70.3- Origem dos Gritos
“Que porra tá acontecendo com você?!” Rosnando, ele sacudiu meus braços com força, me fazendo engasgar, mas eu não sabia o que tinha acontecido pra saber.
Eu sabia que estava errado, mas também não conseguia parar.
“Por que ele não está gritando direito?!” Eu gritei, tentando bater nele de novo, para fazê-lo gritar, “Grita, porra!”
“Levem ele!” Papai ordenou, enquanto os seus homens começavam a me levar. Eu não conseguia entender o porquê. Ele queria que eu fizesse aquilo e agora eu o obedeci, ele não queria.
Eles me levaram para o escritório dele. Eu sentei ali em silêncio com pensamentos indesejados afligindo minha capacidade de pensar e eu também não conseguia parar.
Minhas expressões não mudaram, tudo o que eu queria era ouvi-lo. O som fraco dele me dava um embalo, eu queria ouvir mais daquilo, mas Papai não deixou.
Fui puxado dos meus pensamentos quando a porta bateu e Papai veio, “Que porra -”
E eu perguntei imediatamente quando ele veio, curiosidade pingando das minhas palavras, “Como alguém se sentiria se sua pele fosse removida?”
“Chega. Você não vai vir aqui nunca mais. A última coisa que eu queria criar é um monstro. Foda-se seu sonho.” Rosnando, ele bateu com a mão na mesa, apontando o dedo para mim.
“Somos todos monstros, Papai?” Eu perguntei nonchalantemente, encolhendo os ombros.
Suspirando, ele sentou ao meu lado, pegando minhas mãos com carinho e beijando-as, “Para, Sebastian, por favor. Ok, eu sinto muito. Pare de punir seu Pai assim.”
'Eu não vou te forçar de novo, pare com essa brincadeira agora. Você está brincando como sempre, certo? Você só está brincando para me irritar, não é?'
E eu não sabia por que, mas ele acabou chorando enquanto segurava minhas mãos, mas eu não mostrei nenhuma reação.
Eu estava parado, congelado.
Tirar uma vida foi muito mais difícil do que eu imaginava, roubou minhas emoções básicas e me deixou com seus gritos, sangue e pesadelos.
“Eu não consigo dormir no meu quarto. Posso dormir com vocês?” Eu não conseguia mais dormir.
Um garoto de dezesseis anos estava dormindo entre seus pais.
“Claro. Vem cá. Quer que eu cante uma canção de ninar?” Mamãe sorriu, me abraçando forte.
“Humhum.”
Mas, eu não conseguia ouvir, ela estava sussurrando algo no meu ouvido, mas eu ouvi o tiro de novo.
“Canta, Mãe. Eu não consigo te ouvir.” Sussurrando, eu cutuquei sua bochecha, impotente para suportar essa minha condição, ela acabou chorando enquanto me abraçava forte.
“Por que você está chorando?” Eu perguntei, franzindo a testa, odiando suas lágrimas, mas ela sorriu e as enxugou, beijando o topo da minha cabeça.
“Não é nada. Durma.”
Mas eu também não encontrei consolo em seu abraço.
Os pesadelos me seguiram por toda parte, eles não podiam ser parados. Eles começaram a me dominar, eu não conseguia parar.
Minha condição estava piorando.
“Parem ele! Pai, pare ele!! Está muito alto!!”
Gritando, eu comecei a bater cegamente ao meu redor, mas Mamãe me abraçou com força.
“Ei, ei, não tem nada. Está tudo bem.” Ela sussurrou, me segurando forte para que eu não me movesse enquanto eu começava a chorar alto, segurando-a desesperadamente.
“Tem muito sangue…!!”
Eu solucei, escondendo meu rosto em seu abraço, impotente para impedir o que estava acontecendo, fechar os olhos se tornou infernal para mim.
“Não há sangue, amor. Está tudo bem. Foi só um pesadelo…” Cantarolando, ela continuou a me consolar pelo resto da noite.
Por inúmeras noites ela ficou acordada comigo, contando histórias, conversando comigo, estando comigo até eu adormecer.
Ela é minha mãe, afinal. Como ela poderia deixar seu filho para trás?
Mas, foi assim que minha insônia começou. Começou de uma vez por semana a um impedimento frequente, rasgando meu sono.
Eu parei de ir para a minha escola.
Eu parei de falar, de encontrar meus amigos. Eu parei minha vida em um ponto. Foi uma fase que não estava passando.
“Sebastian? Você está bem?” Ruben perguntou, ficando comigo porque eu não conseguia dormir.
Eu estava deitado na cama, olhando para o teto, movendo minha mão no meio para bloquear a visão.
“Mamãe disse que não era nada. É só minha imaginação. Você consegue ver o sangue no meu dedo?” Eu perguntei, virando-me para ele, mostrando minha mão.
“Não. Tem algum?” Inclinando a cabeça, ele sentou ao meu lado, checando minha mão.
“Por que não está chegando em você? Está bem aqui.”
Franzindo a testa, eu me sentei, tocando meu dedo indicador com o dela para manchar seus dedos como os meus também, mas em vão.
Eu tentei com a Eileen no começo também, mas sempre terminava em fracasso.
'Toque nele, porra.'
Rosnando, eu pressionei meu dedo com mais força, mas o sangue foi entalhado em meus dedos, não estava saindo. Ele estava gritando de novo.
“Você também não consegue ouvi-los?” Eu perguntei desesperadamente, perdendo o fôlego quando minhas batidas cardíacas caíram em pavor, acompanhadas por um grito que eu não conseguia parar.
“Ouvir o quê? Sebastian, você está me assustando. Não tem nada.” Sussurrando, Ruben tentou se afastar, mas eu segurei seus braços, tendo um brilho de esperança.
Uma ideia terrível passou pela minha cabeça.
“Grite e você também ouvirá.”
“Q-O quê?”
Seus olhos se arregalaram de horror, tentando se afastar de mim, mas eu não deixei. Eu queria que meu Irmão ouvisse e visse o que eu fiz.
“Vá em frente e grite, Ruben.”
Respirando, meu aperto se intensificou e aterrorizado com meu sorriso histérico, ele me empurrou e tentou fugir, mas eu agarrei sua camisa e o joguei no chão.
'Sebastian, não...' Ele começou a soluçar, assustado com seu próprio irmão, tentando me afastar. Confirmando que meu estado mental havia atingido um ponto obscuro.
'Ei, vai sumir antes que você perceba. Apenas libere sua voz.” Eu ri sombriamente, pegando uma caneta próxima, subindo em cima dele.
'Sebastian, não!' Ele gritou, mas não foi o suficiente. Incapaz de ouvir seus apelos adequadamente, eu queria mais daquilo. Eu desejava a voz do meu irmão.
'Ei, está tudo bem.” Sorrindo, eu me inclinei mais perto. Seus olhos se arregalaram em apreensão, tentando me impedir, mas meu corpo perdeu o controle, eu não consegui parar.
E antes que eles pudessem estender as mãos para a terapia - Era tarde demais.
Meu estado atingiu o ponto sem volta.
Eu me tornei um monstro.
'GRITE!'
'Não, não, não… AHH!! SEBASTIAN!!!'