5. Vingança!
Ele tava sentado no sofá, mó tempão já. A cabeça dele tava tipo, debatendo se ia ficar do lado da Clarice pra cuidar dela a noite toda ou se ia vazar pro casarão do Alfa Bruce pra ir no casamento com a nova Luna dele.
Ele não tava nem aí pro casamento, real.
Uma parte grande dele queria ficar do lado da Clarice e sussurrar no ouvido dela pra lutar pela vida dela, pra ela finalmente poder levar ele pro filho.
Uns minutos depois, o Vovô Eliezer desceu as escadas. "Ainda tá aqui? Achei que já tinha ido embora!" ele perguntou.
"Já volto," respondeu o Alfa Callum.
"Vou sair pra pegar umas ervas pra fazer um remédio mais forte pra ajudar o corpo da Clarice a botar pra fora todo esse veneno que tá ferrando os órgãos dela. Sorte que você trouxe ela pra mim na hora certa, senão ia ter que cavar a cova dela começando agora," falou o Vovô Eliezer, suspirando aliviado.
"Quer dizer que ela vai sobreviver ao envenenamento?" perguntou o Alfa Callum, otimista.
"Agora, posso dizer que ela tem 50% de chance de sobreviver. Um tempinho atrás, era só 10%, mas agora a situação dela melhorou muito. Amanhã de manhã a gente vai saber se o corpo dela consegue se recuperar totalmente. Tô esperando que o sistema dela jogue fora a maior parte do veneno da corrente sanguínea amanhã," explicou o Vovô Eliezer.
"Boa, Vovô," disse o Alfa Callum, feliz com as boas notícias.
"Ela vai acordar a qualquer hora," acrescentou o Vovô Eliezer.
"Precisa de ajuda pra pegar as ervas, Vovô? Posso te ajudar com qualquer coisa," ofereceu o Alfa Callum.
"Não precisa da sua ajuda. Eu me viro. Você faz o que precisa fazer. Não vou demorar muito. Já volto em uns minutos." O Vovô Eliezer foi em direção à porta e saiu de casa.
O Alfa Callum se levantou e olhou pra escada. Ele queria ver a Clarice antes de sair da floresta.
A Lorey desceu as escadas com uma bacia cheia de água.
"Como ela tá?" ele perguntou.
"Ela ainda tá desacordada, Alfa. Mas a respiração dela tá estável agora," respondeu a Lorey.
"Boa," ele falou, aliviado. "Sabe onde a Luna Clarice escondeu o filho dela? Você já viu o filho dela?" ele perguntou, na expectativa.
"Não, Alfa." A Lorey balançou a cabeça. "A Luna Clarice só me falou do filho dela uma vez, mas toda vez que ela ia ver a criança, ia sozinha. Ela não quis me levar pro esconderijo do filho. Talvez porque tava tomando cuidado pra o segredo dela não chegar nos ouvidos do marido dela."
"Entendi," murmurou ele. "Onde você vai?" ele perguntou.
"Vou pra cozinha. O Vovô mandou eu cozinhar mingau de arroz, caso a Luna Clarice acorde com fome. Ela precisa comer coisas leves pra ajudar na recuperação," respondeu a Lorey.
"Beleza, vai pra cozinha então. Eu fico de olho na Clarice no quarto enquanto você cozinha o mingau," ele falou, indo em direção à escada.
"Obrigada, Alfa." A Lorey foi pra cozinha e começou os preparativos.
O Alfa Callum subiu as escadas com vontade. Quando chegou no quarto, a Clarice tava deitada na cama, de olhos fechados. O rosto dela brilhava de suor. Ele pegou a toalha da mesinha e limpou o rosto dela com cuidado.
Enquanto limpava o suor, ele suspirou pesado. A Clarice agora é a sombra do que ela costumava ser. De mulher bonita, saudável e cheia de energia, ela agora tava só pele e osso.
Ele botou a toalha na mesinha. O coração dele tava pedindo vingança. Ele ia adorar matar a pessoa que envenenou a Clarice. Mas ele ainda não sabe a história toda.
Balançando a cabeça, ele só conseguia olhar a situação dela com tristeza. As bochechas fundas e o corpo magro dela doíam de ver. Ele tava revoltado que aqueles seres desprezíveis tinham conseguido envenenar a Clarice por um tempão, sem ninguém perceber!
Uma mistura de tristeza, pena e raiva manchava o rosto dele, bonito e rústico.
De repente, os olhos da Clarice se abriram. "Água! Água! Por favor, me dá água. Tô com muita sede!" ela gritou, como se estivesse morrendo de sede.
O Alfa Callum pulou na mesinha perto e já encheu o copo de água. Ele voltou pra cama, botou o copo na mesinha e levantou o corpo frágil da Clarice, botando ela sentada. Com o peito dele apoiando as costas dela, ele colocou o copo na boca dela com cuidado, pra ela beber água devagar.
Desesperada por água pra matar a sede, a Clarice tentou beber tudo de uma vez.
"Bebe devagar. Você pode engasgar," ele avisou. "Só bebe a água devagar," ele falou com carinho.
A Clarice olhou pra cara dele por uns segundos e continuou bebendo água devagar. Lágrimas de gratidão se formaram nos olhos dela. Depois que ela terminou de beber dois copos de água, ela se deitou na cama com a ajuda do Callum.
"Obrigada por me salvar. Eu te devo a minha vida," falou a Clarice, com gratidão. A boca dela tremia, os olhos cheios de lágrimas.
"Shhh, não chora. Para com isso. O Vovô Eliezer tá trabalhando duro pra te curar com os remédios dele, pra botar o veneno pra fora do seu corpo. A gente vai te ajudar com os remédios, pra você se recuperar logo, daí você me leva pro nosso filho depois. Eu quero ver nosso filho, abraçar ele e falar que sou o pai dele," disse o Alfa Callum, com a voz cheia de emoção e saudade do filho que ele não sabia que existia por todos esses anos.
A Clarice concordou com a cabeça. "Não se preocupa, depois que eu estiver forte o suficiente pra andar sozinha, eu te levo pra conhecer nosso filho. Já tá na hora de vocês se conhecerem. Cansei de esconder esse segredo de você por um tempão." Ela concordou com tudo.
De repente, o rosto do Alfa Callum ficou sombrio. "Por que demorou tanto pra me falar do nosso filho?" ele perguntou, bravo.
"Porque a gente já tinha seguido em frente. Eu casei com o Alfa Bruce e você casou com a Luna Viviana. Não podíamos ser vistos juntos em público. E também, eu sou a Luna do Bando Bloodhound. Não posso ter um filho fora do casamento. Ia manchar minha reputação," ela explicou, com a voz arrependida, se sentindo péssima.
"Você só se importa com seus sentimentos e com sua reputação. Você não se importa nem um pouco com os meus sentimentos!" ele rosnou, irritado.
"Me desculpa," falou a Clarice, triste, se sentindo culpada por esconder o segredo dele por tanto tempo.
O Alfa Callum queria continuar jogando um monte de xingamentos nela pra aliviar a raiva dele, mas ela tava parecendo tão destruída e frágil agora. Ele tava com medo que ela parasse de respirar se ele continuasse fazendo ela se sentir culpada. "Eu quero que você tome todos os remédios do Vovô sem questionar, pra você melhorar logo. Você não pode morrer, tem que continuar vivendo, pra eu conhecer meu filho. Entendeu?" ele disse, com a voz dura.
"Sim, eu entendi." A Clarice concordou com a cabeça.
O Alfa Callum respirou fundo. Ele tinha que parar de brigar com ela e dar um espaço pra ela respirar.
A Clarice olhou em volta do quarto. "Onde eu tô? Onde é esse lugar?" ela perguntou.
"Você tá no quarto da casa de madeira de dois andares do meu avô, no meio de uma floresta de dez hectares. Comprei esse lugar pra ele. Ele mora aqui isolado, curtindo a tranquilidade e aprimorando suas habilidades de cura. Você tá segura aqui," garantiu o Alfa Callum.
"Muito obrigada por me salvar e por tudo," falou a Clarice, agradecida. Um alívio enorme veio sobre ela depois de saber que já tava segura do xamã malvado e das armações da Aurélia.
"Não precisa agradecer. Eu faço qualquer coisa pelo meu filho," ele respondeu. "Também trouxe a sua empregada pra cuidar de você. A Lorey tá na cozinha agora, fazendo mingau pra você comer quando acordar," ele disse, com a voz grossa. A voz dele ainda tinha um pouco de raiva.
Lágrimas de gratidão encheram os olhos da Clarice. "Muito obrigada por ajudar a mim e à Lorey. Um dia eu vou recompensar vocês."
"Não precisa. Como eu disse, eu faço qualquer coisa pelo meu filho. Vou pegar a sua empregada pra ela te ajudar a tirar esse vestido suado." O Alfa Callum foi pra porta e saiu do quarto.
A Clarice chorou em silêncio, apesar da situação péssima dela, ela se sentiu bem melhor agora. Ela achou que ia morrer hoje. Ela tem que agradecer à Deusa da Lua por ter mandado o Callum pra ajudar ela na última hora, salvando a vida dela no processo.
Ela olhou pra janela. Já é fim de tarde. Mais cedo ou mais tarde, a escuridão da noite vai cobrir tudo em volta e o casamento do marido dela e da melhor amiga dela vai acontecer em poucas horas. Se ela não estiver enganada, as pessoas no casarão já descobriram que ela e a Lorey sumiram do quarto. Mas se todo mundo estiver ocupado com os preparativos do casamento, ninguém vai saber e vai fazer um escândalo por causa do sumiço delas até amanhã.
Ninguém vai estragar o clima de festa da cerimônia do casamento anunciando as más notícias na frente de todo mundo pra outras esposas de Alfas fofocarem. O sumiço dela vai ser o presente dela pro casal novo. Ela fez uma careta, com ressentimento. A traição deles deixou um gosto amargo na boca dela.
Ela fechou os olhos por uns minutos, tentando sentir o que tava sentindo por dentro. A sensação de queimação na barriga dela tinha passado, só sobrou a dor chata. Qualquer remédio que o Vovô Eliezer tinha dado pra ela enquanto ela tava desacordada tava funcionando pra evitar que o veneno queimasse os órgãos dentro do estômago dela.
Um dia, ela vai voltar pra se vingar de quem fez mal pra ela!
A porta abriu e a Lorey entrou no quarto, carregando uma bandeja de madeira. O cheiro do mingau delicioso, cozido com gengibre e ervas medicinais, encheu o ar, fazendo o estômago dela roncar de fome.
A Lorey sorriu ao ver os olhos da patroa dela bem abertos. "Luna, que bom que você já acordou. Tá com fome? Eu trouxe uma tigela de mingau de frango com arroz delicioso com bastante gengibre," ela falou, animada.
A Clarice sorriu, feliz de ver a empregada leal dela viva. Ela tava agradecida que o Callum tinha trazido a Lorey pra perto dela. O xamã malvado ia torturar a Lorey se pegasse ela. Elas estão seguras agora no meio da floresta. "Tô com muita fome. Por favor, traz o mingau pra mim, pra eu poder começar a comer. Tô faminta!" ela disse, querendo muito comer uma das comidas que a confortavam.
A Lorey trouxe a bandeja pra cama. Ela ajudou a patroa dela a sentar e deu comida pra ela devagar com o mingau delicioso.
Por causa da fome extrema, a Clarice acabou a tigela de mingau delicioso num piscar de olhos.
Depois de uns minutos comendo o mingau delicioso, a Clarice sentiu que a comida que ela comeu tava voltando pra garganta. "Vou vomitar!" ela gritou.
A Lorey pegou a bacia embaixo da cama e colocou a bacia na frente da patroa dela rapidinho.
A Clarice vomitou na bacia. Lágrimas encheram os olhos dela.
"Ah, que nojo!" falou a Clarice entre lágrimas, enquanto continuava vomitando na bacia.
"O Vovô disse que vomitar é normal na sua condição. É melhor pra você botar o veneno pra fora do corpo. O remédio tá funcionando agora. Você vai ficar boa," a Lorey falou, consolando, esfregando as costas da patroa dela com cuidado.
"Tô me sentindo mal. Vomitei todo o mingau que comi um tempo atrás," falou a Clarice, desanimada. Os olhos dela estavam cheios de lágrimas.
"Ainda tem mingau suficiente pra você comer, Luna. Depois de descansar, você pode comer de novo," falou a Lorey.
"Obrigada, Lorey," falou a Clarice, com o coração, agradecida pelo apoio e lealdade sem fim da empregada dela.
"É um prazer servir você, Luna," disse a Lorey, com carinho. Ela se levantou, foi pro banheiro e jogou o conteúdo fedorento da bacia no vaso sanitário. Depois, saiu do quarto e foi pra baixo lavar a louça suja na cozinha.
De volta ao quarto.
A Clarice descansou confortavelmente na cama, olhando pra janela, triste, pensando no que o futuro reservava pra ela agora que ela não tinha mais marido e nem um bando pra voltar. Ela perdeu a melhor amiga dela também. Ela perdeu os pais dela dois anos atrás num acidente de trem trágico, que matou todos os 200 passageiros a bordo.
Ela ainda tem um filho, no entanto. Ela ia dedicar o tempo dela a criar ele.
Ela fechou os olhos por um momento.
Na mente dela, ela viu a visão do marido dela, do xamã e dos rostos da Aurélia sorrindo felizes durante a comemoração do casamento. A visão fez o sangue dela ferver.
Como ela pode punir aquelas pessoas que traíram ela e envenenaram ela até a morte?
O que uma mulher fraca e sem poder como ela pode fazer pra conseguir justiça e se vingar de todas as pessoas que fizeram mal pra ela? Ela nem tem um lobo pra pedir ajuda pra começar.
A cabeça dela tava bombardeada com perguntas difíceis de responder que ela ainda não tinha resposta.
Só sabe que o caminho da vingança é um caminho longo e cheio de perigos a cada esquina.
Obviamente, ela não tá pronta pra vingança na condição dela agora.
O caminho pra uma recuperação rápida é o que ela tá tentando focar agora. Ela ainda não sabe a extensão total dos danos que o corpo dela sofreu por causa de todo o veneno que ela acumulou no sistema dela. Ela esperava que ainda pudesse se recuperar totalmente.
Por enquanto, o objetivo principal dela é melhorar, depois se vingar quando ela recuperar toda a força dela. Um dia, ela vai sair das cinzas da queda dela e punir todo mundo que fez mal pra ela. Um dia!