17 - A agenda profana
A bochecha e o lábio do **Lyle** estão super inchados. A **Chloé** se inclina e dá um beijinho de leve na testa dele e pega na mão dele.
"**Lyle**, meu Homem de Ferro, você é um milagre ambulante! A **Ronnie**, o **Leo** e a **Hayley** estão esperando no corredor. Eles querem nos dar um tempinho a sós e, quando você estiver bem, eu chamo eles."
Os olhos dele estão cheios de lágrimas. "**Chloé**, a gente ficou pendurado no penhasco a noite toda, olhando pro abismo sem fim. Eu agradeci que a mamãe tava desacordada. O frio tava terrível e a dor não passava nunca. Eu achei que a gente ia morrer ali, porque ninguém ia procurar a gente e salvar a gente. Eu tive que ficar parado, sem me mexer, no cinto de segurança, porque qualquer movimento ameaçava a gente escapar e cair pra morrer. Eu só queria desistir e tentar sair do carro destruído, quando eu ouvi o eco da sua voz. Primeiro, achei que era coisa da minha cabeça, mas depois ouvi de novo. Obrigado, **Chloé**; muito, muito obrigado por ter procurado a gente e por ter gritado lá do penhasco. Enquanto eu viver, nunca vou esquecer o que você fez! Você acha que minha mãe vai se recuperar?"
A **Chloé** simplesmente ignora os olhares das pessoas que estão vendo o cara do lado do **Lyle**. As lágrimas escorrem soltas pelas bochechas dela e ela nem tenta enxugá-las. Ela só segura a mão dele na mão dela, como se fosse uma joia viva, e isso dá uma sensação quentinha lá no fundo.
"Vocês dois sobreviveram até agora, **Lyle**. Ela sobreviveu a uma cirurgia difícil, né? Eu tenho muita esperança que ela vai aguentar firme e perseverar pelo seu Homem de Ferro. A gente te ama muito, meu querido! O médico acha que pode demorar um pouco pra ela abrir os olhos e a gente só pode torcer e rezar, **Lyle**."
"Não foi um acidente, **Chloé**."
O **Lyle** pegou ela de surpresa, do nada, e ela tá com medo de não ter ouvido direito.
"O que você tá dizendo, **Lyle**, eu não entendi...?"
"Não foi acidente."
"Como assim, **Lyle**?"
"Um caminhão monstro nos empurrou pra fora."
Ainda não faz sentido pra ela: "**Lyle**, será que é o trauma que tá pregando peças na sua imaginação?"
"Eu lembro de tudo como se fosse ontem! Eu pensei e juntei tudo o que aconteceu, **Chloé**. Alguém tentou nos matar, empurrando a gente de propósito. Fomos seguidos no caminho pra serra. Primeiro, foi um caminhão com dois caras atrás que seguiu de perto e passou a gente na hora certa, só pra nos parar, como se estivessem regulando o trânsito na serra. Depois, fomos seguidos por um monstro de caminhão, com para-choque de boi, rodas gigantes e um motor muito potente."
"A mamãe queria que ele passasse a gente, mas ele ficou colado na gente e agora eu percebi que eles se certificaram de que não tinha trânsito na serra, porque quando a gente saiu da curva fechada no topo, essa coisa veio pra cima da gente, bateu na gente por trás e nos empurrou ladeira abaixo e pra fora. Foi tudo planejado antes. **Chloé**, alguém queria nos matar!"
A **Chloé** agora pensa em quando ela viu as marcas de freio. Parecia estranho, mas ela não tinha percebido o porquê. Agora ela percebe que as marcas vão até lá de cima, descendo a ladeira até onde eles caíram.
Como se ele estivesse lendo os pensamentos dela, o **Lyle** continua: "A mamãe tentou frear, mas aquela coisa nos empurrou cada vez mais rápido e a gente escorregava de um lado pro outro e ela teve que aliviar um pouco a pressão no freio pra ter um pouco de controle. Aquela coisa monstruosa, poderosa, com vidros escuros, deixou a gente passar fácil pela mureta e cair no penhasco."
A descrição dele do que aconteceu agora faz todo sentido: aquelas marcas que descem sem parar pela ladeira, em alguns lugares mais claras e em outros mais escuras.
Não é coisa da cabeça dele!
"**Chloé**, alguém tentou nos matar! Você tem que acreditar em mim! Não é coisa da minha cabeça!"
A **Chloé** aperta a mão dele com carinho. "Eu acredito em você, **Lyle**. Aquelas marcas de freio me pareceram estranhas quando eu vi, mas eu não tinha percebido o porquê. Sua descrição é a única explicação pra isso. Relaxa, eu acredito em você, meu querido."
"Obrigado, **Chloé**, eu não tinha certeza se alguém ia acreditar em mim. Eu acho que foi o **Quinn**, **Chloé**."
Ela fica chocada. "Como assim, **Lyle**! Não, seu pai pode estar de mau humor, mas eu não acho que ele faria isso."
"**Chloé**, eu ouvi muita coisa quando eles brigavam, porque a mamãe cobrava ele por várias coisas. Ela sabia que ele tem parceiros no submundo, que lavam dinheiro através do comércio de carros. Ele gastou o dinheiro deles com jogos e tá devendo pra gente muito perigosa e isso deixava minha mãe sempre preocupada. Eu acho que essas pessoas agora estão ameaçando ele e ele tá precisando muito de grana e por isso ele queria um empréstimo do vovô, o **Tony**. Por isso a mamãe queria se divorciar dele. Ele ameaçou ela na lata que ia se livrar da gente se ela não ajudasse ele, porque aí ele ia ficar com a nossa parte da fazenda."
A **Chloé** fica de queixo caído. "Ele falou isso mesmo, **Lyle**? Sabe, em uma discussão acalorada, as pessoas falam coisas que não querem dizer de verdade. Que pena, você passou por tanta tensão por causa das besteiras dele, mas eu realmente não sei se ele iria tão longe."
"Foi o plano dele, **Chloé**. Por que fugir da fazenda logo antes da gente ter que passar pela serra? Eu acho que ele planejou tudo direitinho. Foi a oportunidade de ouro dele, porque ia parecer um acidente. Claro, ele pediu ajuda pras pessoas que ele deve. Eu acho que ele ia cancelar os planos no último momento se o vovô emprestasse o dinheiro pra ele. Quando a mamãe impediu ele, ele decidiu que só tinha um jeito. Eu acho que ele tava desesperado."
"**Lyle**, como você pensa em tudo isso? Foi uma experiência terrível e eu acho que sua cabeça tá trabalhando demais. A gente tem que ir na polícia e pedir ajuda pra saber a verdade."
"Onde tá meu pai agora, **Chloé**?"
"Eu não sei, **Lyle**."
"Exatamente, ele tá se escondendo agora."
"**Lyle**, eu tô chocada e sei que a gente precisa de ajuda. Posso ir falar com eles que estão esperando no corredor?"
"Não. **Chloé**, pensa em tudo o que eu te falei. A gente pode conversar amanhã sobre o que vamos fazer, por favor. Eu tô com medo que eles achem que eu tô louco!"
A **Chloé** sorri. "Ok. O médico quer te dar alta amanhã. Eu vou te buscar e você pode ficar comigo por enquanto. Eu só tô preocupada com a escola, porque você ficou pra trás. Seu avô sempre foi sério com os seus estudos, pra você estar bem preparado pra assumir a fazenda quando chegar a hora."
"**Chloé**, eu prefiro voltar pra escola amanhã, se você prometer vir me buscar no momento em que minha mãe abrir os olhos, por favor."
"Esse é um bom plano, **Lyle**. Mas primeiro eu quero te levar nas lojas pra você repor tudo o que você perdeu antes de te levar. Eu preciso te contar rapidinho: o diretor da sua escola e o genro dele ajudaram a te salvar do penhasco. Eu vou levar presentes pra eles dois e vou agradecer pessoalmente ao **Richard** quando a gente chegar na sua escola."
Ela dá uma olhada na sacola com guloseimas na mesa de cabeceira dele.
"Enquanto isso, aproveita seu refrigerante, biltong e batata frita e para de se preocupar com o que aconteceu. A **Chloé** vai resolver tudo, ok. Isso ficou no passado e você e a **Zoey** só precisam se concentrar em ficar mais fortes. Posso ir agora buscar a galera no corredor? Eles estão ansiosos pra te ver."
"Ok, mas por favor, guarda nosso segredo."