73.3- Fada
“E aí.”
“E aí-” Ela ia cumprimentar, mas minha vítima gritou.
“Que foi isso? Alguém gritou?” Ela perguntou apressadamente, preocupada. Arregalando os olhos para eles pararem, saí da porão rapidamente.
“Sim, eu estava assistindo um filme. Deixa pra lá, me diz. Como você está?” Perguntei docemente, voltando pro meu escritório.
“Eu estou bem, mas eu te atrapalhei? Tudo bem, a gente pode conversar depois do filme.” Ela perguntou nervosa.
“Não. Não, eu estava livre. Sem nada pra fazer.” Eu murmurei, sentando.
“Se você diz.” Desviando, começamos a conversar por um tempo… muito tempo.
Eu perdi a noção do tempo, eu não sabia como o tempo passou enquanto eu conversava com ela. As palavras saíram sozinhas, as conversas foram criadas sem eu perceber e um tempo virou horas.
“Chefe? Você ainda está na chamada? É meia-noite. Você não vai pra casa?” Dave chamou, surpreso por me encontrar ainda na chamada. Antes que eu pudesse impedir Dave, Eileen engasgou.
“Você estava no trabalho?! Eu achei que você estava em casa e assistindo um filme. Me desculpa, Sebastian, eu não queria te incomodar-” Ela quase entrou em pânico, preocupada em me incomodar em casa, mas eu a chamei severamente.
“Eileen.”
Inspirando profundamente, eu fitei Dave, levantando da minha cadeira, falando sinceramente, “Me ligue quando quiser.”
“Eu acho que você deveria ir pra casa e dormir. É tarde.” Ela murmurou tristemente. Ainda acreditando que ela me atrapalhou.
Suspirando, eu comecei a pegar minhas coisas. Gesticulando para Dave me deixar em paz.
“Sabe? Eu nunca conversei com ninguém por tanto tempo em toda a minha vida.” Eu ri um pouco, pegando minhas coisas para sair.
“Sério?” A voz dela brilhou de novo.
‘Sério, talvez seja sua voz.” Eu murmurei… e conversamos de novo.
“Ok, ok, pela última vez. Você devia dormir agora e ir pra casa.” Rindo, Eileen ligou de novo. Eu olhei a hora, era 1 da manhã.
“Ir pra casa? Eu já cheguei em casa.” Eu ri um pouco.
“Então durma agora. Tchau.” Rindo, ela estava prestes a desligar a chamada, mas eu a chamei docemente.
“Escuta.”
“Hmm?”
Eu perguntei o que eu queria ouvir muito por um tempo agora, “Chame meu nome.”
Com uma risada rouca, ela disse tentadoramente, “Boa noite, Sebastian.” Colocando minha mão sobre meu coração, eu amei como meu nome escapou de seus lábios.
Fechando meus olhos, eu falei em profundidade também, “Boa noite, Eileen.”
Daquele momento em diante, conversamos com frequência. Eu tentei encurtá-las, mas de um jeito ou de outro, elas se alongavam para uma hora ou mais. Nos finais de semana, o dia todo.
Aconteceu por conta própria. Eu queria que parasse, mas não conseguia. Eu raramente a via. Tive uma reunião oficial onde não haveria limites, onde eu poderia abraçá-la, mas estava longe do meu alcance no momento.
Meses se passaram, nosso tempo para nos casarmos chegou perto. Eu fiz trinta e dois anos. Nosso casamento estava próximo. Me deliciando, finalmente o momento de prender minha presa estava chegando mais perto.
Um dia, Eileen queria aprender a cozinhar meu prato favorito, mas enquanto cortava os vegetais, a mulher deixou cair a faca e ela enfiou direto no pé dela.
“O que aconteceu? Você está bem? Está doendo muito?” Perguntei suavemente, andando pelo porão, em pânico enquanto ela continuava chorando.
“Sim. Alguém faz parar. Eu odeio dor, dói muito.” Ela continuou soluçando.
Era uma facada, para alguém que tinha testemunhado um estado muito pior que esse, eu não sabia o que dizer.
“Pelo menos pare de chorar, você está me preocupando agora.” Eu suspirei, esfregando minhas têmporas.
“Preocupar.” Ruben riu por trás. Eu fitei ele e corri pro meu escritório para ter um pouco de privacidade enquanto conversava com minha noiva.
“Está doendo, Sebastian.” Ela chorou, o som me irritou.
Esse foi o momento que eu percebi que a tolerância à dor dela era menor que minhas expectativas. Por isso que eu não a machuquei fisicamente, ela não aguentava.
Qual era a graça disso se ela gritasse antes que eu pudesse realmente fazer alguma coisa? Ela não aguentava. Dor física a acabaria muito facilmente e todos os meus meses de espera iriam pro lixo.
Que decepção.
“Eileen, não chore. Vai passar.” Eu suspirei em frustração, esfregando minhas têmporas, ouvindo-a soluçar pelos últimos dez minutos, repetindo a mesma coisa.
Ela estava me enfurecendo agora por uma picada.
“Me desculpa, eu não queria te incomodar. Mas, por favor, não desligue a chamada. Me ajude a desviar minha mente.” Ela fungou, abafando o gemido, felizmente.
Murmurando, eu mantive uma cara impassível, “Você devia ter assistido.”
“Eu assisti. Eu não sei como escapou.” Ela argumentou.
“É isso, você não vai pra cozinha sem supervisão de novo.” Eu ordenei, não querendo que ela se machucasse de novo por tentar fazer algo que não ia me impressionar em primeiro lugar.
“Ei, foi um acidente.” Ela argumentou.
“Ah, sério? Não se preocupe, mulher. Eu tenho cozinheiros.” Eu sorri, irritando-a deliberadamente.
“Ok, eu posso não ser tão boa quanto eles, mas pelo menos não vai ser intragável.” Ela franziu a testa, irritada.
“Na verdade, sabe de uma coisa? Eu comeria veneno se você fizesse pra mim.” Suspirando, eu disse para animá-la, o que funcionou instantaneamente. Nesses meses, eu sabia o que dizer para deixá-la feliz.
A mente dela desviada, focada nas minhas conversas do que na dor no pé dela, conversando comigo e antes que nós dois percebêssemos, era tarde demais.
Eu estava deitado na minha cama, olhando pro teto conversando com ela sem me importar com o tempo ou exaustão.
“Obrigada, Sebastian por ouvir minhas besteiras inúteis. Por aguentar uma pirralha como eu. Mas, está ficando tarde. Eu não acho que eu deveria te manter acordado tão tarde. Você tem trabalho amanhã também.” Ela sussurrou docemente.
“E se eu quiser que você me mantenha acordado?” Eu perguntei, fechando meus olhos.
“O que você quer dizer?”
“Eu costumo ter pesadelos e insônia. Então eu não conseguia dormir direito em primeiro lugar.”
Ela riu um pouco, fazendo uma declaração na qual eu não confiei no começo, “Não se preocupe, quando eu for, eu vou levar embora todos esses pesadelos.”
“Você acha que consegue?” Eu perguntei, divertido.
“Eu acredito que vou.” Ela enunciou.
Rindo, eu deixei ela dizer bobagens, eu acreditei que era impossível me trazer de volta à beira da humanidade de novo. Eu sabia que eu era incurável.
Mas… mas aquelas palavras escaparam dos meus lábios sozinhas.
“Então eu vou esperar o dia em que você vai se tornar minha noiva.”
“Será o melhor da minha vida. Eu posso sentir.” Ela riu, mas isso só me fez sorrir pecaminosamente.
A história de fadas de Eileen Lior ia se quebrar no dia em que ela se casasse comigo, porque foi quando o verdadeiro horror começaria.
Com a escuridão me cercando, escondendo minhas intenções de prender minha fada para satisfazer meu desejo mais profundo, eu enunciei também - mas em um sentido totalmente diferente.
“O meu também.”