar. Eu já apanhei tanto que não tenho mais medo. Graças a você."
Eu vi Sra. Christina cerrar a mandíbula com raiva e frustração.
"Entendi. Eu ainda vou te fazer apanhar. E eu vou garantir que Heather esteja por perto pra assistir desde o começo."
O quê?? Eu olhei pra ela chocado. Ela estava louca. Ela estava pronta pra deixar a filha frágil dela assistir aquilo de novo só pra eu assinar? Eu não queria isso. Ela era capaz de tudo! Ela tinha me pego.
"Eu vou – eu vou assinar."
Ela riu
"Uau. Parece que você gosta mesmo da Heather. Hum. Se o advogado vier hoje e você ousar contar pra ele o que acontece com você aqui, pode ter certeza que eu vou queimar as roupas do seu pai e tudo que ele deixou aqui."
"Não! Por favor."
"Então prometa agir como se estivesse tudo bem."
"Eu prometo."
"Você não é tão burro assim, seu bastardo." Eu odiava quando ela me chamava de bastardo. Eu estava furioso por dentro. Ela não tinha respeito.
"Agora vai pra dentro de casa e toma um banho. Troca por uma das suas roupas limpas que eu peguei de você. Depressa."
Ela me levou pra dentro de casa. Eu não tomava banho há muito tempo. Ela nem me deixava.
***
"Então, você está bem aqui?" Sr. Jay perguntou.
Eu olhei pra Sra. Christina. Ela me lançou um olhar feio.
"Sim..."
"E você realmente deseja passar seus bens pra Sra. Christina?"
Eu hesitei.
"Sheridan?" o advogado chamou.
"Sim. Sim, eu quero."
"Hum. 'Tá bom."
Ele trouxe alguns documentos e eu assinei. Então Sra. Christina assinou.
Pronto. Ela tinha tudo.
"'Tá. Hum, Sheridan, o antigo assistente do seu pai tem uma residência por aqui. Ele está em um recesso ou férias. Se você tiver algum problema, ele disse que você deve ligar pra ele." o advogado me entregou um cartão. Tinha um número de telefone nele.