64. Sua Preocupação
Com uma cara de poucos amigos, Dayyan entrou na casa da Zahra. O cara, cheio de problemas, tava com uma cara de mais velho do que realmente é. A Zahra recebeu o Dayyan com um baita sorriso. Mas esse sorriso sumiu rapidinho quando ela viu o Dayyan puxar uma cadeira e deixar o bumbum cair nela de um jeito meio devagar.
"Valeu por vir cedo, Mas. Por que essa cara de enterro?" perguntou a Zahra. Não que ela não soubesse que o pai de família tava passando por um perrengue, mas ver a cara desanimada do Dayyan dava vontade na Zahra de carregar o peso dele.
"Normal, dona. Em casa a situação continua a mesma."
"A Athaya tá melhor?" perguntou a Zahra, oferecendo uma xícara de chá doce pra ele. Ela sempre deixava água mineral perto da vitrine pros motoboys que tavam esperando os pedidos ficarem prontos. Mas, especialmente pro Dayyan, uma xícara de chá fazia bem.
"Obrigado, dona."
O Dayyan fez que sim com a cabeça e tomou o chá doce da Zahra.
"Vou só preparar mais cinco marmitas, não vai demorar", disse a Zahra, deixando o Dayyan grudado no lugar dele.
"Que barra, seu Dayyan. Um cara tão bom como ele sendo testado com uns problemas tão sérios em casa", murmurou ela pra si mesma.
"Zahra, quantas marmitas ainda faltam?" perguntou a Mursida. A Zahra, que tava preparando as marmitas, não ouviu o berro da sua Umi.
"Zahra, a Umi perguntou quanto falta, só tem uns poucos ovos, tô com medo de não dar!" exclamou Mursida, com um tom um pouco mais alto.
"Ah, cinco, cinco a menos, Umi, a Zahra tá preparando."
"Você tá trabalhando e sonhando acordada, trabalhe e reze em silêncio, pra que a comida também seja uma benção."
"Sim, Umi." A Zahra não quis mais discutir. Ela preparou logo o pedido de cinco marmitas de arroz com acompanhamentos, como foi pedido.
De novo, a mente dela foi pro problema do Dayyan. Uma menininha tendo que ficar doente, o pai ocupado lutando contra a poeira das ruas pra entregar o pedido, aí em casa também tinha a mulher que tinha que se virar com todas as tarefas de casa. Quem quer que estivesse passando por um teste tão difícil, a Zahra tinha certeza que Allah ia aumentar a moral da pessoa.
Tring.
O barulho alto dos pedidos voltando pro celular dela quebrou a sua viagem.
"Alhamdulillah, peguei um monte de pedidos hoje", ela agradeceu a si mesma. A Zahra ficou grata porque ultimamente a torneira da sua sorte tinha sido aberta de verdade.
"Umi, tem mais ovos?" perguntou ela, enquanto seus olhos procuravam por todos os lados.
"Você disse que precisava de cinco, a Umi já tirou todos. O resto eu coloquei na geladeira."
"Tudo bem."
"Mais algum pedido?" perguntou Mursida, surpresa.
"Sim, só um."
A Zahra correu pra pegar os ovos na geladeira e esquentou eles por um tempo. Ela também pegou o arroz e todos os acompanhamentos que ela tinha feito. Tinha batata com molho, macarrão frito, picles e tempeh seco. Agora, um prato de arroz com acompanhamentos tava pronto pra ser servido.
"Mas, come primeiro, por favor", ofereceu a Zahra pro Dayyan, que tava fechando os olhos enquanto encostava a cabeça na parede. Vendo o Dayyan pasmado, a Zahra se sentiu culpada.
"Ele não deve ter dormido essa noite", pensou ela.
"Eu já tomei café da manhã. A Farah fez arroz frito e pediu pra eu comer antes de sair."
"Sua mulher deve se importar muito com a família", sussurrou a Zahra.
"Sim, como esposa, ela tem que dar atenção pro marido com todo o coração. Eu sinto muito por ele também. Ultimamente parece que ele não tem descansado o suficiente, a cara dele tá pálida porque ele fica acordado até tarde esperando a Athaya."
O olhar do Dayyan vagou, como se estivesse se arrependendo.
Porque ele perdeu o emprego, agora a Farah tinha que viver uma vida difícil.
"Eu consigo imaginar como sua esposa se sente. Vamos, come primeiro. O pedido tá pronto, vou embalar primeiro."
A Zahra deixou o Dayyan comendo de propósito. Ela não queria que a presença dela fizesse o Dayyan se sentir constrangido. Desde a noite passada, ela também tinha pensado em como era pesado o fardo da vida da família do Dayyan.
"Ela deve ser uma mulher forte, cuidar de uma criança doente exige preparo mental, físico e financeiro. Não consigo imaginar estar no lugar dela."
De novo, os pensamentos da Zahra não conseguiam escapar do Dayyan e da sua família.
Depois de esperar um tempo, a Zahra decidiu voltar pra varanda.
"Já acabou de comer, Mas?"
"Sim, dona. Muito obrigado, não preciso almoçar fora."
"Então, você deveria almoçar aqui todo dia, vai economizar dinheiro e você pode comprar lanches pra Athaya", sugeriu a Zahra. Ela nunca tinha conhecido a Athaya, mas de repente sentiu um carinho no coração pela coitadinha.
"Não se incomode, dona. Me faz sentir mal. Gente da rua não tem horário fixo, então é fácil comer em qualquer lugar."
"De agora em diante, não coma em qualquer lugar, Mas. Tem que ser aqui. O Dayyan não quer almoçar aqui porque minha comida não é boa?" perguntou a Zahra.
"Ah, não, é muito boa. É muito bom na minha língua." A Zahra sorriu.
Pra ela, a honestidade do Dayyan era um elogio.
"Bom, aqui tá a comida, Mas, eu compartilhei a localização da entrega, tenha cuidado. Não precisa correr, o importante é chegar em segurança."
O Dayyan ligou a moto depois de agradecer e cumprimentar. A Zahra sorriu pra partida do Dayyan até que o corpo dele sumiu na esquina do beco.
O Ehsan, que tava sentado na frente da casa da Zahra, fechou a mão.
"Que cara de pau esse motoboy! Sou eu que cuido da segurança aqui todo dia, e nunca me ofereceram comida. Ele só é cliente há uns dias, e de repente tá sendo alimentado!"
Brak!
O Eshan chutou a lixeira com força e gemeu de dor. O jovem desempregado apareceu imediatamente na frente da Zahra.
"Acabou de cozinhar, Neng?" perguntou ele casualmente.
"Agora mesmo", respondeu a Zahra, seca. O Ehsan, que tava esperando que oferecessem comida pra ele, mordeu o lábio.
Mais tarde, naquela noite, o Ehsan foi ver a Mursida. A Zahra tava recitando o Alcorão no quarto dela.
"Umi, desde quando a Neng Zahra serve comida na hora?" perguntou o Ehsan.
"O que isso quer dizer?"
"Hoje à tarde eu vi a Neng Zahra oferecendo pra comer com um motoboy que vem sempre."
"Ah, isso. A Zahra sempre, mesmo, compartilha comida com os motoboys que vêm sempre aqui. Bom, é como compartilhar sustento. A Zahra geralmente cozinha muito nas sextas-feiras, pra compartilhar com quem precisa."
"Sim, eu já sei disso. Mas isso é diferente, Umi. A Zahra tá dando um prato de arroz pro motoboy, que ultimamente tem vindo pra cá como se fosse tomar remédio, indo e voltando pra pegar pedidos."
A Umi franziu a testa. Os ovos que a Zahra tinha pedido hoje à tarde eram pro motoboy? O coração dela se perguntou.
"Até eu, o futuro marido, nunca me ofereceram comida, Umi, esse motoboy desconhecido de repente ganha uma mordomia? Eu, de qualquer forma, me conheço. Se é pra comer em casa também, só espero atenção. Assim, parece que é tudo em vão que eu tô esperando, Umi."
A Mursida ficou cada vez mais frenética quando ouviu a conversa do Ehsan.