70- Origem dos Gritos
Com um respeito profundo no meu coração, eu cresci. A vida era linda, maravilhosa. Eu tinha tudo o que um adolescente sonharia. Eu tava vivendo a vida dos sonhos como um cara normal.
Antes de perceber, anos se passaram e eu tinha dezesseis. Era tudo diversão e jogos, mas eu tinha um sonho.
Superar Valencia.
Um desejo cuja profundidade eu desconhecia. Eu não conseguia entender a intensidade disso.
Mas, um dia, fui mostrar pro Pai meu resultado, no qual obviamente passei, e ouvi eles conversando.
"Eu não queria tirar a adolescência dele, Melissa. Mas, a admiração dele por Valencia me mostrou um caminho."
Intrigado, parei pra ouvir o que eles estavam falando.
"Que caminho, Albert?"
"O reinado de Valencia provou que pode haver um Rei e, a julgar pela empolgação de Sebastian, ele seguiria de bom grado os passos dela para tomar o trono."
Meus olhos se arregalaram, não esperando que o Pai reconhecesse meu desejo finalmente.
"Então você quer que Sebastian… ?"
"Sim. Se treinado bem, Sebastian poderia tomar o trono do submundo e se tornar seu Rei."
Eu quase engasguei, cobrindo a boca com felicidade. Animado ao extremo pra ouvir isso.
"E os outros? Eles não tentariam?" Mamã perguntou, preocupada com tudo o que eu podia ver o que o cargo do meu ideal tinha.
Eu era honestamente ingênuo, alheio à sujeira do mundo.
"Nós não, mas não havia promessa da geração futura. Nathaniel não presta pra nada. Sufiyan também não serve, ele é da legião mais fraca. Sobraram Sebastian e Zaviyaar e eu conheço meu filho, ele pode fazer isso."
Eu podia sentir meu peito transbordando de encorajamento. Minha confiança aumentou ao ouvir a quantidade de confiança que o Pai tinha em mim.
"Você tem… Certeza? Deveríamos esperar pelo menos até ele ter dezoito? Eu sei que ele queria, mas querer e ter são duas coisas diferentes. Ele consegue aguentar isso?" Mamã perguntou, falando o que eu não podia esquecer. Como eu costumava ser e o que me tornei eram completamente diferentes -
'Nosso filho não consegue machucar uma borboleta, suas mãos tremem. Machucar um humano de verdade é demais. Sebastian não consegue machucar ninguém.'
Ao que o Pai respondeu impassível: "Ele precisa."
Descartei a preocupação dela. Eu achava que estava pronto, eu achava que conseguia.
Minha animação suprimiu todas as minhas outras emoções, e minha determinação dominou outros fatores.
Respirando fundo, entrei no quarto deles, com a determinação estampada em meus traços.
"Sinto muito por ouvir suas conversas, Pai, mas não se preocupe, eu não vou te decepcionar. Eu vou assumir o cargo que Valencia ocupava." Eu enunciei, sorrindo, ofegando com o pensamento disso.
Mãe e Pai se olharam em espanto e retribuíram com um sorriso doce, me abraçando. Eles estavam orgulhosos de mim. Eu tinha fé em mim mesmo.
Pai sorriu, batendo na minha cabeça com orgulho, "Eu sei que você consegue, Filho."
Depois de conversar com meus pais, fui até Ruben. Ele estava estudando para a prova, mas eu corri e não consegui usar os freios e acabei esbarrando em Ruben.
Eu estava com muita energia.
'Ai, o que?" Ruben franziu a testa, mas sorrindo loucamente, segurei seus braços, chocando-o.
'O quê? A Vinnie disse sim para o encontro?" Ele perguntou, analisando a alegria no meu rosto.
"Não! O Pai está me levando com ele, Ruben. Estou tão feliz!" Rindo, eu contei a ele, mal controlando minha felicidade.
"Você pode me contar o que acontece lá? Ouvi dizer que eles batem nos caras lá. Até matam eles." Ele perguntou, quase preocupado, mas minha felicidade não me permitia pensar de outra forma.
"Ah, por que eu mataria alguém? Não se preocupe, deve ser a forma de trabalho. Não sujamos as mãos, temos pessoas pra isso."
Rindo, balancei a cabeça, me afastando e sentando na cama dele. Minha percepção era que iríamos ficar no topo e deixar os outros fazerem o trabalho. Eu estava errado.
"Espero poder ser como você e me tornar útil. Eu não consigo fazer nada." Ele suspirou, colocando o livro de volta.
"Você não precisa, Ruben. Eu posso trabalhar no seu lugar também." Eu gargalhei, levando suas palavras na brincadeira, ignorando suas conversas.
'Você realiza seus sonhos. Viva como quiser. Você não precisa seguir nossos passos. Então, mesmo que eles machuquem as pessoas, você não precisa machucar ninguém. Eu trabalharia pra você também.'
Sorrindo, mostrei a ele um joinha pra ficar tranquilo e dar o peso das responsabilidades dele também. Sempre que me lembro dos velhos tempos, não consigo reconhecer essa pessoa.
Era eu.
Muitos sorrisos. Eu sorria demais.
"Sério?" O rosto de Ruben brilhou ao ouvir isso, enquanto eu concordava, "Sim."
"Okay!"
Na semana seguinte, o Pai me levou com ele.
Eu esperava que ele me levasse ao local de trabalho dele para mostrar como lidamos com o trabalho e a camada inferior, mas, em vez disso, ele me levou a um esconderijo.
Estava escuro, sombrio. Não era nada como eu imaginava. As coisas estavam sombrias, uma atmosfera estranha de miséria se espalhava por toda parte.
Eu sabia que éramos pessoas más, sabia que não estávamos entre os justificados, mas o cheiro de horror me deu um lembrete severo de que as coisas não eram como eu imaginava.
"Sebastian. Hoje, você vai dar um passo importante na vida. Um caminho sem volta." O Pai começou a dizer, mas eu estava muito absorto no lugar ao meu redor.
"Será um caminho difícil. Quanto mais fundo você mergulhar, mais escuro ficará. Você está pronto para isso?" Ele perguntou, parando no lugar, olhando por cima do ombro quando paramos do lado de fora de uma porta.
Engolindo em seco, tentei agir com coragem e concordei, "Sim, Pai."
"Então, venha comigo." Empurrando a porta, ele me levou para algum lugar.
Descemos as escadas, havia outra porta e, no momento em que ele a abriu, um grito chegou aos meus ouvidos.
Ofegando, meus passos congelaram, mas o grito doloroso veio, mas o Pai me levou para dentro e fechou a porta rapidamente.
Eles estavam torturando um homem que estava gritando constantemente de dor. O lugar tinha um cheiro de morte, enojado, meus passos tropeçaram quando cobri minha boca com a quantidade de sangue.
"Q-o que eles estão fazendo? Ele está gritando." Eu engasguei, tentando não vomitar com esse cheiro repugnante, não conseguindo ignorar os gritos, ecoando em minha mente.
"A dor é a lição mais importante, Sebastian. Ela grava o medo, o componente mais importante da governança. Lembra do que Valencia disse? Não é respeito, é medo."
'Mas- Mas…"
Eu quase chorei, cobrindo meus ouvidos, virando a cabeça. Ofegando em busca de ar enquanto minha cabeça latejava muito. Uma picada insuportável viajou em minha mente.
Minha cabeça doía muito.
"Você não queria seguir os passos de Valencia? Então suporte o som disso."
Rosnando, o Pai removeu minhas mãos com força, me forçando a ouvir o som de seus gritos, sua angústia. A clareza do som evocou uma lágrima.
"Pare com os gritos dele, Pai… Eles estão fazendo minha cabeça doer. Minha cabeça está doendo tanto." Eu sussurrei, puxando sua camisa, mas ele não ouviu.
Se eu tivesse parado naquela época, eu poderia não ter – deixe pra lá.
"Não. Você deve suportar isso. Você deve superar todos eles." Ele ordenou, me fazendo ouvir e eu consegui aguentar. Eu não sabia que o Pai me colocaria logo de cara.
Eu pensei que íamos dar passos de bebê, não entrar logo no negócio.
"Ele está gritando tão alto, Pai, faça parar… Por favor…"
Soluçando, tentei me afastar, incapaz de suportar como eles estavam impiedosamente o esfaqueando, fazendo-o sangrar.
O grito transformou minha mente em uma confusão, a voz estrondosa inebriou minha mente a ponto de eu ficar impotente para ouvir qualquer outra coisa.
'Por favor, Pai…" Sussurrando, eu implorei e, com um rosto inalterado, lembrando as palavras da Mãe.
Ela estava certa, afinal. Eu deveria ter esperado, eu não estava pronto. Eu não conseguia suportar o sangue ou a miséria.
"Então, termine as respirações dele para impedi-lo."
Ordenando, o Pai me deu a arma e minhas mãos trêmulas estavam fracas demais para segurá-la, então eu derrubei a arma.
"Não me olhe assim, vá em frente e faça isso." Pai franziu a testa, me deixando. Eu olhei para ele com descrença, horrorizado.
"Eu não consigo…" Balançando a cabeça, eu recusei.
"Você não queria-"
Fechando meus olhos, eu chorei, recusando-me a tirar uma vida. Aquele momento quebrou meus sonhos, rasgou minha determinação, eu fiquei sem rumo.
Quando a realização do derramamento de sangue que eu devo causar para adquirir essa posição - Isso me parou.