Capítulo Oitenta e Seis - O Desafio - Ponto de Vista de Damian Blackwood
Eu me levanto da cama devagar, pra não acordá-la, e olho pros dois ali na porta.
Nenhum dos dois parece feliz de estar aqui, e eu não faço ideia do porquê. Enquanto eu ando sorrateiramente pelo chão, os dois continuam me encarando. Aí o Simon muda o olhar pra cama, tipo alguma coisa piscando no olhar dele.
Tão logo eu chego perto o bastante, eu passo por eles, pegando na maçaneta na saída e fechando a porta devagarinho.
'Devo falar bom dia ou o quê?' Eu pergunto, meu tom sarcástico.
'Bem, acho que é um bom dia pra você,' Simon sussurra. 'Você tá com ela dormindo na sua cama.'
'Tá nos levando mais perto de acabar com essa profecia desgraçada,' Evelyn rosna pra ele. 'Cala a boca e fala pra ele o que você precisa fazer.'
Eu olho pra ela, percebendo o monte de cabelo grisalho e como o sono ainda tá grudado nos olhos dela. 'Ele te acordou?'
'Sim, e não. Eu vim aqui pra ver vocês dois, só pra achar ele prestes a invadir como um louco. O idiota.'
A Evelyn dá um olhar direto pra ele, como se fosse bater nele.
O olhar do Simon muda pro lado, estudando ela. 'É importante senão eu não teria invadido.'
'Bem, o que é?' Eu pergunto, meu tom exigente.
'É a Luce. A Tiffany tá fazendo o melhor que pode pra impedir ela de perder a cabeça, mas tá feio. Ela tá brava.'
'Quando ela não tá?' Eu pergunto, zombando. 'Ela tá sempre chateada com alguma coisa.'
'Não, você não entendeu. Ela não acha que a Maya serve pra ser Luna e quer lançar um desafio. Você sabe que isso não pode acontecer.'
A Evelyn faz um som entre um gemido e um rosnado, arrastando uma mão pelo rosto. 'Aquela mulher tá pedindo outra rodada comigo. Eu vou cuidar disso. Ela tem uma cabeça mais dura que um carvalho de casca prateada, e duas vezes o veneno.'
Eu coço as têmporas, o peso de tudo pressionando de todos os lados. 'Por que agora? A gente não teve tempo pra respirar com tudo acontecendo, e eu acabei de fazer a Maya confiar mais em mim. Ela mal está aguentando, e agora a Luce quer colocar mais lenha na fogueira?'
O Simon dá de ombros, a expressão calma. 'Porque ela se sente ameaçada. Você reivindicou a Maya aos olhos da alcateia e depois manteve isso quieto. Eles estão incertos sobre tudo. E agora, eles sabem que ela está na sua cama, o que torna isso mais definitivo. Mas você não mordeu ela, então tá aberto. Você sabe que, se eles acharem que a parceira em potencial do alpha pode ser fraca, eles podem desafiar pra achar uma parceira melhor pra proteger a alcateia.'
'A Maya não pode lutar,' eu digo, mais baixo agora. 'Ela é humana e seria morta.'
'Talvez não,' Evelyn sussurra. 'Ela é mais forte do que pensa e não tá sozinha nisso. Você deu a sua palavra pra ela, e eu dei a minha. Eu vou lutar no lugar dela. Deveria ser permitido por causa das circunstâncias. Se ela quer sangue, eu vou dar sangue pra Luce.'
O Simon cruza os braços no peito, claramente chateado com tudo, mas eu não sei o porquê. 'Você precisa calar isso tudo antes que se torne público com o resto da alcateia. Se ela desafiar, vai dividir a alcateia. Alguns deles começaram a gostar da Maya, porque veem o quanto ela te faz feliz. Mas tem uma parte da alcateia que ama a Luce. Eles vão ficar do lado dela, e assim que um desafio for lançado, não tem como voltar atrás.'
'Eu vou falar com ela,' eu murmuro, a mandíbula travando.
'Não, você vai mais do que falar com ela,' Evelyn corta. 'Você vai lembrar ela quem é o alpha e por que a Maya é importante. Ela não pode morrer ou todos nós estamos condenados. Essa não é hora pra politicagem da alcateia. Se ela forçar a sua mão na frente dos outros, você faz o que for preciso pra garantir que mantém a Maya segura. Ou eu farei.'
O pensamento faz meu estômago revirar. A Maya acabou de começar a aceitar as coisas, então, se a Luce tentar lutar, pode assustá-la.
'Agora, isso se limita a ela e à Tiffany. Ela não vai fazer isso agora. Eu sei como ela pensa. Vai ser no momento que vai causar o maior dano, onde você é forçado a aceitar isso.'
'Claro que vai,' eu murmuro. 'Porque a Luce nunca faz nada sem pensar em duas jogadas à frente pra conseguir o que ela quer.'
A sala de entrada fica em silêncio. Eu pressiono minhas costas contra a porta e olho pra parede oposta do corredor. A Maya ainda tá dormindo em paz pelo que eu posso ouvir, alheia à tempestade que se forma.
'Precisamos manter a Maya segura e acalmar a situação antes que piore.'
O Simon olha pra Evelyn. 'Então eu sugiro que você vá ver ela agora.'
Eu solto um rosnado baixo quando penso em deixar a Maya sozinha e desprotegida. E se a Luce fez isso pra me afastar, e depois atacar enquanto eu não tô aqui?
A Evelyn avança, afastando o cabelo cinza comprido do rosto. 'Eu vou ficar aqui pra defender a Maya. Você sabe que ela está segura comigo.'
Eu olho pra ela, sabendo que ela vai mantê-la segura. Ela lidou com os bandidos e até matou os dois lobos. Eu sei que ela é mais do que capaz, mas ainda odeio deixar a Maya.
'Tudo bem. Eu só vou estar fora por alguns minutos e vou trazer o café da manhã pra ela.'
Com essas palavras ditas, eu saio e vou pelo corredor. Meus passos mal são audíveis contra a madeira quando eu me aproximo do refeitório.
Quando eu entro na sala, o silêncio cai. Todos os olhos em mim e então eu vejo a Luce, parada no canto com a Tiffany.
Tá com um brilho malvado no olho quando ela me analisa. Então algo muda quando a Tiffany puxa a atenção dela pra outro lugar.
Eu não paro de me mover. Em vez disso, vou direto pra ela e paro quando estou a poucos metros de distância.
'O que você acha que está fazendo?' Eu pergunto com um rosnado.
Ela olha pra mim, piscando os olhos como se fosse inocente. 'Eu não sei o que você quer dizer.'
A minha mandíbula trava. 'Não tenta jogar comigo, Luce. Você tem agitado a alcateia. Eu ouvi que você quer lançar um desafio.'
Os lábios dela se curvam em um sorriso que não chega aos olhos. 'É agitar a alcateia, ou simplesmente lembrá-los de que eles merecem uma luna forte? Eles precisam de uma luna que os entenda. Que pertença aqui. Não alguma forasteira frágil sem laços. Ela nem consegue sobreviver no nosso mundo.'
O ar engrossa com tensão. Até o barulho dos talheres silenciou. A Tiffany recua um pouco, a expressão franzida com desconforto. Ela sabe que é melhor não interferir, especialmente quando eu estou radiante com o meu comando de alpha.
Eu dou um passo mais perto, baixando a voz pra que só a Luce possa ouvir a parte seguinte. 'Cuidado. Você está na beira de algo de onde você não vai voltar.'
A Luce nem se mexe. 'Você está tomando decisões com o seu coração em vez da sua cabeça, Damian. Vai matar todos nós.'
Eu inclino a cabeça. 'Você acha que um desafio público não vai? Você quer questionar minhas escolhas? Tudo bem. Mas não faça isso arrastando a Maya pra isso. Você passa por mim. Ela é a resposta à profecia e não podemos matá-la sem nos matarmos.'
Isso finalmente faz ela piscar. Ela não esperava que eu dissesse pra ela passar por mim.
'Eu já fiz minha escolha,' eu digo, mais alto agora, deixando a alcateia me ouvir. 'Se alguém quiser questionar isso, faça abertamente. Mas não finja que sua ambição é uma preocupação pela alcateia. Eu vejo através disso e você será derrubada antes que mais mal atinja essa alcateia.'
Murmúrios percorrem a sala como vento pela grama alta. Alguns lobos se movem desconfortáveis. Um casal balança a cabeça em concordância silenciosa.
A mandíbula da Luce funciona como se ela estivesse tentando encontrar uma resposta que não a machucasse mais. Mas o fogo nos olhos dela não diminuiu. Ela não tá desistindo. Ainda não.
'Eu não tenho medo de você, Damian,' ela diz, voz baixa.
Eu me inclino o suficiente pra ela sentir a ameaça por trás da minha calma. 'Você deveria ter. Porque, se você vier atrás dela de novo, eu não vou apenas te calar. Eu vou te remover dessa alcateia. Permanentemente.'
Então eu viro, sem esperar uma resposta, e volto pelo caminho que vim. Deixa ela remoer aquilo. Deixa a alcateia ver isso.
A guerra nem sempre vem com garras e dentes. Às vezes, começa com palavras.