Capítulo 19
"Por que você não me ligou?" ele perguntou.
"Quê?"
"Por que você não me ligou? Eu dei o meu cartão com o meu número para o advogado Jay te dar. Por que você não ligou?"
Eu olhei para os meus dedos.
"Sra. Christina rasgou o cartão logo depois que o advogado foi embora."
"O quê?? Ela fez isso?"
Eu balancei a cabeça. tio Victor estava farto. Ele tinha ouvido o suficiente. Ele encarou a frente dele, sem palavras e incapaz de acreditar no que tinha ouvido.
Eu me encostei no meu assento e fiquei olhando pela janela do carro, completamente perdido em pensamentos. Eu estava indo embora. Bem longe. Da tia Christina. De prados altos e suas memórias horríveis. Eu tinha apenas três boas lembranças, Sr. Kenneth, pai e Heather. Eu olhei para meus braços e pés. Hematomas. Feridas secas e um joelho ainda doendo. Lágrimas encheram meus olhos. Senti a raiva subir de dentro de mim. Senti algo pesado na garganta. Minha boca estava amarga e meu coração começou a bater mais rápido. Ódio. Sim. Eu senti ódio e dor repentinos. E todos apareceram de uma vez naquele caminhão. Sim, eu tinha acabado de perceber quanta dor e fome a tia Christina me fez passar por um ano e meio. Ela tinha se aproveitado da minha vulnerabilidade como criança e do meu amor por meu pai para tomar minha herança. Como alguém pode ser tão perverso.
Lágrimas rolaram pelas minhas bochechas. Eu mordi o lábio inferior com força para não fazer barulho. Foi agora que muitas coisas passaram pela minha mente. Eu fui espancado, maltratado, faminto e forçado à escravidão. Eu não fui tratado como um ser humano. Eu solucei silenciosamente no banco de trás. E então uma decisão final passou pela minha mente. Eu nunca mais seria o mesmo. Eu terminei de ser o garotinho vulnerável e ingênuo que sempre sorria e brincava como um idiota. Eu seria outra pessoa para acompanhar minha nova identidade. Eu seria eu, isto é, Sheridan, apenas perto de tio Victor. Eu ia me vingar. Eu ia ser chamado Ace. E eu ia descobrir a verdade por trás da morte de meu pai e da de tio Ken.
Sra. Christina e Sawyer tinham me ridicularizado. Eu realmente não podia culpar Sawyer, ela era apenas uma criança estúpida em busca da atenção da mãe. A culpa era de Christina. Por que eu a chamaria de tia? Ela era uma bruxa. Ela não só me ridicularizou, como me chamou de bastardo, idiota, burro, estúpido e feio. Ela me chamou de feio. Ela disse que ninguém seria estúpido o suficiente para gostar de mim. Vingança.
Eu enxuguei minhas lágrimas. Ela se arrependeria.
Bem naquele momento, tio Victor se virou para mim. Ele estava prestes a dizer algo, mas parou quando notou meus olhos inchados e vermelhos.
"Você está chorando?"
"N– não."
"Mas você está–"
"Eu não estou chorando. Meus olhos doem." Eu interrompi rapidamente. Ele olhou para mim e apenas balançou a cabeça antes de olhar para frente. Ele claramente não tinha acreditado em mim. Contanto que ele não dissesse nada, tudo bem para mim.
**
Uma hora depois, paramos em um aeroporto na entrada de uma cidade diferente. Era povoado, pois muitas pessoas pareciam estar viajando ou voltando. Tio Victor pagou Sr. Thomas e nos despedimos dele enquanto ele partia.
Tio Victor se virou para mim com um sorriso.
"Você está pronto, camarada?" ele perguntou, me dando a mão. Eu sorri de volta.
"Sim." Eu segurei a mão dele.
"Bom."
Entramos no aeroporto.
Eu nunca tinha ido a um aeroporto. Eu estava tão animado. Eu olhei para os lugares com um grande sorriso no rosto enquanto tio Victor mostrava nossos passaportes para a mulher no balcão.
"Filho?" ele chamou e eu me virei. Ele fez um sinal para que eu chegasse e eu fui. Ele segurou minha mão e fomos em direção a uma porta onde uma aeromoça coletou nossas passagens. Ela então abriu a porta para nós e entramos. Eu estava logo no avião! Primeira classe! Seu interior era tão grande e bonito quanto eu imaginava. Eu estava tão feliz.
Encontramos nossos assentos e nos acomodamos.
"Ace." Eu disse de repente. Tio Victor olhou para mim.
"O quê?"
"Meu novo nome. Ace."
Ele sorriu.
"Ace, hein? Legal. Ace o quê?"
"Eu– eu não sei ainda."
"Ace. Ace Stonewall."
Eu olhei para ele e repeti.
"Ace Stonewall."
"Você gosta?"
"Sim!" Eu sorri feliz.
"Então é isso."
O avião logo decolou. Eu ainda estava maravilhado. Eu olhei pela janela e vi nuvens e o céu. Eu estava tão feliz. Eu assisti TV atrás do assento na minha frente e fui servido boa comida e bebidas. De que me lembro, foi uma ótima memória.
Quando chegamos na Califórnia, já era dia. Eu não sabia que dia era ou a hora porque ficamos no ar por muito tempo. Eu ainda estava maravilhado. A Califórnia era tão grande e legal quanto na TV. Eu não podia acreditar. Eu estava em Los Angeles, Califórnia! Eu estava.
Pegamos um táxi e fomos para a casa de tio Victor. Chegamos logo. A casa dele era uma mansão. Grande! Era bonito e rico.
Entramos na casa e uma mulher bonita de uns vinte e cinco anos nos recebeu. Tio Victor a beijou.
"Sheridan?"
"Sim?"
"Esta é minha noiva, Laury. Laury, este é Sheridan. O filho de Paul."
Ela se virou para mim com um grande sorriso.
"Filho de Paul?? Oh, querido, como vai?" ela me abraçou. Eu me encolhi um pouco porque ela tinha tocado em uma ferida. Ela me soltou e foi quando ela notou meus hematomas. Ela se virou para tio Victor.
"Victor? O que aconteceu com ele??"
"Longa história. Eu te conto. Deixe-o descansar."
"Oh, hum, ok."
Acordei na manhã seguinte para encontrar um homem de terno e gravata ao meu lado. Eu me sentei.
"Bom dia, Sheridan. Como você dormiu?" o homem perguntou.
"Hum, bem."