Capítulo Cinquenta e Nove - Me Pertence - Ponto de Vista de Damian Blackwood
Eu viro pra trás pra ver a Maya e percebo que ela não se mexeu nem um centímetro. Ela tá só me encarando, com uma expressão que é tipo uma mistura de confusão e medo.
"Maya..."
"Me leva de volta", ela me corta, me interrompendo.
Eu hesito. "Maya, eu..."
"Me leva de volta, Damian."
Ela aperta a adaga que eu dei pra ela com força enquanto fica de pé, mas dá pra ver que o corpo todo dela tá tenso só por causa desses poucos movimentos. O corpo dela treme, não só de medo, mas de tudo. A briga. A experiência de quase-morte e... por minha causa.
Eu sei que eu devia dizer alguma coisa pra consolar ela, mas eu não sei muito bem como. Humanos são diferentes de metamorfos. O que é normal pra mim não é pra ela.
Então, em vez disso, eu balanço a cabeça. "Bora."
A volta pra mansão é em silêncio. Eu fico perto dela, de olho nas coisas ao nosso redor, mas não encosto nela nem tento falar. De certa forma, eu sinto que não mereço, porque eu assustei ela.
Ela já passou por bastante coisa.
Quando a gente finalmente chega na mansão, a Evelyn corre pra frente, os olhos dela vão de um pra outro. As narinas dela se abrem quando ela sente o cheiro de sangue.
Sinceramente, ela não tá muito melhor que eu, pela cara dela, mas ela ainda tá preocupada. "O que aconteceu?"
Eu nego com a cabeça, sem querer responder. "Agora não."
A mandíbula dela se fecha, mas ela não discute comigo. Em vez disso, a atenção dela vai pra Maya. "Vamos. Vamos te limpar."
A Maya hesita, os olhos dela vão pra Evelyn. "Você não precisa se limpar?"
Ela olha pras várias arranhaduras nos braços e ri. "Isso vai sarar. Não é nada."
Os olhos da Maya arregalam. "Você enfrentou dois lobos gigantes e tá me dizendo que é só um arranhão?"
Agora é minha vez. Meus olhos se arregalam. "Dois?"
A Evelyn me olha, fazendo uma careta. "Sim. Tinha dois lobos bandidos e um vampiro lá dentro. Uma mulher pro vampiro."
"Essa eu matei."
A Evelyn olha pra Maya, depois pra mim. "Tem dois bandidos mortos no quarto dela. Parece que a Maya vai precisar de um quarto novo."
"Coloca ela no meu", eu digo antes que alguém possa me impedir. "Eu vou manter ela segura."
A Evelyn balança a cabeça, mas não é pra quem eu tô olhando. A Maya tá me encarando, como se não pudesse acreditar que eu acabei de dizer isso. Mas, ah, eu tô falando sério e disse mesmo.
Eventualmente, ela cede e segue a Evelyn pra dentro, me deixando lá fora com meus pensamentos.
Eu expiro enquanto passo a mão no meu cabelo todo bagunçado e embaraçado. Não passa nem um segundo e o Simon aparece atrás de mim, vindo da floresta, provavelmente confuso com o porquê de eu ter saído correndo de repente.
Quando eu viro, eu vejo ele me olhando. Ele ainda não disse nada, mas eu consigo sentir a confusão vindo daqui.
"Seu quarto? O que rolou?"
"Foi uma armadilha. Nos atraíram pra longe pra poderem vir pra mansão. Tinha dois bandidos e um vampiro no quarto da Maya. O vampiro tá morto na floresta e os lobos estão mortos no quarto dela. É por isso que ela vai pro meu quarto e vai ficar lá."
O Simon ri baixinho, mas não porque é engraçado. "Você tá ficando sem tempo. Se você não reivindicar ela logo, eles vão levar ela."
Um rosnado baixo sai do meu peito.
O Simon só dá um sorriso de canto. "É o que eu pensei. Seu lobo tá puto."
Aí ele vai embora, passando por mim pra entrar. Eu inclino a cabeça pra trás, olhando pro céu azul brilhante. Meus punhos estão cerrados dos lados e eu fico repetindo as palavras dele na minha mente.
Ele tá certo, e eu odeio isso, mas não tem nada que possa ser feito hoje. A única coisa que eu posso fazer é parar de deixar os ataques na fronteira me levarem pra longe e ficar aqui, onde eu posso vigiar ela.
A guerra tá chegando rápido. A Maya tá com muito medo de mim, de certa forma. E agora eu tenho certeza que um vampiro vai deixar todo mundo saber que ela é minha, só pelo que ele viu hoje.
Eu olho pra casa e, pela janela, eu vejo um movimento. A Evelyn tá levando a Maya pelo corredor pro lado da casa onde ficam os quartos. Eu consigo ver o brilho da adaga, mas só um pouquinho.
A cada segundo que passa, eu sinto que o inimigo tá chegando mais perto e a gente tá aqui, despreparados. A cada momento que eu hesito, eu tô dando uma vantagem pra eles.
Eles estavam dentro da mansão e no quarto dela. Eles passaram por todo mundo. Só esse fato já é o suficiente pra deixar meu lobo em frenesi.
Eu devia entrar e ver como ela tá, mas eu fico do lado de fora por mais alguns minutos antes de entrar. Claro, eu não quero nada mais do que ir até ela, mas, em vez disso, eu vou pro outro lado da mansão e encontro o campo de treinamento.
Vários lobos param o treino quando eu chego, sentindo a tensão saindo de mim. Os mais novos desviam o olhar, seus instintos provavelmente dizendo pra se submeterem agora antes que eu fique ainda mais puto do que eu já tô. Os lutadores mais experientes se mantêm firmes, mas até eles parecem desconfiados.
Bom.
Eu preciso brigar com alguém pra liberar a tensão.
Minha pele ainda tá coberta de sangue, e um pouco é meu, mas eu não ligo.
"Quem quer me enfrentar?" Minha voz sai como um rosnado.
Todos hesitam enquanto observam minha forma nua e notam o sangue. Aí um dos meus melhores guerreiros, o Casey, dá um passo à frente. Ele é forte, quase da minha altura, com um olhar suave que brilha com curiosidade. Ele sabe que não pode ganhar de mim, mas isso não vai impedir ele de tentar me vencer em alguma coisa.
Eu balanço a cabeça uma vez pra ele. "Transforma."
Ele não hesita. O corpo dele se contorce enquanto ele tira a roupa e joga no chão. Os ossos dele estalam quando pelos se espalham pela pele. Um lobo branco enorme fica na minha frente, rosnando baixo no peito dele antes de passar um minuto.
Eu não me transformo. Eu quero sentir a dor, porque eu preciso sentir alguma coisa.
O Casey ataca primeiro, as presas de fora. Eu desvio no último segundo e agarro a nuca dele, usando o impulso dele contra ele. Ele bate no chão, mas se recupera rápido, girando no ar pra atacar de novo em mim.
Dessa vez, eu deixo ele me dar um golpe.
As garras dele rasgam minhas costelas, fazendo ferimentos novos na minha pele. A dor alimenta o fogo que já tá queimando dentro de mim.
Bom. É isso que eu preciso.
Eu dou um soco, acertando a mandíbula dele, e ele sai escorregando pela sujeira. Ele se sacode e rosna pra mim, os olhos verdes brilhantes dele se fixando nos meus. Ele ataca de novo.
Eu desvio. Bato nele nas costas. Aí me movo.
A briga dura mais do que eu esperava, mas, eventualmente, eu derrubo ele com um chute brutal nas costelas.
Ele cai de lado, respirando pesado de tanto esforço.
O resto do bando nos observa em silêncio. Eu encontro os olhares deles um por um. "Estamos sem tempo. Os ataques estão ficando mais ousados e mais próximos. Eles entraram na mansão. Se a gente não acabar com isso logo, eles vão continuar vindo. De agora em diante, todo mundo treina com frequência. Ninguém vai a lugar nenhum sozinho."
Uns lobos balançam a cabeça em concordância, enquanto outros abaixam a cabeça em submissão. Eu rolo os ombros, tentando aliviar a dor nos meus ombros. Não funciona muito bem.
Porque, no final, não importa o quanto eu lute, não importa quanto sangue eu derrame, eu ainda quero ela.
"De novo."
Eu luto com mais alguns até a noite cair, aí vou pra dentro. A mansão tá quieta, mas eu sei que não estamos realmente seguros.
Eu vou direto pro meu quarto e suspiro quando abro a porta. Ela tá lá dentro. Eu consigo sentir ela.
Meu lobo, pela primeira vez, fica em silêncio quando eu entro e escuto a respiração suave dela.
É constante, mas não completamente relaxada, então ela tá acordada. Eu encontro ela sentada na beira da cama. Parece que ela tomou banho e tá com um roupão, mas também segurando a adaga perto do peito.
"Você ainda tá coberto de sangue", ela diz.
Eu olho pra mim. Os ferimentos do vampiro sararam, mas tem novos de tanto lutar. Minha pele tá manchada de sujeira e vermelho.
"Um pouco de sangue é meu, mas já secou. Um pouco é novo, mas um pouco é dos outros."
"Isso não melhora muito a situação", ela diz, apertando a adaga.
Eu chego mais perto, mas dessa vez ela não se assusta. É um progresso, e eu vou aceitar.
"Eu preciso tomar banho. Você pode ir dormir se quiser."
Ela bufa. "Como se eu pudesse dormir na sua cama."
Eu observo ela por um longo tempo, sem saber o que dizer. "Você tá segura nesse quarto, Maya. Eu vou ficar no banheiro aqui do lado."
Eu me viro, indo pro banheiro. Quando eu chego na porta, dou uma longa olhada pra ela, só pra ver ela me observando. Nossos olhos se encontram por um momento antes dela desviar o olhar rapidamente.
Eu dou um sorriso de canto.
Ela tá lutando contra isso, mas não vai demorar muito. O tempo tá acabando, e eu preciso agir agora.
E logo, ela não vai ter escolha a não ser aceitar o que ela já sabe no fundo.
Ela pertence a mim.