38.2- Cuide-se
No dia seguinte, eu tava me sentindo beeem melhor. Não sei que feitiço aquela médica botou no meu remédio, mas eu tava leve, diferente de ontem que eu tava uma pilha de choro.
Depois do café da manhã, tomei meu remédio e fiquei no meu quarto. Papá veio me ver com Sebastian.
"Como você tá se sentindo agora, Amor?" Papá perguntou docemente, beijando o topo da minha cabeça.
"Melhor." Sorri, pegando a mão dele, segurando firme, não querendo soltar.
"Bom. Sebastian, acho que Eileen devia ir pra casa. Desde o casamento dela, ela não teve chance de ficar com a gente nem um pouco." Papá falou do nada e o olhar de surpresa nos olhos de Sebastian me disse que ele não tinha gostado nada disso.
"Eu entendo, mas ela tá doente agora." Sebastian disse, limpando a garganta e recuperando a postura.
"Eu sei, mas Eileen quer ir também e eu acredito que ela é minha filha primeiro e eu posso cuidar dela." Papá falou firme, cruzando os braços, decidido a me levar, mas pelo menos assim, eu podia respirar livremente também. Eu quero ir pra casa também.
"Sério, Eileen?" Sebastian perguntou, me encarando pra eu não ir. Minha respiração falhou, mas Papá entrou no meio.
"Claro, Sebastian. Eu me pergunto que feitiço você jogou na minha filha. Ela não conseguia ficar longe de mim por uma semana e agora, ela não tá em casa há meses!" Ele reclamou, determinado a me levar, não importa o quê.
"Você esqueceu do seu Papá, hmm?" Ele perguntou, se virando pra mim, mas eu fiquei quieta. Duvido que Sebastian me deixasse ir.
"Não é nada disso. A gente faz visitas quase todo fim de semana, mas deixar Eileen ficar é bem difícil pra mim." Sebastian falou, pedindo desculpas, com um suspiro.
"Por que é isso?" Papá perguntou, não gostando do motivo.
"Eu não consigo dormir mais sem ela." Sebastian murmurou e eu duvido que seja verdade. Ele é um mestre da manipulação, afinal.
"Essas palavras não vão funcionar comigo. Eu também já estive no seu lugar." Papá zombou, felizmente sem ouvir nada.
"Diz pra alguém arrumar as coisas dela. Ela vai ficar com a gente agora pelo resto da semana - ou mês, como Eileen quiser -" Papá declarou, trazendo um sorriso desconhecido pro meu rosto.
Ah, como seria bom voltar pra minha casa, pro meu quarto. Na casa onde eu não preciso ter medo das paredes, onde eu não vou precisar ter pavor.
"Senhor -" Sebastian tentou falar firme, mas Papá botou a mão no ar pra pará-lo. Meu coração deu um pulo com a atitude dele. Juro que se fosse outra pessoa, ele teria quebrado a própria mão que ousou pará-lo.
"E você não vai dizer nada, entendeu?" Papá anunciou, se recusando a ouvir qualquer coisa e me levar.
"Sim." Ele suspirou, apertando a ponte do nariz, mas eu podia sentir a aura furiosa emanando dele. Eu podia sentir a apreensão sob minha pele de que ele ia descontar a raiva do Papá em mim.
"Vem, Eileen." Papá disse rigorosamente, saindo do quarto, nos deixando sozinhos pra chamar alguém pra arrumar minhas coisas.
Mas, no breve momento em que ficamos sozinhos. Sebastian veio até mim e agarrou meu braço com força, me fazendo soltar um grito de dor quando ele me forçou a ficar de pé.
"Você contou alguma coisa pro seu Pai?" Ele rosnou, ressentindo a ideia de eu ir embora.
Por favor, não me assuste mais.
"Não. Eu não falei nada, ele só começou a falar sobre eu ir do nada. Eu não fiz nada dessa vez." Sussurrei apressadamente com a voz rouca.
"Juro que não," Eu estava tremendo quando ele me segurou com força, induzindo o medo que diminuiu nas últimas vezes com força.
"É melhor você estar em casa nos próximos dois dias, entendeu?" Ele avisou, me encarando. A intensidade do olhar dele prendeu minha respiração, cutucando uma lágrima no canto dos meus olhos.
"Mas, eu quero ficar... Por favor." Sussurrei, estreitando meus olhos, esperando que ele poupasse qualquer reconhecimento e me deixasse ter uma trégua desse pesadelo.
"Eu gasto todos os meus fins de semana só pra te levar lá, isso não é suficiente pra você? Fique feliz que eu tô te deixando ver eles em primeiro lugar." Ele sibilou num sussurro, com a mandíbula travada. Gravando o medo em mim pra garantir que eu o obedeça sem resistência.
"Sebastian -" Tentei chamá-lo em um tom quebrado, mas a pegada dele se apertou, ele nunca deixaria sua preciosa presa longe dele por um momento.
Ele precisa de mim e do meu medo pra alimentar sua instabilidade.
"Eu quero você em casa em dois dias. Isso está entendido?" Ele enunciou, com expressões torcidas em pura ira que me dominou e, abaixando meus olhos, enxuguei a lágrima no canto.
"Ok." Eu chorei baixinho, tentando não chorar, fazendo ele soltar meu braço finalmente.
"Hmm. Boa garota." Cantarolando friamente, ele revirou os olhos, descansando as mãos nos bolsos.
Sentando de volta na cama, eu mexi meus dedos em volta do meu vestido. Olhando pra ele, de volta pra sua postura dominante.
"Sebastian..." Chamei ele, engolindo em seco.
"Posso te perguntar uma coisa?" Perguntei vagamente, tensa com a declaração que viria.
"O quê?" Ele perguntou, fazendo um sinal pra eu continuar.
"Por que você quer que eu esteja em casa tão cedo?" Perguntei, preocupada com a resposta.
"Eu não confio na sua língua." Ele zombou, dando um passo pra trás. Abri a boca pra convencê-lo de que eu ia só deixar eu ficar mais tempo, mas ele falou outra coisa que engoliu meus pensamentos no meio do caminho.
"Além disso, eu não consigo dormir mais sem você." Meus olhos se arregalaram, eu não esperava que ele estivesse falando a verdade, mas a pergunta era: Por quê?
Era porque ele precisa da minha dose diária de medo ou só precisa de mim...?
"O quê?" Perguntei, pensando que ouvi errado, mas eu sabia que ouvi certo. Eu queria que ele dissesse de novo.
"O que você disse?" Diga como essa mera presa pôde roubar sua capacidade de dormir? Diga que você precisa de mim.
Diga o que você não pode.
"Nada." Ele murmurou, com os lábios curvados pra baixo. Ele estava vivendo em emoções mistas de confusão e sentimentos. Era claro no rosto dele. Tinha algo que ele definitivamente queria dizer, mas não disse.
E antes que eu pudesse explorar aqueles olhares insondáveis mais, Papá veio com.
"Vamos, Amor. Deixa a arrumação. Sua mamãe disse que seu quarto tem tudo o que você precisa." Ele chamou feliz.
"Ok, me dá uns minutinhos," Concordei feliz e Sebastian percebeu minha alegria também. Ele estreitou os olhos, mas não disse nada.
"Ok, eu tô te esperando lá embaixo." Papá sorriu.
Levantando pra sair, pegando meu celular e coisas necessárias. Sebastian ficou de pé, ele estava pronto pra sair pro trabalho, mas não estava. Apenas de pé no meio, me observando preparar minha bolsa.
Eu não ousei encontrar os olhos de Sebastian, mas podia sentir seus olhos profundos ligados a mim, ligados de perto esperando contemplar algo além de sua compreensão.
Pegando minha bolsa, prendi meu cabelo num coque bagunçado, sem clima pra me arrumar. Eu ainda estava doente e cansada. Eu não estava com vontade de trocar de roupa.
Eu estava prestes a sair do quarto sem dizer adeus pra Sebastian com uma carranca, mas ele segurou meu braço, me puxando de volta pra perto do peito dele.
"Eileen." Ele me chamou dominantemente, me puxando pra ele. Meu coração acelerou instantaneamente. Eu engasguei, finalmente levantando meus olhos inquietos pra colidir com os dele. Ele segurou meu queixo, fechando os olhos.
"Sebas -" Eu estava prestes a perguntar o que tomou conta dele, mas ele se inclinou. Pressionando os lábios nos meus, me beijando ternamente, com carinho, me chocando.
Eu estava atordoada, incapaz de reagir enquanto ele movia os lábios lentamente sobre os meus, gravando uma sensação estranhamente satisfatória. Me beijando brevemente, enrijecendo meu corpo com sua ação imprevista.
Por que você não pode ser assim pra sempre? Pensei, fechando os olhos pra sentir a sensação dos lábios dele nos meus, mas, infelizmente, antes que eu pudesse me entregar a isso ou beijá-lo de volta, ele se afastou.
Eu estava ofegante pesadamente, corando furiosamente por causa de sua ação imprevisível. Sem fôlego, tentando registrar o que aconteceu, mas ele pegou minha mão, nos levando pra fora.
Ele manteve seu rosto estoico enquanto eu estava queimando loucamente por dentro com uma sensação estranha que ele conseguiu me dar. Me dando sinais mistos. O que estava acontecendo com ele? Uma hora todo furioso e carinhoso na outra.
"Vamos." Papá disse. Lambendo meus lábios timidamente, coloquei meu cabelo atrás da orelha envergonhada.
"Tchau." Sussurrei fracamente, quase inaudível, pegando a mão do Papá.
"Cuide-se." Ele sussurrou com emoções profundas, me surpreendendo quando saímos pra minha casa, mas eu só tinha uma pergunta rondando minha mente, perturbando-a.
Você realmente quis dizer isso ou não?