68. Briga de Parentes
Em toda dificuldade, tem que ter uma facilidade. Era nisso que o Dayyan pensava e acreditava. Mesmo a situação estando super difícil e a sogra e a esposa dele botando muita pressão, ele acreditava que Deus ia dar um jeito, sabe? Uma saída.
A crença do Dayyan parecia dar frutos doces, tipo, atrás do perrengue da Athaya, tava rolando uma bênção escondida. Nesse dia, chegou uma notificação por e-mail falando que um dos currículos que ele tinha mandado pra empresa tinha sido respondido. E que, no dia seguinte, ele tinha que ir fazer uma entrevista.
"Que foi, Pa? Tá felizão?" perguntou a Farah, que viu o Dayyan mexendo no celular com uma cara de felicidade.
"É isso, Mãe. Alhamdulillah, o Pa tava há mó tempão mandando currículo pra essa empresa de fertilizantes. Aí, finalmente, me chamaram pra entrevista amanhã", explicou o Dayyan mostrando o e-mail pra esposa dele.
"Uau, essa empresa de fertilizantes não é grande?"
"É sim, Mãe. Amanhã o Pa vai pra entrevista. Reza aí pra o Pa ser aceito, Mãe", o Dayyan tava cheio de esperança e a Farah não conseguiu esconder a animação.
"Alhamdulillah, Pai. Vou sim, Pa. A Mãe tá sempre rezando por você. Tomara que você seja aceito e a nossa vida volte a ser como era antes", a Farah abraçou o marido.
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No dia seguinte, o Dayyan foi fazer a entrevista no escritório de pessoal. Todos os testes e entrevistas foram bem. Aí veio a hora de negociar o salário.
"Como você sabe, a situação dessa empresa, se você entrar, o salário que você vai receber é de acordo com o salário mínimo da cidade."
"O salário mínimo da cidade, 4 milhões?" o Dayyan ficou chocado.
"Sim, certinho. Salário mínimo com 12 horas de trabalho. Sem hora extra e sem benefícios pra quem tá começando. Nossa empresa tá se recuperando e a gente tem que sobreviver. Mas, se for um segundo contrato, a gente pensa nisso."
O cérebro do Dayyan funcionou rápido. Ele calculou que a grana que ele fazia por mês no ojek online podia chegar a 6-9 milhões, mais do que o salário oferecido.
Só com a grana do ojek, ele ainda tava na pior. Se ele trabalhasse na empresa, o horário ia ser das 7 da manhã até umas 8 ou 9 da noite. Depois do trampo, ele ia tá super cansado e não ia poder ajudar a esposa a cuidar da Athaya ou até mesmo fazer uma grana extra com o ojek à noite.
"Eu peço desculpas. Não dá pra negociar meu salário pra ser maior, senhor, considerando minha experiência como gerente na empresa anterior?"
"Até que dá. Mas no máximo 5 milhões."
"Pelo menos 6-7 milhões, senhor?" o Dayyan perguntou tentando de novo.
"Isso não dá. Você não é recém-formado nem nunca trabalhou nessa empresa antes. Então, só de ser aceito na nossa empresa, você já devia se sentir sortudo. É raro uma empresa aceitar uma pessoa desempregada com uma idade tão jovem."
O Dayyan engasgou de choque. De fato, ele já não era tão jovem. Mas ainda dava pra ser considerado produtivo.
"Você devia ser mais grato, arrumar um emprego fixo hoje em dia tá difícil demais. Uma vaga de emprego é disputada por centenas de pessoas. Se não atender suas expectativas, a gente pede desculpas, tem muitos candidatos qualificados esperando", disse o oficial de pessoal com firmeza, deixando o Dayyan sem palavras.
O Dayyan sentiu a esperança dele indo pro ralo. Ele, que tava cheio de esperança, se deparou com uma realidade que não tava batendo com as expectativas dele. Mas era verdade. Arrumar emprego não é fácil. Ainda bem que tinha alguém disposto a aceitá-lo.
"Então, você aceita esse trampo e, por favor, passa lá pra fazer a papelada e assinar o contrato de trabalho. Se não, pode vazar, tem um monte de gente esperando na fila lá fora pra fazer entrevista!"
No final, o Dayyan decidiu não aceitar o trampo e foi pra casa de mãos abanando.
"Pa, como foi a entrevista?" assim que entrou no quarto, a Farah já tava bombardeando ele de perguntas.
"Foi boa, Mãe", respondeu o Dayyan, tentando sorrir.
"Boa como? Você foi aceito, né?"
"Pode pegar uma água pra o Pa primeiro, Mãe? Tô com sede. Tá um calor danado na rua", o Dayyan abanou a mão no rosto.
"Ah, sim, Pa. Desculpa, esqueci de tanta animação", a Farah correu pra mesinha de cabeceira perto da cama da Athaya pra pegar um copo d'água.
"Aqui a água, Pa. Comprei lá fora. O chá doce gelado favorito do Pa pra dar uma refrescada", o Dayyan tomou tudo de uma vez.
"Agora tá renovado, né?" perguntou a Farah com um sorriso curiosão.
"Sim, Mãe. Obrigado. Tô me sentindo melhor do que antes."
"E aí?"
"Graças a Deus, passei e fui aceito, Mãe. Mas..."
"Mas o quê, Pa?" a Farah ficou ansiosa.
"Desculpa te decepcionar. Eu recusei a oferta de emprego", o Dayyan olhou pra baixo, cabisbaixo.
"Quê? Você recusou? Por quê, Pa? A gente não precisa de um emprego melhor pro nosso futuro? Você não tá cansado de dirigir ojek de sol a sol com uma grana que não dá pro nosso futuro e pro tratamento da Athaya?" a Farah bombardeou ele de palavras, deixando o Dayyan sem reação.
"Desculpa, Mãe, o Pa..."
"Então você recusou o emprego, Dayyan? Que tipo de cargo é esse que você recusou assim?" A Septin, que tava escutando a conversa no quarto, entrou de repente e interrompeu eles.
"Gerente de Marketing, Mãe", o Dayyan ficou tão chocado que gaguejou.
"Meu Deus do céu. Que arrogância você ter recusado um trampo de gerente. Ser motoboy é mais honroso do que ser gerente? A Mami tá chocada com você, Dayyan! Você não sente pena da Athaya e da Farah, ou não quer lutar pela vida delas? Você tá cansado da Farah, Dayyan?"
"Não é nada disso, Mãe. Dayyan..."
"Halaah! Tô decepcionada com você, Dayyan. Eu pensei que você ia mudar e viver uma vida mais ativa. Mas, na verdade, você ainda tá escolhendo aquele emprego casual que não paga muito. Você é egoísta, Dayyan!"
"Já chega, Mãe. Já chega...", a Farah interrompeu.
"Desculpa, Mãe..."
"Desculpa, desculpa! Tô cansada de ouvir isso. Você não sabe, eu tenho sido muito paciente em não participar de arisan, em não comprar roupas e joias novas. Eu tô até disposta a vender a minha casa pra comer o máximo que eu puder! Antigamente, quando o pai da Farah ainda tava vivo, como a gente ia viver uma vida tão difícil. Agora, em vez de ficar feliz por ter um gerente como genro, a casa que ela deixou tá flutuando!"
"Desculpa, Dayyan, Mãe. O Dayyan vai procurar um emprego melhor."
"Hah, tô cansada de ouvir suas promessas!" a Septin tava com raiva. Ela tava tão decepcionada que tinha imaginado que a vida luxuosa dela ia voltar se o Dayyan virasse gerente de novo.
"Deixa pra lá, Mãe. Não fica brava, é feio pra as pessoas ouvirem. Isso aqui é hospital", a Farah tentou acalmar a Septin. Ela, honestamente, não conseguia aceitar o Dayyan sendo xingado em público. Mas ela tava sem poder pra defender o marido.
A Septin, chateada, saiu. Enquanto isso, o Dayyan só olhava pra baixo. Ele nem teve a chance de explicar por que recusou. Ele sabia que a Septin e a Farah estavam desesperadas pra que a vida delas voltasse ao normal. Mas todas as expectativas delas caíram por terra.
"Pa, qual foi o motivo de você ter recusado o cargo?"
"Desculpa, Dayyan, Mãe. Mesmo sendo gerente, o salário dele é só o salário mínimo da cidade. Depois que eu fiz as contas, na verdade, a grana do motoboy é maior do que o salário dele."
"Mas você pode fazer ojek depois do trampo, né?"
"As horas de trampo são puxadas, Mãe. Se você fizer ojek, vai acabar com o seu corpo."
"Mas o cargo de gerente tem a oportunidade de receber um aumento e subir pra um cargo maior, Pai. Você também pode ganhar extra com bônus de vendas."
"Não, Mãe. Eu já confirmei. Eles são uma empresa que acabou de se recuperar."
"Mas, Pa, você devia ter um cargo, não só ser motoboy. A Mamãe não gosta de você fazer ojek."
"Mãe, fiz um pedido primeiro. Eu prometo, vou me candidatar de novo e me esforçar mais por você. Acredita no Pa. Deus já arrumou o sustento."
O Dayyan, que tava cansado e com dor de cabeça por causa da raiva da Septin e da decepção da esposa, saiu do hospital dizendo que tinha um pedido. A Farah não conseguiu evitar a decepção e começou a massagear as têmporas, que de repente deram dor de cabeça.