35- Presa ou Exceção?
O Sebastian me disse pra te contar qual é a parte favorita dele. Aquele dia inteiro, da festa até a chuva, até a nossa estadia. Ele adorou. É a parte favorita dele.”
Fomos pro nosso quarto depois do jantar, finalmente. Uma onda de satisfação me invadiu quando meu estômago encheu.
Entregamos as roupas do Sebastian pra secarem. Eu tava basicamente de anágua, então as minhas não contam, sem falar no olhar que o Sebastian dava pra cada homem que ousava me olhar.
Eu tava vestindo uma camisa branca que o dono emprestou, enquanto o Sebastian tava só de calças, com uma toalha no pescoço.
Eu tentei não olhar pra cara dele, minha bochecha esquentou quando eu lembrei de como eu tava encarando ele na chuva, meu corpo tremia, tentando não pensar nisso.
O Sebastian me viu tremendo enquanto eu encarava o fogo, sem saber que eu tava pensando nele, como e por quê. Eu não quero, não tenho intenção de aceitar uma relação tóxica baseada em mentiras.
Abraçar um homem que não tá pronto pra me aceitar.
Eu não consigo fazer isso.
Então por que eu quero que minha voz chegue até ele?
Por que eu tô pensando nele?
Enquanto eu tava perdida nos meus pensamentos, ele pegou um cobertor e colocou em volta de mim, “Enrola em você, você tá tremendo”, ele disse impassível, me ajeitando perfeitamente no cobertor confortável.
Ele ia se afastar, mas eu segurei a mão dele fracamente, fazendo uma carinha de inocente, “Senta comigo.” Ele me olhou com confusão, mas não questionou.
Eu me mexi, abrindo o cobertor, fazendo um espaço pra ele sentar também. Ele hesitou, mas sentou do meu lado, e eu coloquei meu cobertor nele também.
“Você tava encharcada, se cubra ou vai ficar doente.” Eu disse preocupada, enrolando ele no cobertor, enquanto ele me olhava com um olhar estranho que eu fingi que não notei.
Nós dois estávamos dividindo o mesmo cobertor, sentados perto um do outro, encarando o fogo, eu tava abraçando meus joelhos contra o meu peito.
Ele se inclinou, a mão se mexendo e pousando no meu ombro, e pela primeira vez depois de um tempo dolorosamente longo, eu não tremi nem me senti incomodada com o toque dele.
Ele notou isso também, ele sabia o que o toque dele fazia comigo, e quando eu não reagi depois de tanto tempo, isso fez com que ele me olhasse.
“Sebastian…” eu chamei, mas ele não ouviu.
Estreitando os olhos em perplexidade, não aceitando que eu tinha aceitado o toque dele – momentaneamente – mas ele não abriu a boca pra perguntar.
Eu sabia que ele não ia perguntar, eu sabia que ele não ia contar.
“Você… sentiu ciúmes quando aquele homem… pegou na minha mão?” eu perguntei hesitante, querendo saber o que isso fez ele sentir e acabar com esse silêncio esmagador. Ele suspirou, descartando seus pensamentos.
“Eu podia sentir ciúmes se os sentimentos fossem mútuos, mas me fez queimar quando ele tocou na minha presa.” Ele rosnou, virando meu rosto pro dele, mostrando o fogo furioso por aquele homem brilhando em seus olhos prateados.
“Presa…” eu sussurrei, abaixando o olhar, ressentida que, não importa o que acontecesse, ele sempre me considerava uma presa e não sua mulher.
“Não assuma que você está além disso.” Ele murmurou, revirando os olhos.
“Mesmo que você consiga me ouvir?” eu perguntei esperançosa, curvando meus lábios pra cima, mas não em um sorriso, olhando pra ele com uma pitada de esperança que ele esmagou imediatamente.
“Eu disse, quando você conseguir me ouvir. Não se considere especial se eu te ouvi uma ou duas vezes.” Ele zombou, tentando manter sua fachada impiedosa, não mostrando se ele se importa ou não.
Meu sorriso mal visível desapareceu quando eu apoiei meu queixo nos meus joelhos, enterrando minhas unhas na minha pele enquanto meus lábios começavam a tremer, desanimada com a declaração dele.
Como ele torceu tão bem as palavras frias dele pra apontar a localização exata onde mais dói.
“Você ouviu minha voz, sua voz quebrou antes de mim, você nunca me bateu, nunca me violentou ou me torturou – eu ainda estou na posição de presa?” eu perguntei, decepção misturada na minha voz, mas eu podia entender, ele não quer que eu abale o abismo dele também.
Ele estava preso na escuridão dele por um longo tempo, e se eu tentasse entrar ou fizesse uma única mudança – isso teria um impacto desastroso.
Ele provavelmente não conseguiria suportar isso, na verdade.
“Claro, você ainda me satisfaz de outras maneiras. Seu medo é suficiente pra me tranquilizar. Se eu precisar levantar a mão pra evocar meu pavor, eu vou.” Ele disse sem pensar duas vezes em um tom cruel.
“Significa que você está pronto pra me bater?” eu perguntei imediatamente, encarando os olhos dele, dolorosa por saber que ele estava pronto pra procurar uma nova maneira de me estilhaçar.
Os olhos dele se arregalaram por um segundo quando a percepção da frase dele afundou, e as paredes da afirmação desapareceram enquanto ele olhava de volta nos meus olhos, sussurrando de volta, “Não…”
“Você disse –” Eu ia falar, mas ele segurou meu queixo com a outra mão, o olhar suavizando.
“Eu menti. Você é preciosa demais pra ser machucada, Eileen.” Ele disse sem fôlego, redimindo a reação que ele provocou com a declaração insensata dele.
“Por quê? Eu sou só uma presa, afinal, então qual é essa hesitação?” eu perguntei tristemente, estreitando meus olhos, segurando a bainha da minha camisa, mantendo a conexão ilesa.
“Eu sou só uma presa, então por que você não pode me bater também?” Minha ressonância perdeu sua capacidade de ir além de um mero sussurro, morrendo de vontade de ouvir dos lábios dele – pra me dizer que é o que eu acho que é.
“Porque, você é a primeira mulher da minha vida.” Ele suspirou, desviando o olhar, mas a resposta dele partiu meu coração. Só porque eu entrei na vida dele primeiro?
“É só isso…? Decepção brilhou nos meus olhos enquanto eu segurava minha camisa firmemente. Ele notou a tristeza que eu ganhei e expirou novamente.
“Tudo porque eu entrei na sua vida primeiro? Então eu realmente não sou nada? Só porque eu vim primeiro, você está mostrando pouca clemência?” eu perguntei, de coração partido, incapaz de compreender como ele conseguiu provocar dor de uma nova maneira cada vez.
“Eileen, eu não quis dizer assim.” O Sebastian suspirou, trazendo a mão dele pra perto pra me tocar, mas eu afastei a mão dele.
“Não, Sebastian, você está certo. Qual é o valor dessa mera presa que você pode pensar duas vezes antes de machucar fisicamente também? Quem sou eu, afinal?” eu perguntei com uma voz rouca, uma lágrima espetando no canto, removendo a mão dele do meu ombro, empurrando o cobertor pra me afastar dele.
“Eileen, não entenda minhas palavras errado.” O Sebastian sussurrou carinhosamente, mas eu não estava pronta pra ouvir no momento.
“Deixa pra lá, eu estou exausta. Eu quero dormir.” Eu disse apressada, colocando minha mão no meio pra parar.
Incapaz de estender essa conversa ainda mais pra ouvir qualquer coisa que pudesse partir meu coração. Eu me levantei pra sair, impotente pra olhar nos olhos dele de novo e perceber meu valor.
Que eu não era nada além de uma presa.