87. O Sonho Lúcido
No meio da noite, o Alfa Callum ainda tava acordadão, tomando seu vinho, olhando pro céu cheio de estrelas no horizonte. A tristeza e a saudade tavam bem marcadas nos olhos dele.
O Beta Amir chegou na varanda e sentou numa cadeira vazia. "Alfa, já são meia-noite, hora de dormir", ele falou pro chefe sofrendo.
O Alfa Callum balançou a cabeça. "Não tô com sono ainda. Vai pro teu quarto e dorme", respondeu, desanimado, sentindo um vazio por dentro.
"Você tá dormindo tarde desde que a Luna Clarice sumiu. Beber álcool todo dia não faz bem pra saúde", o Beta Amir lembrou, já começando a bocejar.
O Alfa Callum suspirou fundo. "Eu sei o que tô fazendo. Só bebo o suficiente pra anestesiar a dor, não pra ficar doente", respondeu com a voz desanimada.
"Me desculpa, Alfa. Ainda não tem notícias do corpo da Luna Clarice aparecendo na praia. Sinto muito dizer isso... cada dia que a gente espera por boas notícias, mais eu acho que nunca mais vamos ver ela", o Beta Amir falou, triste.
O Alfa Callum respirou fundo. "Você tem razão. Uma hora eu vou parar a busca, mas não agora. Ainda tenho esperança de achar o corpo dela um dia desses."
"Hum, o estranho é o seu filho Caden. Ele não para de falar que a 'Mãe' dele vai voltar logo. Acho meio esquisito", o Beta Amir disse, coçando a cabeça, confuso.
"Meu filho só tá tentando se consolar com a ideia de que a mãe dele ainda tá viva. Não posso culpar meu filho. Ele ainda é pequeno, não consegue entender direito o que é a morte. Quando ele crescer, vai entender melhor", o Alfa Callum falou, cabisbaixo.
"OK. Aliás, as pessoas que a gente colocou pra vigiar a Luna Aurélia e o Kaspar, não viram nada fora do normal com eles. A gente achava que eles tinham alguma coisa a ver com o sumiço da Luna Clarice. Infelizmente, não temos provas pra incriminá-los no caso da sua esposa. A gente continua vigiando eles?", o Beta Amir perguntou.
"Sim. Continua mandando gente vigiar eles, só para quando eu mandar", o Alfa Callum respondeu, rosnando, segurando uma tosse que tava vindo.
"Entendido, Alfa." O Beta Amir tava com medo de ter irritado o chefe com a intromissão. "Acho que preciso dormir agora. Tô muito sonolento, as pálpebras tão pesadas", ele disse, se levantando, pronto pra ir embora.
"Vai lá, te vejo de manhã", o Alfa Callum respondeu, calmo, com um aceno de cabeça. Ele tomou um gole do vinho e continuou olhando pro céu escuro, pensando mil vezes no que aconteceu com a Clarice no momento em que ele saiu de perto dela pra pegar o café dos dois no restaurante.
Ele não consegue tirar aquela cena da cabeça. Quando ele saiu, a Clarice tava sozinha naquele lugar. Não tinha mais ninguém por perto? Ou talvez tivesse? Mas não estavam perto dela. Foi naquele momento, na ausência dele, que o sumiço da Clarice aconteceu, como se o destino tivesse esperado ele sair pra poder levar a esposa dele e fazê-lo sofrer pra sempre. Será que isso é um castigo por ter matado tantos lobos no passado? Tudo em nome da paz?
Suspiro.
Se ele não tivesse deixado a esposa dele pra trás e a levasse com ele pra comprar o café, ela nunca teria sumido e caído na água. A culpa é toda dele!
Se ele soubesse o que ia acontecer, talvez pudesse ter evitado o sumiço da esposa.
Ele fechou os olhos, enquanto ondas de tristeza batiam no coração dele, fazendo lágrimas rolarem dos olhos. Ele respirou fundo e tomou o resto do líquido na taça de vinho. Hora de parar de beber e ir pra cama. Ele precisa dormir porque amanhã vai acordar pra cumprir seus deveres e encarar a realidade de que sua amada esposa já se foi.
Ele pode nunca mais vê-la viva nessa vida. Esse pensamento perturbador o deixou profundamente triste, e ele lutou pra não chorar. Homens não choram! Droga!
Ele lutou pra não jogar a taça de vinho na parede de raiva e desespero.
Ele saiu da varanda e entrou no quarto. Não se preocupou em colocar o pijama, só apagou a luz e deitou na cama. Ele fechou os olhos, com o coração afogado na tristeza.
Uns minutos depois, ele entrou num sono profundo. Enquanto dormia, ele sonhou com a esposa.
O sonho se desenrolou lentamente como uma cena de filme na consciência dele.
A porta do quarto abriu e a Clarice entrou e foi até a cama. Ela colocou as mãos na cabeça do marido e massageou o couro cabeludo dele com carinho. "'Marido', como tá a vida depois do meu sumiço?", ela perguntou.
O Alfa Callum abriu os olhos e olhou nos olhos da esposa. "Terrível! Por favor, volta pra mim. Preciso muito de você. Sinto muito a sua falta. Minha vida tá vazia. Por favor, volta pra mim", ele implorou, com a voz cheia de saudade e desespero.
Uma lágrima caiu dos olhos da Clarice. O coração dela se quebrou em milhões de pedaços depois de ouvir o pedido desesperado do marido. Ela balançou a cabeça e disse: "O destino é cruel com nós dois. Talvez eu não possa mais voltar pro seu lado. Você precisa seguir em frente com sua vida e me esquecer. Continue vivendo pelo nosso filho e pelas pessoas que precisam da sua orientação. Se um dia você conhecer outra mulher que faça seu coração bater de novo, vá em frente, pode casar com ela. Por favor, não me espere mais, porque eu já morri", ela disse, triste. Lágrimas de tristeza inundaram o rosto dela.
"Não! Não vou casar com outra mulher! Só quero você. Nosso filho precisa de você. Por favor, volta pra gente!" o Alfa Callum disse, abraçando a esposa desesperadamente, com medo de deixá-la ir.
O casal se abraçou, trancado num abraço apertado, sem querer se soltar.
De repente, uma sombra em forma humana apareceu no meio do quarto e disse: "Clarice querida, o tempo acabou! Precisamos continuar nossa jornada. Agora é hora de você dizer adeus ao seu marido."
O Alfa Callum olhou pra sombra flutuando no canto do quarto. "O que é isso?", ele perguntou.
"A sombra é meu benfeitor, que agora é dono da minha vida. Ela é a razão pela qual não posso mais voltar pro seu lado. Ela é o anjo da morte que veio buscar minha alma para o céu. Agora é hora de dizer adeus, 'Marido'. Eu te amo muito. Nos vemos no pós-vida", a Clarice disse, com a voz desanimada. Ela se soltou do abraço dele e deixou a cama relutantemente.
O Alfa Callum estava prestes a se mexer pra impedir a esposa de deixá-lo, mas não conseguia mover o corpo. Ele só podia olhar em desespero e desamparo quando a esposa se juntou à sombra.
"Cuide do nosso filho, diga a ele que eu o amo muito. 'Mamãe' não pode mais cuidar dele, e isso parte meu coração." A Clarice explodiu em lágrimas, o corpo tremendo enquanto a angústia e a tristeza apertavam o coração dela dolorosamente.
Extremamente irritado por não poder fazer nada pra impedir que sua esposa fosse levada pelo anjo da morte, o Alfa Callum gritou com toda a força pra impedir tudo de acontecer, mas nenhum som saiu da boca dele.
"Adeus 'Marido', eu te amo muito." A Clarice plantou o último beijo nos lábios do marido enquanto a silhueta dela sumia da visão dele rapidamente.
No momento em que ela desapareceu completamente da vista dele, foi também o momento em que ele conseguiu mover o corpo. Ele desabou e chorou como uma criança depois de perceber que o anjo da morte finalmente levou a alma da esposa pro submundo.
"Volta! Não me deixe sozinho!" o Alfa Callum chorou, impotente, com a voz rouca. Sua esposa, deixando-o mais uma vez pela última vez, partiu seu coração, submetendo sua alma a sofrimentos de uma vida inteira.
Então ele se mexeu no sono e finalmente acordou. Ele ouviu o barulho alto de uma batida na porta. Ele olhou pra porta, com a mente em completo desarranjo. Ele estava esfregando os olhos vigorosamente, tentando se livrar da névoa que pairava no cérebro. "Quem é?" Ele rapidamente se levantou da cama e foi até a porta e abriu.
O Beta Amir estava parado do lado de fora da porta. "Alfa, desculpa incomodar seu sono, recebi notícias ruins de um dos guardas vigiando a Viviana na propriedade dela na praia..."
"Que tipo de notícia ruim?" o Alfa Callum perguntou, alarmado. Instantaneamente, um brilho de preocupação apareceu em seus olhos. Ele estava preocupado com o bem-estar da filha pequena. "Aconteceu alguma coisa com minha filha?" ele perguntou, ansioso.
"Não, o bebê tá bem. Tanto a mãe quanto a filha estão bem. A casa foi consumida pelas chamas e os bombeiros acabaram de chegar e estão tentando salvar a casa", o Beta Amir explicou com pressa.
O Alfa Callum ficou aliviado. Sem tempo a perder. Sua filha precisava dele. "Que bom que elas estão bem. Vamos teleportar pra lá agora!" ele disse com um tom tenso.
"Entendido, Alfa!" o Beta Amir respondeu.
Uns momentos depois os homens desapareceram da mansão, a caminho da propriedade da Viviana que estava pegando fogo na praia.