Capítulo Cento e Dezoito - Luna do Meu Coração - Ponto de Vista de Damian Blackwood
Assim que estou bem acordado, saio da cama e a gente se veste pra sair e ver a merda toda. Quando a gente sai, a primeira coisa que percebo é que o ar tá com cheiro de sangue e madeira queimada.
Tem um fogaréu sinistro ali do lado da propriedade, onde eu acho que tão queimando aqueles que a gente não pode enterrar.
{Maya} e eu sentamos num banco no jardim. Os cotovelos nos joelhos, com as mãos juntas. As minhas juntas tão brancas de tão forte que eu aperto.
Mas aí eu olho pra ela. Ela tá sentada do meu lado, com uma cara de tristeza. A qualquer momento, eu espero que as lágrimas rolem pelas bochechas dela.
Minha {Maya}.
Minha parceira.
{Ethan} aparece e chama a minha atenção. Quando ele chega perto o suficiente, eu olho pra ele com uma expressão séria.
'Como tão as patrulhas?'
'Mais dois confirmados mortos e um sumido. A gente não acha o {Lance}.'
Eu solto o ar devagar. Devia doer mais do que dói, mas acho que já não tenho mais lugar pra botar a dor.
'Ela salvou a gente, tá ligado? A gente tava todo mundo morto se ela não tivesse acordado os poderes dela. Obrigado por se machucar', ele fala, com uma risada baixa.
Eu solto uma bufada. 'Sim, eu sei. Eu não tava exatamente querendo me machucar, embora.'
'Ela é mais do que a gente esperava', ele admite, mantendo a voz baixa. 'Ninguém achou que a garota {humana} que você trouxe ia fazer isso, então mudou tudo.'
'Isso sempre foi parte dela. A gente só não sabia até pouco tempo', eu falo, olhando pra ela.
'Ela é especial.'
{Ethan} não fala mais nada. Ele só sai andando, em direção à pilha de fogo.
'Onde você acha que o {Lance} foi?', {Maya} pergunta, com a voz hesitante.
'Não sei', eu admito, com a mandíbula travada. 'Não dá pra saber. Um dos {vampiros} pode ter arrastado ele e deixado em algum lugar que a gente ainda não procurou', eu quase rosno as palavras. Dói tanto não saber. 'Hoje à noite, você vai, oficialmente, virar {Luna}.'
'Então, finalmente vou ter meu título formal', ela fala, rindo baixo enquanto enfia os dedos nos meus. 'Parece legal.'
'É legal', eu respondo, virando o corpo pra ela. 'Mas é mais do que só um título. Significa que vão olhar pra você do mesmo jeito que olham pra mim. É força.'
Ela se inclina pra trás, com os olhos passeando pela área queimada. O céu tá cinza de fumaça, enquanto o sol ainda tá nascendo. 'Eu não sei se tô pronta pra isso, mas sei que, com você do meu lado, eu consigo fazer qualquer coisa.'
'Ninguém nunca tá pronto, e com certeza eu não tô', eu falo, sendo honesto. 'Mas você já chegou tão longe. Você conquistou esse lugar, e não só isso, mas eu nunca vou te deixar ir.'
Ela não responde por um tempo. A gente só deixa o silêncio se estender entre a gente, enquanto a fumaça e as chamas sobem mais alto. Eu não pressiono ela. Às vezes, palavras não são o que a gente precisa. É tempo juntos e um simples toque das nossas mãos pra nos manter ligados ao momento.
Aí ela sussurra: 'Você acha que eles vão me ver como uma deles?'
Eu pauso. Não porque eu não tenho certeza da minha resposta, mas porque quero que ela ouça isso por inteiro.
'Alguns te viram como {humana}. Alguns como minha parceira. Agora?' Eu me inclino mais perto, encostando a mão dela no meu peito. 'Você é a {Luna} do meu coração e um farol de esperança pra eles.'
Ela vira pra mim, com os olhos cheios de lágrimas. 'Uau, isso é mais do que eu podia ter pedido. Não me sinto um símbolo de esperança.'
Eu afasto o cabelo dela gentilmente. 'Esperança não é sobre ser inquebrável. É sobre aparecer e estar lá, mesmo quando você tá em pedaços. Você fez isso e muito mais.'
Ela fecha os olhos, e eu sei que ela acredita em mim, mesmo que só um pouquinho.
A gente fica no jardim até o sol nascer mais alto, pintando o mundo de um dourado quente. O fogo continua queimando à distância, enquanto a última limpeza acontece. Um por um, os nomes dos caídos são falados em voz alta e enterrados com aqueles que eram nossos inimigos, nomeados o melhor que podíamos.
Assim que os últimos nomes são chamados, {Maya} e eu voltamos pra dentro, onde passamos o resto da tarde nos preparando pra cerimônia dela. Ela faz perguntas aleatórias que eu digo pra ela não se preocupar. Aí ela pergunta que tipo de roupa ela precisa usar, pro que eu digo que ela pode ir com minhas roupas e ninguém vai ligar.
É um momento simples, e embora a gente ria e se divirta, o momento ainda parece pesado. Muita coisa foi perdida pra gente ter nossa liberdade. Tantas mortes mancham nossas mãos, embora não tenhamos sido diretamente nós que as causamos.
Eu a pego no banheiro em um momento, perguntando pra ela mesma se tudo isso é culpa dela, porque ela lançou o feitiço originalmente pra causar a maldição.
'Não, não é sua culpa. Agora se prepara pra ir.'
Ela olha pra mim com lágrimas nos olhos. 'Mas fui eu que lancei.'
'Se o {Lorcan} me matou, então é culpa dele. Você lançou a maldição porque me amava e queria que a gente se reunisse.'
'Foi egoísta', ela fala, antes de desviar o olhar.
'Talvez, mas qualquer um podia ter lançado uma maldição sobre a gente, amor. Além disso, nem foi você que fez isso. É uma versão mais velha de você mesma que não existe mais. O que foi feito, foi feito, e agora estamos livres.'
Quando ela termina de se arrumar, eu faço o mesmo. Embora haja uma leve tensão no ar, ela logo some quando ela sai. Eu dou uma olhada pra ela e sorrio.
'Você parece pronta pra isso.'
'Não tô', ela ri timidamente antes de olhar pra baixo pra minha camiseta e shorts. 'A gente tá combinando pelo menos.'
Eu dou risada. 'Sim, estamos. Agora vamos fazer de você minha {Luna}.'