Capítulo Noventa - Rival - Ponto de Vista de Damian Blackwood
Meu corpo fica tenso na hora. Eu afasto devagar Maya do meu lado, mas não completamente. Mantenho minha mão na cintura dela, firmando nós dois. O peito de Simon sobe e desce, os olhos arregalados de urgência.
"Onde?" Eu solto. "O que está rolando? Preciso de notícias agora."
"Pro sul. A gente não tava esperando por eles lá e eles já entraram na floresta. Ninguém tava fazendo patrulha por lá por causa da reunião e a maioria tava no canto norte."
Eu xingo baixo. Primeiro Luce. Agora isso? Alguém tá tentando nos destruir por dentro.
Maya cambaleia e se encosta em mim. "O que a gente faz?"
"Você fica aqui", eu digo sem hesitar. Apesar de meu tom estar mais suave que o normal, ela ainda me olha com olhos de corça. "Com Evelyn e outros. Você não tá pronta pra enfrentar nada ainda."
A boca dela se abre pra protestar, mas eu balanço a cabeça, não dando brecha pra ela dizer o contrário.
"Não tô dizendo que você é fraca, Maya. Tô dizendo que não vou correr o risco de te perder."
Ela hesita, aí concorda com a cabeça, finalmente cedendo à minha ordem. Evelyn vai pro lado dela, incentivando-a a ir com ela. Sei que ela vai mantê-la segura, mas isso me deixa nervoso.
Com elas indo pro corredor em direção à segurança dos quartos, eu me viro pro Simon. "Quantos são?"
Ele parece um pouco inseguro no começo, mas finalmente concorda com a cabeça. "Uma dúzia. Talvez mais. Todos lobos. Sem vampiros."
Embora seja um alívio ouvir, ainda não são boas notícias. Eu rolo meus ombros, já sentindo a transformação logo abaixo da minha pele. "Vamos nessa."
É isso que eles querem. Querem que a gente se distraia e se perca em todas as direções até que algo quebre, mas eles esquecem de uma coisa. Eu nunca fui quebrado antes e não pretendo começar agora.
Chego rápido nas portas da frente da propriedade, bem quando o primeiro uivo de aviso enche o ar. Os outros já estão se juntando.
Tão logo saio da porta, me transformo sem hesitar. Meus ossos estalam e pelos se arrepiam quando eu caio pra frente, sobre as mãos e os joelhos. Depois que acaba, eu corro.
O vento corta a minha pele enquanto eu avanço. Minhas pernas batem no chão da floresta embaçado. O cheiro dos intrusos vem com a próxima brisa, me atingindo forte. Eles não vieram pra conversar. Vieram por sangue.
Galhos chicoteiam ao passar por mim enquanto eu entro pelas árvores. Ouço minha alcateia atrás de mim. Simon e Marrak sendo os mais próximos.
Quando finalmente chego na clareira, eu os encontro. Eles param, todos ofegantes na minha frente. Estão mais perto do que eu gostaria, mas ainda não muito dentro. É quase como se tivessem esperado depois que Simon deu o alarme.
Mas por quê?
Enquanto olho pros lobos na minha frente, não reconheço nenhum deles. Seus rosnados ecoam no ar. Tem pelo menos uma dúzia deles, como o Simon disse. O alpha deles está na frente. Ele é enorme, preto como a noite, com olhos amarelos fixos em mim.
Ele dá um passo à frente, seus lábios se afastando num rosnado que me desafia a fazer o primeiro movimento.
Se eu pudesse dar um sorriso, eu daria. Desafio aceito.
Eu solto um rosnado baixo, gutural, do fundo do meu peito. Aí mostro minhas presas em resposta. Minha alcateia se espalha atrás de mim, silenciosa, mas pronta. Não precisamos de palavras pra saber o que vamos fazer.
Eu dou um passo à frente. Aí de novo.
O lobo negro rosna pra mim, dando seus próprios passos pra frente. Eu avanço antes que ele possa reagir, colidindo com ele no meio do rosnado. O impacto sacode o chão enquanto a gente cai na sujeira e nas folhas. Garras rasgam. Dentes se fecham. Ele é forte, mas não mais forte que eu.
Eu luto com tudo que tenho. Atrás de mim, a floresta explode em caos quando as duas alcateias se chocam.
Eu não me importo quem os enviou. Quem sabe quem é? Todos vão aprender a mesma lição hoje. Se mexerem comigo, com Maya, ou com minha alcateia, então vocês vão encontrar a morte mais cedo.
Enquanto a gente se separa, o lobo negro se recupera rápido demais. Mas eu sou mais rápido. Eu giro enquanto rolo, usando meu peso pra prendê-lo no chão. Minhas garras se cravam fundo no ombro dele. Ele grita, mais de fúria do que de dor. Eu cravo meus dentes na espessa gola do pescoço dele. Não é fundo o suficiente pra matar, mas o suficiente pra mostrar a que viemos.
Eu só ouço rosnados atrás de nós. Eu vejo flashes de pelos no canto do meu olho. Principalmente Simon jogando um lobo marrom no chão. Marrak rasga dois outros como se fossem nada. Minha alcateia não tá só segurando a barra.
Estamos realmente ganhando.
O lobo negro se debate, tentando me tirar de cima e consegue. Eu caio de quatro um pouco longe. Ele faz um círculo amplo, sangue pingando do ombro e do pescoço em pequenos filetes na frente dele. Ele tá mancando e machucado, mas não parece menos determinado.
Bom.
Eu dou um passo à frente, desafiando-o a me desafiar de novo.
Em vez de atacar de novo, ele se transforma na forma humana. Seus lábios se curvam num rosnado, revelando suas presas. "Isso não acabou."
Eu me transformo rápido, levantando, pronto pra enfrentá-lo nessa forma também. "Não, não acabou. Mas você já perdeu. Leve seus mortos e vá embora."
Ele olha pras árvores atrás dele, notando os poucos que sobraram. Eles pegam os corpos e começam a arrastá-los pra floresta enquanto recuam.
A luta acabou por agora.
O homem cospe sangue pro lado. "Você só está atrasando tudo. A profecia não muda nenhuma das regras. Uma humano nunca terá poder."
"Se você sabe o que é bom pra você, vai embora e nunca mais volta. Um humano pode ser exatamente o que te salva. Fale sobre ela de novo, e você vai ver exatamente o que eu vou fazer com você."
A mandíbula dele se fecha, mas ele não discute. Em vez disso, ele se vira sem mais uma palavra e desaparece nas árvores.
Silêncio segue.
Simon se aproxima mancando. "Tá de boa?"
Eu concordo com a cabeça. "Sim, tô bem. E você?"
Ele sorri através do lábio rachado, sangue escorrendo pelo queixo. "Nada que uma garrafa de whisky não resolva. Talvez uns pontos. Vou estar curado até amanhã de manhã."
Eu me viro em direção à propriedade, notando como todos estão machucados de alguma forma. Mas ainda estamos em pé e vivos. Meu coração bate forte nos meus ouvidos enquanto penso em Maya.
A única coisa que quero é voltar pra garantir que ela esteja bem.