Capítulo Catorze - Que Som É Esse? - POV de Maya
A primeira coisa que eu noto assim que meus olhos abrem é o meu pescoço. Tá tão duro que eu mal consigo mexer. Aí eu percebo que também estou com frio.
Enquanto sento, percebo como minha cabeça tava torta, e num ângulo mó ruim. Uma dor surda pulsa na base do meu crânio por causa do movimento. Eu me ajeito na cadeira e sento, embora meu corpo reclame de cada movimento. Dói, e um gemido escapa dos meus lábios.
Finalmente lembro onde estou e olho freneticamente ao redor, ignorando as dores no corpo. O quarto está banhado pela luz suave e pálida da manhã, com os raios de sol entrando suavemente pela janela.
Franzo a testa, tentando lembrar porque não voltei pra cama.
Então todas as memórias da noite passada voltam. Lembro da visita com a Evelyn, o Damian, e os uivos estranhos. Devo ter ficado inquieta demais pra ir pra cama.
Suspirando, estico minhas pernas, fazendo careta quando as agulhadas nos meus pés dão sinal de vida. O cobertor jogado em cima de mim escorrega um pouco, e eu congelo.
Eu nunca peguei um cobertor.
Meus olhos vão pra cama, e as cobertas bem dobradas me dizem que não mexi nela.
O que significa que alguém pegou isso pra mim e colocou por cima de mim.
Olho pro cobertor de novo, meus dedos roçando no tecido macio. Não é meu.
Um arrepio percorre meu corpo, e meu coração começa a disparar. Será que o Damian entrou no quarto enquanto eu dormia? A ideia faz meu estômago revirar.
Pode ter sido a Evelyn, mas eu nunca acordei, então não sei quem foi.
Levanto abruptamente, deixando o cobertor cair na cadeira. Meu corpo ainda está duro por dormir numa posição tão esquisita, mas a descarga repentina de adrenalina facilita empurrar a dor.
Atravessando o quarto, paro perto da janela e encosto minhas mãos no vidro frio, olhando pros jardins da propriedade. A floresta se estende sem fim em todas as direções, a luz do sol pegando nas árvores de um jeito que seria lindo se eu não me sentisse tão presa.
Os acontecimentos do dia anterior pesam em mim como uma pedra pesada, e as perguntas sem resposta giram na minha mente. O que o Damian tá planejando? Por que eu tô aqui? E por que não consigo parar de pensar no jeito que ele me olhou, como se eu fosse um fardo e algo precioso?
Pelo menos, é assim que eu acho que ele me olhou. Talvez eu esteja vendo tudo errado.
Aperto meus punhos, tentando afastar o pensamento. Sejam quais forem os motivos dele, não posso me deixar distrair por ele.
Viro as costas pra janela e pego o cobertor da cadeira, dobrando-o direitinho e colocando de volta onde encontrei. Se o Damian entrou durante a noite, não quero dar a ele a satisfação de saber que me abalou.
Uma batida suave na porta me assusta, e eu me viro, meu coração indo parar na garganta.
"Senhorita Maya?" A voz da Evelyn chama pela porta, gentil, mas firme. "Está acordada, querida? O café da manhã está pronto."
Solto um suspiro instável, aliviada que não é o Damian.
"Sim", digo, minha voz mais firme do que me sinto. "Já desço."
"Sem pressa", responde a Evelyn, seus passos sumindo pelo corredor. "Caso esteja se perguntando, fui eu que te cobri. Ninguém te incomodou ontem à noite."
Solto outro suspiro de alívio. "Ah, obrigada. Estava me perguntando de onde veio isso."
"Te vejo no café", ela diz antes de ir embora.
Olho pra cadeira pela última vez, então vou pro pequeno armário. Se vou encarar o que esse dia reserva pra mim, é melhor começar parecendo que não estou desmoronando.
Mesmo que eu esteja.
Coloco uma blusa limpa e um par de jeans do armário.
Café da manhã. Não estou com fome, mas a batida da Evelyn deixou claro que pular não é uma opção. É melhor eu aparecer, senão alguém pode vir me procurar.
Com esse pensamento, passo os dedos pelo meu cabelo pra ajeitá-lo. Não está tão ruim, então vou esperar pra arrumá-lo.
Abrindo a porta, entro no corredor, a quietude envolvendo-me como um cobertor pesado. A luz fraca filtrando pelas janelas não ajuda muito a afastar as sombras que pairam nos cantos, e a mansão parece tão fria e imponente quanto na noite anterior.
A medida que começo a andar, o toque suave dos meus passos contra o assoalho de madeira ecoa no silêncio.
É quando eu ouço isso.
Um som fraco, mal audível sobre os rangidos e gemidos da casa velha. É suave, agudo e passageiro, como se um animal estivesse choramingando.
Congelo, meus ouvidos se esforçando pra ouvir de novo. Por um momento, não há nada além de silêncio, e me pergunto se imaginei. Mas então ele vem de novo, um gemido baixo e pesaroso que envia um arrepio pela minha espinha.
Está perto.
Olho ao redor, meu pulso acelerando. O som parece vir do corredor, passando pela escadaria que leva ao andar principal.
"Olá?" Chamo baixinho, me arrependendo imediatamente quando minha voz ecoa.
Sem resposta.
A curiosidade luta com o bom senso, mas antes que eu possa me impedir, meus pés já estão indo em direção ao som. O corredor escurece à medida que vou mais longe, a luz das janelas desaparecendo à medida que o caminho se estreita.
O gemido vem de novo, desta vez mais alto, mais insistente. Parece que o que está fazendo o barulho está com dor. Meu estômago se contorce quando chego a um canto, e hesito antes de espiar.
O corredor à frente está vazio, mas o som está mais alto agora, vindo de trás de uma das portas fechadas. Eu me aproximo com cautela, meu coração martelando no meu peito quando estendo a mão pra tocar a maçaneta. Hesito, olhando de volta para o corredor. Não tem ninguém lá.
Voltando pra porta, eu me preparo e a abro.
O quarto ali dentro está mal iluminado, as cortinas pesadas bem fechadas. É menor do que os outros quartos que vi, com móveis simples e um tapete gasto cobrindo o chão. E no canto, encolhido perto de um sofá baixo, está um lobo.
Minha respiração para na garganta.