83. Lá fora, finalmente!
Demetria suspirou. "Por que você tá me olhando assim, tipo, querendo me matar? Tá brava comigo? Por quê?"
Clarice tava quase explodindo com a chata da Demetria, mas aí percebeu no último segundo que, não importa o que ela falasse, a Demetria ia fazer o que desse na telha. Não ia dar ouvidos pra nenhuma discussão. Na cabeça da Demetria, ela era dela, propriedade dela, e podia fazer o que quisesse sem se sentir culpada.
"Por que não me responde? Tá brava porque não viu nenhuma chance de fugir?" Demetria falou, óbvio.
Clarice mordeu o lábio e balançou a cabeça. "É, tô triste e brava, mas o que eu posso fazer? Sou sua prisioneira e sangue-suga. Tenho que obedecer todas as suas ordens pra te agradar", ela resmungou baixinho.
"Tô te ouvindo, 'Querida'", Demetria respondeu, sorrindo. "Quanto antes você aceitar seu destino, melhor vai ser. Por que resistir à sina, se ela já tá acontecendo? Só se entrega, porque não vai mudar tão cedo."
Clarice suspirou por dentro. "Não tem jeito de sair daqui dessa montanha?" ela perguntou, mesmo sabendo que podia não ter resposta da sua carrasca.
Demetria sorriu, achando graça na pergunta dela. "Quê? Ainda tá planejando fugir?"
Clarice não respondeu, fixando o olhar no chão.
"A resposta é não. Se você tentar escapar daqui enquanto eu estiver fora, as chances são de você cair direto nas pedras afiadas que te esperam no chão. Nunca tente fugir se você valoriza sua vida", Demetria avisou.
Clarice esperava que a Demetria fosse embora logo pra ela poder dar uma geral no lugar e planejar a fuga. Tinha que ter alguma passagem secreta pra sair da montanha. Se ela não desistisse, com certeza ia achar um jeito de sair!
"Me segue lá pra baixo, 'Querida'. Vamos pra sala de jantar. Já preparei seu almoço delicioso", Demetria disse e foi na frente.
Clarice não teve escolha, teve que seguir a Demetria escada abaixo, pro primeiro andar. Enquanto elas andavam no corredor, passaram por um total de dez quartos no segundo andar. O resto dos quartos tinha cadeado, o que significa que eram quartos proibidos de entrar.
"Caso você esteja se perguntando por que tem tantos quartos trancados nesse andar, a razão é que dentro desses quartos tem vampiros esperando pra serem despertados. Se você entrar nos quartos, esses vampiros hibernando podem acordar de repente, excitados pelo cheiro do seu sangue, e você vai virar comida de vampiro antes que você perceba. Confia em mim, não tô zoando", Demetria disse sério.
O peito da Clarice apertou de medo. Um vampiro sozinho já é difícil de lidar, imagina vários vampiros vindo pra cima dela de uma vez pra sugar o sangue dela, ia ser morte na certa!
"Esses vampiros não são tão bonzinhos quanto eu. São vampiros brutais, então eu tranquei eles dentro dos quartos. Então não abra as portas trancadas, ignore e cuide da sua vida. Se você obedecer minhas regras, você tá segura", Demetria acrescentou.
"Hmm, e o terceiro andar? Posso subir lá?" Clarice perguntou.
Demetria balançou a cabeça. "Não. Aquele é meu território privado. O terceiro andar é meu. Você não tem permissão pra ir lá. Se eu te pegar bisbilhotando lá, vou te punir! Você entendeu, 'Querida'?"
Clarice balançou a cabeça. "Sim, entendi."
"Bom." Demetria sorriu, satisfeita com a resposta dela. "Quero que saiba que, apesar do que você pensa de mim, desde que você continue obediente, não vai ter problema entre a gente. Vou te dar comida todo dia pra nutrir seu corpo, pra você não passar fome. Em troca, você vai me fornecer sangue quando eu quiser. A gente tá só alimentando um ao outro pra se manter vivo todo dia, uma situação de ganha-ganha, né?"
Não, você tá errada! Clarice ia protestar, mas ficou quieta. Demetria nunca ia dar ouvidos pra razão, então pra que perder tempo discutindo com ela?
"Clarice, tá me ouvindo?" Demetria interrompeu, tentando chamar a atenção dela.
"Sim, tô ouvindo", Clarice respondeu rápido.
Elas desceram a escada, chegaram no primeiro andar e andaram mais alguns passos.
Entraram na sala com uma mesa de jantar e cadeiras, bom pra dez pessoas. Na mesa tinham cinco tigelas de cerâmica, usadas pra guardar comida, e também utensílios limpos na bandeja.
"Senta aí", Demetria mandou.
Morrendo de fome, Clarice sentou na cadeira rapidinho e pegou os talheres, pronta pra comer a refeição dela.
Demetria tirou a tampa das tigelas de cerâmica e revelou pratos deliciosos como peixe salmão grelhado, frango ao mel e alho, salada de batata, fatias de manga madura e pão fatiado. "Espero que goste dos pratos que trouxe pra você hoje, 'Querida'. O resto da comida você pode comer mais tarde no jantar. Aproveite sua refeição. Vou esperar lá fora pra você comer no seu ritmo", ela disse casualmente e saiu da sala de jantar.
Com água na boca com a visão da comida deliciosa na frente dela, Clarice começou a comer. Comeu com um bom apetite.
Depois que ela terminou a refeição, ela cobriu as tigelas de cerâmica e juntou os pratos sujos pra lavar na pia. Saiu da sala de jantar e encontrou Demetria sentada numa cadeira perto da sala de jantar. "Onde fica a cozinha? Quero lavar a louça", ela disse.
Demetria apontou a mão pro quarto a alguns metros da sala de jantar. "Aquela é a cozinha", ela respondeu.
Clarice foi pra cozinha e lavou a louça na pia. Enquanto estava ocupada lavando, ela tava pensando de onde vinha a água e a eletricidade.
Depois que ela terminou as tarefas, ela saiu da cozinha.
"Já acabou?" Demetria perguntou.
"Sim", Clarice respondeu.
"Vamos continuar o tour pela casa. Me segue", Demetria disse, se levantando.
"Ok." Clarice seguiu Demetria pelo primeiro andar.
Ela descobriu que tinha mais dois quartos no primeiro andar. "Posso ficar nesse quarto?" ela perguntou.
As sobrancelhas da Demetria franziram. "Por que você quer ficar aqui? Esse quarto é menor que o que você tinha no segundo andar."
"Porque eu gosto desse quarto. É muito mais seguro aqui. Meu quarto lá em cima era cercado de vampiros dormindo. Tenho medo que eles acordem por causa do cheiro do meu sangue, então é melhor eu ficar longe deles o máximo que puder", Clarice explicou receosa.
Demetria deu um sorriso de canto. "Tudo bem, pode ficar com esse quarto. Pode ficar aqui o tempo que quiser. Se você quiser limpar esse quarto, a vassoura, a pá e os materiais de limpeza estão na despensa."
"Entendi. Obrigada." Clarice ficou feliz que a Demetria permitiu que ela ficasse no primeiro andar, fácil pra planejar a fuga dela.
Elas foram pra sala de estar espaçosa com um sofá e um lustre bonito pendurado no teto. Os móveis eram velhos, mas o sofá ainda é usável e confortável pra sentar. Surpreendentemente, a casa não tinha teias de aranha e poeira.
"Você limpou essa casa sozinha?" Clarice perguntou curiosa.
"Não. Contratei uma pessoa da cidade pra limpar o lugar a cada dois meses", Demetria respondeu.
"Ah, ok. Hmm, de onde veio a eletricidade e a água?" Clarice perguntou de novo.
"Ano passado, instalei painéis solares no telhado e a água veio do subsolo", Demetria respondeu casualmente. "Já que você está aqui, eu também posso comprar uma geladeira pequena pra manter os vegetais, peixes e carne frescos. Também vou comprar comida enlatada pra você cozinhar sua própria comida. Você gosta?"
Clarice sorriu. "Sim, por favor. Eu gostaria de cozinhar minha própria comida", ela respondeu animada.
"Tudo bem, você pode me dar uma lista de compras a cada duas semanas, pra eu comprar na cidade", Demetria concordou.
"Posso ir com você pra cidade pra comprar minhas próprias compras também?" Clarice insistiu.
Demetria, divertida, olhou pra cara da Clarice por alguns minutos. "Você quer ir comigo pra cidade pra escapar?" ela perguntou.
Clarice suspirou pesadamente. Demetria é esperta mesmo. É difícil enganá-la.
"Não fique triste, 'Querida'. Talvez um dia, se você continuar obediente, eu possa te levar pra cidade pra comprar mantimentos comigo. Continue sendo uma boa menina e evite me dar dor de cabeça. Com certeza vou te recompensar no final", Demetria disse, dando esperanças falsas pra Clarice, só pra ela calar a boca. Ela tá ficando irritada com as perguntas sem fim.
"Obrigada", Clarice disse, sentindo esperança de que o dia chegaria em que ela finalmente poderia ir à cidade e fugir.
"Tudo bem, chega de bate-papo, vamos continuar lá fora pra você ver a beleza do mar." Demetria foi até a porta principal.
As duas mulheres saíram pra luz do sol.
Clarice olhou pra Demetria com admiração. Ela percebeu que sua companheira vampira estava andando casualmente ao sol. A pele dela não estava queimando nada. "Como você não está queimando no sol?" ela perguntou, confusa.